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Em meio a greve, TV em Alagoas exibe reportagem do Globo Rural em jornal

Reprodução / Instagram
O jornalista Wadson Correia, em greve, protesta contra reportagem exibida como se fosse ao vivo Imagem: Reprodução / Instagram

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

2019-06-27T04:00:00

27/06/2019 04h00

O telespectador de Alagoas está confuso com a programação local da Globo, SBT e Record TV. Em meio a uma greve de jornalistas, matérias exibidas anteriormente em outros programas estão sendo reprisadas nos telejornais, que estão sendo gravados desde a última segunda.

Jornalistas entraram em greve contra a redução de 40% do piso salarial imposto pelas principais empresas de comunicação em Maceió. A maioria dos repórteres, apresentadores, produtores, editores e cinegrafistas aderiram à paralisação. O Sindicato dos Jornalistas realiza piquetes nas portas das TVs Gazeta de Alagoas, Pajuçara e Ponta Verde.

Para preencher o tempo da produção local, a TV Gazeta, afiliada da Globo, exibiu uma matéria do Globo Rural durante o telejornal Bom Dia Alagoas e outra sobre a campanha Maio Amarelo, realizada no mês passado, no telejornal ALTV - Primeira Edição. Já a TV Ponta Verde, afiliada do SBT, exibiu no Plantão Alagoas, uma reportagem antiga simulando um ao vivo, dando a entender ao telespectador que a produção não foi afetada pela greve.

Produções de outros Estados também passaram a fazer parte do noticiário local para preencher a programação. Foram exibidas reportagens de pelo menos sete Estados: Mato Grosso, Bahia, Espírito Santo, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. As mudanças na programação local observadas pelos telespectadores não passaram despercebidas nas redes sociais.

O programa Cidade Alerta Alagoas, da TV Pajuçara, afiliada da Record TV, não foi exibido na terça. No lugar dele, a emissora colocou programação nacional e não informou o motivo da mudança.

Quem assistiu ao Plantão Alagoas ontem acreditou que o repórter Wadson Correia estava trabalhando normalmente. O programa exibiu matéria antiga sobre turismo no Estado, feita dias atrás, com uma chamada do apresentador Lauro Lima, sugerindo que era ao vivo, mas o repórter estava, na verdade, na calçada da emissora protestando sobre a redução do piso salarial.

Correia fez uma foto no momento exato que a imagem dele passava na televisão e mostrou que estava em greve junto com os demais jornalistas. Na mesma atração, o apresentador fazia render, por mais de cinco minutos, reportagem da TV Clube, em Recife sobre duas adolescentes que mataram outra garota.

"As empresas estão maquiando pra vocês aí em casa. Infelizmente, você de casa é quem sofre com notícia velha, com notícia desatualizada, e outra: com pessoas de fora, que não tem nenhum compromisso com a informação alagoana", disse Correia, explicando que não estava ao vivo.

Na manhã de ontem, o Bom Dia Alagoas, exibido pela TV Gazeta de Alagoas, afiliada da Globo, reexibiu uma matéria do Globo Rural da semana passada. O telejornal foi gravado na noite anterior e a emissora não informou ao telespectador se a edição era ao vivo ou gravada. Entretanto, foi exibido relógio na tela.

"O mesmo ocorreu com o Bom dia Alagoas gravado na noite anterior. Observamos matérias com entrevistas longas para que ocupassem mais tempo do jornal", afirma o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Izaías Barbosa.

"Queda de caminhão"

Na correria para substituir profissionais em greve, houve também substituições. A nova apresentadora do telejornal ALTV -- Primeira Edição, Sofia Sepreny, foi remanejada às pressas de um jornal impresso, segundo o sindicato. Visivelmente nervosa, a jornalista afirmou que o cantor Gabriel Diniz morreu durante "queda de um caminhão", em uma reportagem que mostrava que os destroços do avião que caiu mantando o cantor e dois pilotos alagoanos foram vendidos a um ferro-velho em Aracaju.

Em seguida, o telejornal do meio-dia da TV Gazeta de Alagoas colocou uma matéria da Globo Nordeste sobre atendimento médico gratuito para cicatrização de feridas oferecido em Recife (PE), mas não informou como o telespectador de outro Estado poderia ter acesso ao serviço. Na sequência, um concurso de comidas juninas ocupou mais de cinco minutos da programação.

O perfil do Instagram Maceió Antiga, que mostra imagens antigas da capital alagoana, ironizou o conteúdo dos telejornais de Alagoas publicando um vídeo da chamada do Bom Dia Alagoas, do ano de 1994. A mensagem avisa que o vídeo seria reprisado pela TV Gazeta nesta quinta-feira no lugar do Bom Dia Alagoas. "Vale a pena ver de novo", diz o texto.

Vale a pena ver de novo! 😃 Com a greve dos jornalistas de Alagoas, a TV Gazeta irá reprisar, amanhã, uma edição do telejornal Bom Dia Alagoas 📺, exibida originalmente em dezembro de 1994. Não percam, com apresentação de Volnei Malta e Zélia Cavalcante. . Apesar da brincadeira, há um fundo de verdade e ironia na publicação. A situação tem sido caótica na imprensa local, principalmente para as emissoras de TV. Matérias reprisadas exaustivamente, telejornais com exibições canceladas, sites com escassez de notícias atualizadas, além dos erros levados ao ar devido ao improviso e amadorismo de alguns que não aderiram ao movimento de luta pela causa coletiva. . Amanhã os jornalistas alagoanos entrarão no 3º dia de greve e a pauta, para quem ainda não sabe, é contra a proposta de redução de 40% do piso salarial da categoria, que tem sido imposta, abusivamente, pelos três maiores grupos de comunicação do estado. . As mobilizações têm começado a partir das 4h da manhã nas portarias das emissoras de televisão e perduram o dia inteiro. Apesar da adesão de 90% da categoria, até o presente momento não há nenhum horizonte de negociação, por parte dos empresários, para reverter esse quadro de desrespeito aos profissionais e o público que acompanha. . Mas os jornalistas seguem e seguirão, incansalvelmente, firmes na luta pela manutenção dos seus direitos de trabalhadores e, principalmente, respeito à profissão. #ReduçãoSalarialNão !

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O presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas, Izaias Barbosa, criticou a "maquiagem" que as emissoras estão fazendo na programação local. "Estão exibindo matérias antigas, reeditando outras para requentar informações velhas e alongando as entrevistas para ganhar tempo. Isso é uma falta de respeito com o jornalista e também com o telespectador, que acredita que ali se trata de uma notícia nova".

A entidade informou que detectou a presença de jornalistas contratados como free lancer, vindo de outros Estados, para trabalharem no lugar dos grevistas. A entidade afirmou ainda que houve remanejamento de profissionais da reportagem para a apresentação e acúmulo de função --sob ameaça de demissão. Os casos supostos já foram denunciados ao MPT (Ministério Público do Trabalho).

A greve dos jornalistas de Alagoas foi deflagrada na segunda depois de quase dois meses de negociação com as empresas de comunicação para reajuste salarial. No período, empresas apresentaram a proposta de redução de 40% do piso. O sindicato pede reajuste de 10,07% no salário-base dos jornalistas de Alagoas, que atualmente, é de R$ 3.565,27.