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Ataque de carrapato e briga com polícia: O que TV não exibiu no caso Lázaro

Os repórteres Felipe Garraffa, da Band, e Vanessa Vitória, do SBT, trabalharam na cobertura do caso Lázaro - Divulgação
Os repórteres Felipe Garraffa, da Band, e Vanessa Vitória, do SBT, trabalharam na cobertura do caso Lázaro Imagem: Divulgação

Felipe Pinheiro

Do UOL, em São Paulo

11/07/2021 04h00

A caçada a Lázaro Barbosa, que teve um desfecho há quase duas semanas com a morte do criminoso, fez a população parar em frente à TV. Veículos de imprensa de todo Brasil deslocaram equipes para as regiões de Goiás e do Distrito Federal para acompanhar a operação que mobilizou mais de 200 policiais.

O que se viu foi uma cobertura extensa de 20 dias e que abasteceu programas jornalísticos de todas as emissoras. Nos bastidores, muitos foram os perrengues da cobertura. No "Brasil Urgente", da Band, o repórter Felipe Garraffa fazia entradas ao vivo para conversar com José Luiz Datena.

O principal desafio foi contar essa história sem aumentá-la porque ela já era grave por si só. Não havia necessidade de criar um fato novo. Estávamos falando de um assassino acusado de mais de 30 crimes.

Lázaro Barbosa, cuja busca mobilizou centenas de agentes - Reprodução - Reprodução
Lázaro Barbosa, cuja busca mobilizou centenas de agentes
Imagem: Reprodução

O medo da população, a pressão da polícia, a falta de sinal de internet e a dificuldade de locomoção na estrada de terra batida foram situações desafiadoras para jornalistas envolvidos na cobertura. Com o clima de tensão, Garraffa se lembra de uma briga com uma autoridade policial.

"Tiveram alguns momentos mais delicados, inclusive de um policial fechar a porta na nossa cara e nos mandar embora de forma ríspida. Discutimos com ele. Em uma dessas discussões, saí com o carro rapidamente e o meu celular caiu no meio da mata. Acabei perdendo", conta ele.

Foi também depois de um bate-boca com outro policial que o repórter conseguiu um aliado: "Discutimos fortemente e depois ele se tornou a minha principal fonte, passando informações preciosas. Era uma linha tênue, mas compressível essa pressão da polícia".

Felipe Garraffa e o cinegrafista Marcelo Clayton, da Band - Divulgação/Band - Divulgação/Band
Felipe Garraffa e o cinegrafista Marcelo Clayton, da Band
Imagem: Divulgação/Band

56 picadas de carrapato

Vanessa Vitória trabalha no SBT como repórter há mais de um ano - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Vanessa Vitória trabalha no SBT como repórter há mais de um ano
Imagem: Reprodução/Instagram

Vanessa Vitória trabalhou no caso Lázaro para o SBT. A repórter precisou deixar a cobertura após ser mordida por um pitbull, mas antes disso enfrentou outros perrengues. Um dos mais complicados foi um ataque de carrapatos. Os jornalistas precisavam se deslocar por áreas rurais e entravam em matas.

"Esse tipo de carrapato se chama micuim [filhos do carrapato-estrela] e me pegou em áreas quentes do corpo, picando toda a minha barriga, costas e axilas. Eles entravam na minha roupa. Levei no mínimo 56 picadas pelo que consegui contar", se recorda ela.

As reações às mordidas dos parasitas foram inflamação, coceira e uma secreção que saía das feridas. Vanessa teve de ir ao hospital e recebeu um dia de licença médica. Depois, para evitar mais dores de cabeça com os carrapatos, passou a usar um repelente mais forte no corpo todo.

Encontro com fazendeiro que ajudou Lázaro

Vanessa Vitória durante cobertura do caso Lázaro para o SBT - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Vanessa Vitória cobriu o caso Lázaro para o SBT; o sinal da internet era um desafio do trabalho de reportagem
Imagem: Reprodução/Instagram

As informações chegavam de toda parte — dos moradores, dos policiais, do governo —, e muitas vezes era difícil filtrar o que era uma pista quente. Em uma das experiências mais marcantes, Vanessa diz que chegou a ficar cara a cara com o fazendeiro Elmi Caetano Evangelista, que chegou a ser preso por ajudar Lázaro a se esconder.

Eu estava em Girassol, em uma base da polícia, e ele passou xingando. Ele falou que era uma palhaçada, que era para todo mundo ir trabalhar. Bem nervoso. Pedi para ele falar comigo, mas ele não quis e saiu arrancando o carro. Depois ele foi preso. Uma pessoa que eu tive contato, que xingou a operação e que tinha envolvimento porque estava acobertando o fugitivo.

Adrenalina e cena de filme

Correr atrás das viaturas da polícia em busca da notícia fazia parte da rotina dos jornalistas. Também era comum testemunhar trocas de tiros.

Estávamos em uma caçada e logo quando chegamos presenciamos uma troca de tiros numa posição privilegiada do ponto de vista jornalístico. Eram três helicópteros sobrevoando, policial saindo da mata cansado e aquele depoimento de momento, trazendo a emoção do que estava acontecendo. Uma cena impressionanteFelipe Garraffa.

Teve um dia que eu entrei ao vivo e falei: estamos dando o sangue para informar vocês. Era a sensação que eu tinha. Às vezes, o jornalismo faz a gente até se esquecer de quem a gente é. Fiquei horas sem fazer xixi. Muitas vezes, a gente não comia e não tomava água de tão envolvidos com aquela adrenalinaVanessa Vitória.

Dava medo?

A jornalista do SBT diz que não havia tempo para sentir medo durante a cobertura, mas em poucos momentos batia uma preocupação:

"Já pensou estar voltando na estrada à noite e o pneu do carro fura? Eu tinha medo de me encontrar com ele. No momento do calor da operação, você está muito jornalista e não pensa nos riscos".

Felipe Garraffa ficou 13 dias in loco na cobertura do caso Lázaro - Divulgação/Band - Divulgação/Band
Felipe Garraffa ficou 13 dias in loco na cobertura do caso Lázaro
Imagem: Divulgação/Band

Reação à vacina e tombo de árvore

O governo de Goiás liberou a vacinação contra a covid-19 para os profissionais de imprensa envolvidos na cobertura do caso Lázaro. Garraffa teve reações à vacina e teve de lidar com alguns sufocos por isso.

"Fiquei com intestino solto e não tinha banheiro. Dava para seguir, mas era um perrengue no meio do mato".

Outro obstáculo diário era o terreno irregular da região. O repórter conta que eram tombos atrás de tombos da equipe. Teve até uma vez ele despencou de uma árvore:

Fui me pendurar numa árvore para mostrar a gruta onde o Lázaro poderia ter passado e tomei um capote. Caí de bumbum no chão. Não estamos acostumados a andar naquele local e tive que comprar um tênis porque o meu rasgou e fiquei com dedão para fora.