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Carlinhos Maia sorteou celulares de suspeitos de sonegação presos, diz MP

O influenciador digital e comediante alagoano Carlinhos Maia - Divulgação
O influenciador digital e comediante alagoano Carlinhos Maia Imagem: Divulgação

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Alagoas

11/07/2019 14h12

O influenciador digital e comediante Carlinhos Maia, conhecido como "rei" do Instagram, está entre as celebridades da internet que divulgaram e sortearam celulares de quatro lojas de Maceió (AL) e Goiânia (GO) cujos proprietários foram presos na terça-feira (9) em uma operação do Ministério Público de Alagoas. Segundo a investigação, os suspeitos presenteavam influenciadores digitais com smartphones iPhone para que eles divulgassem as lojas entre seus seguidores.

Além de Carlinhos, que tem 16 milhões de fãs só no Instagram, receberam presentes em troca de divulgação para sorteio o empresário Kel Ferreti e o publicitário Diogo Moreira, segundo a promotoria. A modelo Gabriela Sales, a Rica de Marré, divulgou uma das lojas indicando a idoneidade do estabelecimento. Os influenciadores não são investigados pelo MP de Alagoas nem pela Polícia Civil, mas foram usados pela organização criminosa para divulgar as lojas.

"As pessoas devem ter cuidado para verificar a origem do produto recebido para não vir a responder criminalmente. Se receber algo de origem ilícita poderá responder pelo delito de receptação e terá de fazer devolução do objeto a polícia", diz o delegado Thiago Prado, da seção de crimes cibernéticos da Deic (Divisão Especial de Investigação e Capturas) da Polícia Civil de Alagoas.

A 17ª Vara Criminal da Capital expediu 18 mandados de prisão e 32 de busca e apreensão contra a organização criminosa suspeita de venda ilegal de celulares e outros aparelhos eletrônicos. A operação Fruto Proibido prendeu 14 pessoas em Alagoas, Goiás e São Paulo suspeitas de sonegar mais de R$ 10 milhões em impostos. O MP aguarda a finalização do inquérito para apresentar denúncia à Justiça.

Dois irmãos proprietários de lojas investigadas se entregaram à polícia, em Maceió. Outros dois acusados continuam foragidos (eles não tiveram os nomes divulgados). Os presos devem prestar depoimento à Polícia Civil. O UOL tentou contato com a defesa dos acusados, mas não obteve retorno.

A reportagem também entrou em contato com as assessorias de Carlinhos Maia, Gabriela Sales, Kel Ferreti e Diogo Moreira, mas as mensagens ainda não foram respondidas.

Entre ontem e hoje, o UOL entrou em contato com as assessorias de Carlinhos Maia por e-mail, mensagens no Instagram e WhatsApp, mas ninguém retornou até a publicação deste texto. O empresário Kel Ferreti foi procurado ontem por e-mail, mensagem direta, WhatsApp e ligação telefônica, mas ainda não retornou os contatos. O UOL também contatou Gabriela Sales por e-mail e mensagem no Instagram, mas não obteve retorno.

A reportagem procurou Diogo Moreira por e-mail e mensagem no Instagram, mas ele não respondeu. Em seus stories no Instagram, Moreira disse que não sabia que as lojas investigadas pelo Ministério Público e Polícia Civil de Alagoas comercializavam produtos sem nota fiscal. "A pessoa tem a empresa, tem o negócio jurídico, tinham tudo certinho era a mesma coisa de eu divulgar outra empresa. Como é que eu ia saber que o cara estava sonegando imposto?", disse. No post abaixo, o influenciador exibe celular de uma das lojas envolvidas na operação.

"Recebidos"

Segundo a investigação, as lojas anunciavam produtos contrabandeados no Instagram e faziam sorteios em parceria com as celebridades nas redes sociais. Além disso, enviava iPhone para que eles mostrassem em suas redes os famosos "recebidos".

