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A Dona do Pedaço


Trans de A Dona fala de conflitos sobre mudar de sexo: "me sentia frágil"

Marcela Ribeiro

Do UOL, no Rio

2019-06-12T16:34:28

12/06/2019 16h34

Glamour Garcia, esse é o nome artístico de Daniela Garcia Machado, a atriz trans que tem se destacado como a Britney de A Dona do Pedaço. Em seu primeiro papel em novela, ela se emociona ao falar sobre o quanto se sente privilegiada por poder representar um grupo da sociedade LGBT, ainda marginalizado.

Tagarela e extrovertida, Glamour, 30, relata que já sofreu preconceito e fala abertamente sobre temas considerados tabus. A cirurgia de mudança de sexo --que para ela já representou um conflito-- não é mais motivo de insegurança, apesar de ainda não a ter realizado. Se no passado, ela desejava muito fazer a operação, mas não tinha dinheiro tampouco tempo para isso, hoje em dia, ela se mostra reticente quanto a uma possível decisão.

"Nesses últimos dez anos que me tornei independente, não tive tempo e nem dinheiro para operar. Não tive tempo porque, como uma mulher independente, preciso trabalhar para me manter e desenvolver a minha vida, ajudar quem eu quiser, fazer o que eu quiser, não no sentido egoísta, no sentido construtivo. Existe um período de pós-operatório que é necessário para a recuperação da própria vida", explicou.

A gente sabe que o pós-operatório é muito demorado, você leva uns seis meses para poder estar com saúde o suficiente para trabalhar, fica pelo menos uns seis meses deitada na cama.

Glamour Garcia, atriz

A atriz, que é casada com o paulista Gustavo Dagnese, é hoje bem resolvida sobre a cirurgia e isso não é mais motivo de ansiedade, mas quando era mais jovem, a atriz admite que sofreu bastante com isso.

Me sentia paralisada na minha intimidade por não ser operada, me sentia fraca, frágil e incapaz. Hoje em dia isso é uma questão pessoal, que tenho que decidir, no passado isso me frustrava muito: 'Quando vou ter dinheiro?' 'Quando vou ter tempo?'

"Deus sabe o que faz, não me deu tempo e dinheiro, agora que tenho sobrando, hoje em dia posso ter o amor-próprio de decidir porque sou a mulher mais incrível do mundo. Todas nós somos incríveis na capacidade de sermos quem somos", completou.

Reprodução/Instagram
Glamour Garcia e o marido Gustavo Dagnese Imagem: Reprodução/Instagram

Nos bastidores da gravação da novela de Walcyr Carrasco, ontem nos estúdios Globo, na zona oeste do Rio, a atriz falou que, apesar de ser estreante na emissora, fez amizade fácil com o elenco e se sentiu acolhida pelo seu núcleo.

"Tenho orgulho de estar trabalhando com pessoas que para mim sempre foram referência na história do teatro, televisão e cinema brasileiro. Orgulho de trabalhar com Rosi Campos, Suely Franco, Betty Faria. Essas três pessoas transformaram minha vida, sou outra atriz depois de conviver com essas pessoas que têm história, que lutaram, que foram feministas para chegar onde chegaram."

Revelação trans e romance com português

Britney, a filha de Eusébio (Marco Nanini) e Doroteia (Rosi Campos), surpreendeu os pais e o público ao entrar na novela com uma nova identidade. Após passar anos estudando em outra cidade, seus pais não sabiam que o filho Rarisson havia mudado de sexo. Glamour chora ao falar do carinho que tem recebido do público.

João Cotta/Globo
Glamour Garcia é Britney, ex-Rarisson, em "A Dona do Pedaço" Imagem: João Cotta/Globo

"A repercussão do público é maravilhosa. Às vezes não consigo expressar tudo o que sinto de tão emocionada que fico", diz, sem conseguir conter as lágrimas.

"Estou muito feliz por entender que a Britney tem sido um espaço de alegria, amor, emoção, que as pessoas possam se reconhecer nela, não só no tom de representatividade para a comunidade LGBT, mas todo mundo ama a Britney e percebo que alimenta as pessoas num lugar de carinho, elas se sentem felizes."

Abel (Pedro Carvalho) está cada vez mais encantado por Britney na novela. O português ainda não percebeu que ela é trans, o que pode ser um problema futuro para o relacionamento.

"Tem essa questão que todo mundo quer saber que é o romance da Britney com o Abel, mas ele ainda vai se desenvolver de muitas formas, ainda não sei no que vai dar", diz ela, destacando outros temas importantes abordados na trama das nove.

"A Britney tem muitas frentes criativas de histórias. O fato de ela ser trans já é uma discussão construtiva dentro da trama. Na volta da faculdade, ela consegue um emprego na área dela, o que é uma temática importante. A discussão sobre o mercado de trabalho é importante. Infelizmente, grande parte da população trans ainda é miserável, ainda participa de setores muito informais de profissão. O mercado tem que se abrir para a capacidade, a inteligência dessas pessoas, porque a gente sabe que está fechado por preconceito", afirmou.

"Ser trans ainda é praticamente nascer morto"

Glamour, nascida em Marília, no interior de São Paulo, destaca que o apoio dos seus pais, principalmente a mãe, que é psiquiatra, foi fundamental no seu autoconhecimento. Ela não se vitimiza pelo preconceito sofrido no passado e se emociona por poder estar no ar no horário nobre e ser uma voz contra a transfobia.

"Tive luta pessoal como toda pessoa trans. Através da Britney, vamos ver cenas de barbaridades, tristezas, dificuldades. Ser trans no Brasil ainda é praticamente nascer morto. Infelizmente, a sociedade incentiva as pessoas trans à morte, as pessoas não conseguem terminar de estudar porque são perseguidas, não conseguem trabalhar, ter relações familiares. As pessoas trans ainda são tidas como aberração, como monstros, e não são, são seres humanos. Britney existe para que aconteça uma discussão amorosa sobre esse assunto. Vamos lutar contra as injustiças", destacou.