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Professor de dublagem, Herbert Richers Jr. fez análise para aceitar nome

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Herbert Richers Jr. grava a série "Ilha de Ferro", da Globo Imagem: Divulgação

Paulo Pacheco

Do UOL, em São Paulo

18/06/2018 04h00

"Versão brasileira: Herbert Richers". Você certamente já ouviu esta frase. Afinal, quem nunca assistiu a algum desenho, filme ou dramalhão mexicano dublado pelo estúdio carioca, como "He-Man", "Star Wars", "Titanic" e "A Usurpadora"? A companhia carioca fechou há oito anos, mas o legado ficou nos trabalhos ainda exibidos na TV e no nome do filho caçula do fundador, Herbert Richers Jr.

Aos 63 anos, o ator, dublador e diretor ministra em São Paulo cursos de dublagem, que para ele é uma "ciência exata". Ele também canta com uma banda no projeto "Versão Musical Brasileira", em que traduz para o português sucessos internacionais.

"Tenho investido em formação e ensino a dublagem em que acredito, alta costura, o que descobri tardiamente. Fui chamado para dublar 'Os Kennedys' e pensei que tiraria de letra, mas apanhei muito. Comecei a ensaiar e estudar a 'partitura' que o ator fez e está impresso no corpo dele. É a chave para a dublagem perfeita, que para mim é uma ciência exata. A boa dublagem desaparece, é aquele em que você acha que o filme foi feito em português. A experiência em dublagem me levou a fazer versões de músicas", explica Richers Jr. ao  UOL.

Ao contrário do pai, que evitava aparecer, Herbert Richers Jr. tem um rosto mais conhecido por ter feito novelas como "Laços de Família", "Lado a Lado", "Em Família" e "Pega Pega". Ele está no elenco da série "Ilha de Ferro", da Globo, com Cauã Reymond e Maria Casadevall no elenco.

"Faço Horácio Bravo, ministro de Minas e Energia, pai da Maria Casadevall e filho do Osmar Prado. Não quis fazer aquele político de sempre, filho da p..., mas aquele que acredita no que está falando, algo raro. Trabalhei na Globo como diretor durante quase 11 anos e nunca vi um produto tão bem feito. É impecável. O resultado vai ficar excepcional", elogia.

"Era como se eu me chamasse Volkswagen"

O nome famoso foi um tormento para Herbert Richers Jr., que chegou a renegar o próprio batismo porque se chamava como uma "marca". Após sessões de análise e a morte do pai, o artista aceitou e carrega o nome de Herbert Richers com orgulho.

"Era horrível. Eu não usava o nome, me chamava 'Bi Jr.'. Quando eu era pequeno, nos anos 70, era como se eu me chamasse Volkswagen. Lembro que a Globo fez um levantamento, e Herbert Richers era a marca mais falada na televisão, mais até do que a Globo, porque passava desenhos de manhã, séries à tarde e longas-metragens à noite. Custei a usar meu nome, não me senti identificado, tive que trabalhar em análise para poder me apropriar dele. Só consigo me chamar de Herbert agora porque papai subiu e eu posso usar", revela.

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Herbert Richers Jr. ministra curso de dublagem Imagem: Reprodução

Herbert Richers morreu pobre

Paulista de Araraquara, Herbert Richers mudou-se para o Rio de Janeiro e fundou seu famoso estúdio em 1954. Na Era de Ouro do cinema brasileiro, chegou a produzir oito filmes por ano com estrelas como Grande Otelo e Dercy Gonçalves.

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Herbert Richers fundou seu famoso estúdio em 1954; ele chegou a produzir oito filmes por ano na Era de Ouro do cinema brasileiro Imagem: Reprodução
Nos anos 60, passou a representar a Disney e a Universal no Brasil e a investir em dublagem em escala industrial. O barateamento dos custos de produção obrigou os filhos de Herbert a fechar o estúdio logo após a morte do pai, em novembro de 2009.

"Outro dia fui dublar no Rio em um vestiário de piscina. Antigamente havia um grande investimento. Hoje em dia, qualquer pessoa baixa um programa pirata e sai gravando. O investimento é outro. Hoje se paga muito menos, embora o mercado tenha ficado gigantesco. Nunca se dublou tanto", avalia o ator e diretor, que recorda os últimos dias da Herbert Richers.

"A companhia era mais importante para Herbert do que os filhos ou qualquer coisa. Ele teve um derrame e ia trabalhar de andador, e era muito resistente às mudanças. Decidimos fechar só depois que ele morreu. A companhia morreu com ele. Quando não conseguíamos fechar as contas, papai dilapidava tudo que tinha guardado para manter a companhia aberta. Ele morreu pobre", lembra.

Para Herbert Richers Jr., que cresceu brincando dentro dos estúdios do pai, ver o prédio demolido o deixa deprimido. No local, será construído um templo budista: "Fico deprimidíssimo quando vejo, porque papai amava aquilo, teve muita história ali dentro, era um dos lugares importantes do audiovisual brasileiro. Aquilo marcou um tempo para mim".

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Fachada atual da Herbert Richers após demolição Imagem: Reprodução