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Veronica Oliveira, da faxina à TV: 'Não há vergonha em trabalho honesto'

Veronica Oliveira - Reprodução
Veronica Oliveira Imagem: Reprodução

Daniel Palomares

Do UOL, em São Paulo

01/08/2020 04h00

Veronica Oliveira adora música. É fã do Guns N' Roses e do Iron Maiden, até dedicou tatuagens para suas bandas favoritas. Aprendeu inglês ouvindo as canções, viajou à Europa para conferir um festival de rock. Veronica colocou os filhos em boas escolas, tem um carro e um celular bacanas e sonha em comprar uma casa nova. Ah, ela também é faxineira!

Se você achou estranho, pense novamente. Veronica quer mais é subverter a ideia preconceituosa de que faxineiras seriam menos dignas do que pessoas que trabalham em outras funções. Foi nessa profissão que ela conseguiu conquistar seus sonhos e virar um ícone nas redes sociais e é também graças a ela que se prepara agora para estrear na TV, ao lado de Mariana Godoy e Zeca Camargo, no novo programa da Band —ainda sem nome divulgado.

Ainda estou sem acreditar que isso está acontecendo. Minha pretensão profissional, na adolescência, era trabalhar na MTV! Era o único plano de carreira que eu tinha em vista. Nunca tive a noção de que isso pudesse acontecer um dia, poder falar para tantas pessoas.

Início da limpeza

Dona da página Faxina Boa, que acumula 100 mil curtidas no Facebook, Veronica veio de uma família de classe média que vivia no centro de São Paulo. Ela lembra que passou a adolescência sem grandes dificuldades. "Minha vida foi muito tranquila, ganhei mesada até depois dos 20!", brinca, em papo com o UOL.

O primeiro emprego veio só aos 28 anos, depois de duas gestações. Sem faculdade ou qualificação, Veronica atuou como telemarketing até ver sua vida totalmente transformada. A última empresa em que trabalhou foi à falência em 2015 e, sem condições de se manter, ela precisou morar em um quarto de pensão com os dois filhos.

Consegui outro emprego, que pagava um salário mínimo, e 80% disso ia para o aluguel. Fazíamos só uma refeição por dia. No final de 2017, tentei suicídio, já estava havia uma semana sem comer. Então, fui internada numa clínica psiquiátrica por quase um mês. Saindo de lá, eu não queria voltar para o trabalho nem para a minha casa.

Foi então que ela se encontrou na faxina. Uma amiga insistiu em lhe pagar R$ 150 após uma limpeza que Veronica fez em sua casa, sem que ela nem pedisse. "Se todo dia eu fizer uma faxina, nunca mais precisarei atender telefone no telemarketing!", relembra.

VER - Facebook - Facebook
Veronica virou "Kill Bill" em anúncio
Imagem: Facebook

Com criatividade, Veronica elaborou anúncios divertidos para divulgar seus serviços. Suas montagens inspiradas em filmes e séries, como "Kill Bill" e "Orange Is the New Black", acumularam milhares de curtidas e compartilhamentos e garantiram muitas faxinas. Dali para a frente, sua página cresceu tanto que hoje o trabalho como produtora de conteúdo, falando da vida de faxineira, toma até mais tempo do que as faxinas!

Foi tudo muito sem querer. Estou há três anos trabalhando com isso. Vez ou outra pego uma faxina porque sinto falta. Não tenho técnicas, não obedeço regra nenhuma de post no melhor horário... Não tenho planejamento. No dia que não quero postar, não posto. Mesmo assim, tenho muito engajamento.

Faxina no preconceito

Hoje, Veronica se lembra das histórias como faxineira sempre rindo, mas revela que foi vítima de muito preconceito pela profissão. Ela acredita que existe um senso de superioridade nas pessoas que contratam alguém para limpar sua casa.

As pessoas ficavam horrorizadas quando me viam com um celular caro. Era humilhante. Querem se sentir melhores do que a pessoa que está limpando a casa deles. Já me proibiram de entrar na casa para fazer faxina porque eu tinha um carro bom. É como pensar que se a faxineira não for uma coitada, ela não pode estar ali.

Graças às faxinas, ela conseguiu ter o celular que queria, o carro, as roupas e até realizar o sonho de viajar à Europa para um festival de rock.

É difícil alguém entender que uma pessoa possa gostar desse trabalho. Posso decidir meus horários, o bairro que vou trabalhar, ouvir música quando estou trabalhando. Até monto a playlist para os clientes! É bom e rentável. Não há vergonha em trabalho honesto.

Apesar de ter conquistado muito mais do que sonhava, Veronica não para. Ela sonha em finalmente comprar a casa própria, além de viajar ao lado dos filhos e, por que não?, fazer uma plástica!

Preciso ir com meus filhos para a Disney e tirar uma foto mandando um beijo para o Paulo Guedes! - afirmou, referindo-se à fala do ministro da Economia, que disse que quando o real estava valorizado tinha muita doméstica indo para a Disney, "uma festa danada".

"Quando eu ganhar mais dinheiro, farei uma plástica. Minha mãe brinca que eu vou gastar dinheiro com isso em vez de dar entrada na casa. Eu só digo que entrarei na casa com peitão!", conta, divertindo-se.

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