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Jornalistas do SBT mandam carta à direção e pedem saída de Marcão do Povo

Marcão do Povo  - Reprodução?SBT
Marcão do Povo Imagem: Reprodução?SBT

Gabriel Vaquer

Colaboração para o UOL, em Aracaju

12/04/2020 12h30

Os jornalistas do SBT enviaram na sexta-feira uma carta de repúdio às declarações do apresentador Marcão do Povo, do "Primeiro Impacto", que na última semana sugeriu "campos de concentração" para pessoas que estivessem com o coronavírus. Os jornalistas querem que Marcão seja dispensado da emissora após os 15 dias de suspensão que foram impostos a ele.

A carta foi obtida com exclusividade pela reportagem do UOL. Nela, os jornalistas acusam Marcão do Povo de não seguir as recomendações de higiene recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e determinadas para a redação do SBT, colocando em risco a vida dos colegas.

Além disso, a carta, enviada por e-mail e WhastApp, afirma que a fala de Marcão é inadmissível e não condiz com a história do SBT, concluindo que ele não é digno de ser contratado pela emissora paulista. Quase todos os jornalistas assinaram o texto. Uma das exceções é Dudu Camargo, colega de Marcão no "Primeiro Impacto".

A carta já está na mão da direção de Jornalismo do SBT, que é comandado pelo jornalista José Occhiuso. A posição dos jornalistas também é de conhecimento de outros executivos da emissora.

Entre os exemplos citados na carta para pedir a saída de Marcão, está o fato de o apresentador dizer nos bastidores que "só deve satisfação para Deus e para Silvio Santos".

Um exemplo disto aconteceu na semana passada. Segundo apurou a reportagem, Marcão ironizou as orientações de higiene determinadas pela direção de jornalismo, dizendo que só segue orientações de Silvio Santos, que foi quem lhe contratou - inclusive, é Silvio Santos que definirá se ele volta ao "Primeiro Impacto" ou não. Caso ele retorne, os jornalistas da emissora estudam algum tipo de ação mais enérgica.

A reportagem tentou falar com Marcão do Povo, mas ele não respondeu aos contatos feitos.

Leia a carta na íntegra:

"À direção do SBT

Impossível nos calarmos. Ainda que em diversas outras ocasiões que envolveram a mesma pessoa tenhamos optado pelo silêncio, todos os valores de ética, ou mais, de decência humana foram violentados pelo apresentador do telejornal Primeiro Impacto, Marcos Paulo Ribeiro de Morais. Ao defender a criação de "campos de concentração" para pessoas infectadas pelo novo Coronavírus, o apresentador que se autointitula como Marcão do Povo, extrapola, no nosso entender, todo e qualquer limite.

Jornalistas que somos, por vocação acima de tudo, decidimos tornar público nosso repúdio à forma como o apresentador se referiu à maior crise de saúde do século. O que não nos causa nenhuma surpresa. O comportamento dele sempre foi o de não acatar orientações nem determinações dos jornalistas que dirigem o Primeiro Impacto e o próprio Departamento de Jornalismo do SBT. E isso sempre foi feito publicamente na redação. Muitos dos que assinam essa carta testemunharam o sr Marcão do Povo dizer, em alto e bom som, que só obedece o dono da emissora e que não presta contas a mais ninguém.

Nós, jornalistas do SBT, vivemos o maior desafio profissional que poderíamos sequer um dia imaginar. Talvez, o maior desafio pessoal. Estamos todos os dias nos expondo a todo tipo de risco para informar a população sobre a pandemia. Porque acreditamos na nossa função e nos princípios desta emissora. Essa, sim, do povo brasileiro.

Não é necessário descrevermos aqui a mais nova absurda declaração feita pelo apresentador. Os campos de concentração da Segunda Guerra Mundial estão entre as maiores vergonhas da humanidade. A necessidade de manter a população em casa é, segundo todas as autoridades de saúde do mundo, a única medida a ser tomada para diminuir o número de mortos. Um apresentador, que tem o privilégio de ser ouvido por todo País, não pode sugerir qualquer orientação contrária a seus telespectadores. É um desrespeito à vida dos que nos assistem e confiam na credibilidade desta emissora.

Hoje - e esse número será maior a cada dia -, morrem no Brasil, em média, cento e quarenta pessoas vítimas da covid-19. O que significa dizer que, enquanto o sr. Marcos Paulo Ribeiro de Morais está no ar, ao vivo, para todo o Brasil, pelo menos 14 famílias perdem pais, avós, irmãos, maridos, esposas, filhos, amigos, enfim... Pessoas que, segundo o apresentador, deveriam estar em "campos de concentração". Mais do que envergonhar a todos nós, jornalistas, o sr. Marcos Paulo Ribeiro de Morais não está a altura de representar o nome e a história do SBT".

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