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Sem candidato, André Ramiro critica "guerra" por política: "Separa o povo"

Lucas Soares (André Ramiro) na série "Pacto de Sangue", do canal pago Space - Divulgação/Space
Lucas Soares (André Ramiro) na série "Pacto de Sangue", do canal pago Space Imagem: Divulgação/Space

Paulo Pacheco

Do UOL, em São Paulo

23/09/2018 04h00

Eterno "aspira" de "Tropa de Elite", André Ramiro agora "ataca de DJ" no teatro. Ele estreia em musicais como Dom Pepe em "O Frenético Dancin' Days", há um mês em cartaz no Rio de Janeiro. O papel chegou no melhor momento para o ator de 37 anos, após emendar policiais no cinema e na TV, como o investigador Lucas Soares na série "Pacto de Sangue", do canal pago Space.

"Dom Pepe foi um presente para mim, porque é um homem à frente de seu tempo, que já representava o empoderamento negro naquela época. É um cara alegre, solto, que dançava muito bem e foi um dos primeiros DJs do Brasil, quando ainda se chamava discotecário. Considero 'Dancin' Days' uma nova fase da minha carreira e minha entrada com pé direito no teatro", comemora ao UOL.

No espetáculo, Ramiro canta e dança como nuca tinha feito em qualquer outro trabalho como ator. "Culpa" de André Mathias, "aspira" que tornou-se capitão do BOPE, tropa de elite do Rio. A fama do policial levou seu intérprete para papéis semelhantes, o que o deixava um pouco desconfortável.

"Por causa de 'Tropa de Elite', às vezes recebo convites para fazer personagens muito similares ao Mathias. Já venho buscando papéis cada vez mais diferentes para diminuir um pouco esse estigma e mostrar mais a minha versatilidade. Não quero ser um ator de um personagem só", admite.

André Ramiro em "Pacto de Sangue" - Divulgação - Divulgação
André Ramiro em "Pacto de Sangue"
Imagem: Divulgação
Embora queira trabalhos diferentes, Ramiro gostou de interpretar o policial Lucas Soares em "Pacto de Sangue". Na série, ele investiga crimes nos quais está envolvido o repórter e apresentador Silas Campello, que os noticia com exclusividade na TV.

"Como tinha experiência no universo da polícia por causa do treinamento para 'Tropa de Elite' e com o próprio Mathias, creio que tenha pesado na escolha para fazer esse personagem. É uma série densa, que aborda o poder da mídia e o controle sobre as pessoas. A maior dificuldade foi falar com sotaque paraense, mas Belém é uma cidade linda, que tem uma cultura rica e incrível. E demos voz ao povo ribeirinho, que vive destacado da sociedade", elogia.

"Guerra" de opiniões

Em "Tropa de Elite 2" (2010), o capitão Mathias sentiu de perto o "cheiro de merda" ao desafiar os milicianos --e ser morto por eles. Como ator, André Ramiro também se indigna com a situação política do Brasil. Às vésperas da eleição presidencial, ele ainda não sabe em quem votar: "Para ser sincero, está muito difícil a escolha de um candidato. Temos que analisá-los com muita clareza, paciência e muito interesse para escolhermos uma pessoa que talvez melhore as condições do nosso povo".

Em suas redes sociais, Ramiro não diz "Fora PT" nem "Ele Não" --frase contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL), diferentemente de outros colegas que se manifestaram e têm recebido chuva de críticas e elogios. Ele se preocupa com a "guerra" de opiniões políticas e considera que a intolerância à tem desunido a população.

André Ramiro em "Tropa de Elite" - Divulgação - Divulgação
André Ramiro em "Tropa de Elite"
Imagem: Divulgação
"Vejo muitas pessoas tachando as outras de comunistas ou capitalistas, de esquerdistas ou direitistas. Qualquer posicionamento gera um conflito muito grande, e sendo pessoa pública fica ainda mais delicado. Procuro me colocar de maneira que agregue e não divida. Não costumo execrar ou criar conflitos com quem tem uma posição política diferente da minha. Vejo muitos discursos panfletários, principalmente vindos da classe política, e vejo muita gente brigando por isso. Não acho que precisa ser motivo para conflito e guerra. O que deveria unir está separando. Nosso país só vai melhorar quando o povo se unir."

"Não se combate crime só com arma de fogo"

Criado na favela da Metral, em Bangu, na zona oeste do Rio, o ator vê de perto o descaso do poder público com a população mais pobre. O ator deseja que o futuro presidente esteja inclinado a solucionar os problemas na saúde, educação e moradia: "Que seja um pouco mais inclinado a resolver as questões do morador de rua, a questão do dependente químico".

Sobre segurança pública, porém, Ramiro discorda da ideia de combater a criminalidade somente com polícia e armas de fogo e defende projetos sociais e educacionais como medidas preventivas.

"É necessário que a polícia tenha recursos e que o policial receba bons salários para cumprir seu trabalho, mas não acredito, por exemplo, que a única solução para o tráfico de drogas seja colocar a polícia dentro das favelas. Que o Estado entre nas favelas com a polícia, mas também com projetos sociais e educacionais. Isso é uma política de prevenção. Colocar arma de fogo como única solução ao combate do crime organizado é muito leviano e não procede", argumenta.

"Corrupção é o câncer do Brasil"

Elenco do musical "O Frenético Dancin' Days" - Divulgação - Divulgação
Elenco do musical "O Frenético Dancin' Days"
Imagem: Divulgação
Como ator, André Ramiro se posiciona contra as manifestações de ódio contra a classe artística, que espalham mentiras sobre financiamento público de espetáculos, filmes e shows. Para ele, a culpa de tanta desinformação está no governo e da classe política, que colocam parte da população contra os artistas para manter a prática da corrupção.

"O Estado, de maneira geral, luta contra os artistas e contra a cultura do país, chamando os artistas de vagabundos e dizendo que grande parte dos artistas mamam nas tetas do governo, gerando conflito. Isso só desagrega e afasta. Toda produção artística gera muitos empregos. Na captação de recursos, o artista não pega dinheiro e faz o que der na telha. Aquele dinheiro serve para pagar o salário de todos os profissionais envolvidos", explica.

A gente sabe que a corrupção é o grande problema, é o câncer desse país e que atinge todas as áreas da sociedade brasileira. Pôr a culpa nos artistas é, no mínimo, muita falta de sensibilidade e muito leviano. A classe política tenta arrumar desculpas, ou um culpado, para o que eles deveriam fazer há muito tempo, que é administrar o nosso país e cuidar das questões do povo com mais respeito e dignidade

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