Carlinhos Maia gravou um vídeo agradecendo o recebimento de um iPhone enviado para o pai dele por uma das lojas, chamada Império do Celular. Uma publicação da loja, em novembro de 2017, anunciou o sorteio de um iPhone 8 entre os seguidores de Carlinhos Maia e de Kel Ferreti. O anúncio com uma foto de Maia dizia "Império do Celular e Carlinhos Maia presenteiam você!".

A loja Maceió Import informou que estaria realizando o "maior prêmio do mundo" com o sorteio de dez iPhones em parceria com Kel Ferreti. O empresário aparece na publicação segurando a caixa de um iPhone X.

A modelo e influenciadora digital Gabriela Sales, a Rica de Marré, também divulgou o nome de uma das lojas que comercializava produtos sem nota fiscal em duas publicações no perfil dela no Instagram, em 2015 e 2018. Nas publicações, Gabriela atestava que a loja era de sua confiança.

"Meninas, pra quem sempre me pede indicação de onde comprar iPhone com segurança, eu indico de olhos fechados a Maceió Import, do meu amigo Chiquinho. O preço dele é bem legal... E eu já conheço há anos... Podem confiar", disse ela na publicação em julho de 2018.

Criador do perfil Maceió Ordinário, com 519 mil seguidores, o publicitário alagoano Diogo Moreira aparece em ao menos três publicações da loja Império do Celular. "Em terra de Instagram quem tem iPhone é rei", diz a publicidade da loja com uma foto de Moreira e uma coroa na cabeça.

Esquema

O Grupo de Atuação Especial em Sonegação Fiscal e aos Crimes Contra a Ordem Tributária, Econômica e Conexos (Gaesf), do Ministério Público, diz acreditar que a organização criminosa usava as celebridades digitais apenas para divulgação das vendas.

Segundo a investigação do MP, o grupo criminoso se dividia em tarefas de aquisição irregular dos aparelhos, venda por meio do Instagram sem a devida autorização da fornecedora Apple, armazenamento clandestino dos celulares, venda dos equipamentos sem nota fiscal, liberação ilícita de mercadoria quando era apreendida e lavagem do dinheiro oriundo do comércio criminoso.

De acordo com o Gaesf, numa das atividades ilegais do bando, uma carga de mais de 500 aparelhos foi levada para Maceió de avião, em maio de 2018, com notas fiscais de outros tipos de produtos, a maioria, acessórios para telefone. O material foi apreendido no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, na região metropolitana de Maceió, por fiscais da Receita Federal.

Já em fevereiro, uma carga de 230 iPhones foi descoberta pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) escondida em um painel de um carro revistado em Goiás. O material era levado para Maceió.

A operação apreendeu 13 carros, uma moto e uma grande quantidade de iPhones e de dinheiro nas quatro lojas. O Ministério Público ainda não divulgou o número de aparelhos tampouco a quantia em dinheiro apreendidos.

Polícia alerta influenciadores sobre presentes

O delegado Thiago Prado alerta para os perigos de recebimento de produtos como presentes sem a comprovação de origem lícita. Ele explica que a pessoa que recebeu pode ser enquadrada no crime de recepção, na modalidade dolosa (com intenção) ou culposa.

"Na modalidade dolosa, onde o receptor sabe que é de origem criminosa, sabe que é vindo contrabando, e culposa é quando ele não sabe a origem. Neste caso especifico, ainda não há investigação sobre influenciadores digitais que receberam algum produto dessas lojas, mas eles podem ser intimados a prestar depoimento e compelidos a devolver os produtos recebidos. Não pode receber algo ilícito, a pessoa terá de devolver o objeto", afirmou.

Prado afirma ainda que os iPhones e outros produtos comercializados nas lojas envolvidas na operação, apesar de estarem lacrados, na caixa, não passaram por barreiras tributárias. "Eles entraram no Brasil ilegalmente e foram trazidos de São Paulo e Goiás sem passar nas barreiras tributárias, de forma ilegal", diz o delegado, destacando que a venda ilegal ocorria pela internet, mas não caracterizou crime cibernético.