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Professora trans diz viver dilema de novela: "Não sou vagina com pernas"

Globo/João Miguel Júnior
Britney, personagem vivida pela atriz trans Glamour Garcia em A Dona do Pedaço Imagem: Globo/João Miguel Júnior

Felipe Pinheiro

Do UOL, em São Paulo

2019-07-15T04:00:00

15/07/2019 04h00

Britney (Glamour Garcia) é uma jovem contadora que trabalha em uma fábrica de bolos e que vive um dilema: não sabe se conta a Abel (Pedro Carvalho), um colega que já demonstrou interesse por ela, que é uma mulher transgênero. Na vida real, Helena, professora de saúde mental em uma universidade baiana, diz já ter vivido a mesma situação da personagem de A Dona do Pedaço.

"Eventualmente, quando conheço alguém e a relação vai se encaminhando, eu falo da minha história porque quem gostar de mim vai gostar com todo o processo que eu vivenciei. Eu sou essa pessoa. Mas não acho que há obrigação das pessoas falarem que são transgêneros", afirma.

Na novela das nove, a personagem é interpretada por uma atriz transgênero. Na opinião de Helena, a escolha dela para o papel é um acerto do autor Walcyr Carrasco.

Ela tem esse lugar de fala e de vivência. Só quem tem propriedade de interpretar uma personagem trans é uma mulher trans. São questões do dia a dia muito sutis, de preconceito, de rechaço, dificuldade familiar, e até nas relações íntimas. Não entendo como uma pessoa cisgênero poderia fazer. É difícil de conceber.

A pesquisadora relatou, em depoimento ao UOL, passagens importantes de sua trajetória: do entendimento de que era uma mulher ao processo de transição de gênero, que incluiu uma série de cirurgias -- entre elas a de redesignação sexual, realizada na Tailândia, na mesma clínica onde a modelo Lea T. passou por procedimento semelhante.

Atendendo a um pedido de Helena, a reportagem não mostrará fotos e nem o nome completo dela, a fim de preservar a sua identidade.

"Eu não me sentia completa"

"Comecei a me reconhecer como mulher desde muito cedo. Notava um descompasso entre o corpo e meu psiquismo. Fui me construindo com uma identidade masculina. Entendia que quanto menos efeminada eu fosse, menos eu sofria.

Tentei viver uma vida como um homem homossexual, mas era insuficiente. Eu ainda não estava completa. Isso porque não é uma questão de orientação sexual, mas de gênero. Eu ficava no conflito: seria eu um gay passivo ou de fato uma mulher? Isso eclodiu de forma mais intensa na vida adulta, depois dos 25 anos.

Como vou viver a minha vida? Será que vou viver mentindo? Eu me sentia mentindo. Resolvi então fazer a transição.

Eu estava no final do doutorado, em São Paulo, preparando-me para acabar a minha tese e me sentia muito mal. Pensava: 'Não posso continuar com esse conflito'.

Um dia vi uma chamada no Fantástico de uma mulher transgênero, hoje uma grande amiga, e descobri que ainda era possível. Dava tempo! Entrei em contato com ela, que me ajudou em todos os meus passos."

"Gênero é construído"

"Comecei suavizando no vestuário e a performar de forma feminina. Deixei o cabelo crescer e passei a usar roupas mais unissex, como um jeans e um tênis All Star. Aos poucos, fui me entendendo nessa identidade. Até que chegou um momento em que não aguentava sair de casa sem usar uma base e pintar os olhos bem discretamente.

Penso que o gênero é socialmente construído, independentemente da genitália que a gente tenha.

Eu, Helena, só me entendi mulher com os processos cirúrgicos que fiz, de mamas, feminilização facial, redesignação sexual e a última, que foi a cirurgia de feminilização da voz, realizada na Coreia do Sul. Consegui adequar o meu corpo ao meu gênero. Hoje eu me sinto confortável."

"Fui chorando ao centro cirúrgico"

Reprodução/Instagram
Helena passou pela cirurgia de redesignação sexual na Tailândia; a modelo Lea T também fez o seu procedimento no país Imagem: Reprodução/Instagram
"Foram dois motivos que me fizeram fazer a cirurgia redesignação sexual na Tailândia: primeiro, pelos resultados estéticos e funcionais e, segundo, porque o corpo é meu.

Meu corpo não é do Bolsonaro, da Dilma e nem de ninguém. Meu corpo não é do Estado. Por isso não devo pedir atestado e nem passar por acompanhamento compulsório com ninguém para me dizerem que eu sou uma mulher. Ninguém tem o direito de dizer sobre o que sou. Foi uma questão política também.

Eu fui chorando ao centro cirúrgico. Foi incrível. A cirurgia durou em torno de seis horas e na hora que acordei estava com muita dor, mas completamente feliz. Foi o dia mais feliz da minha vida.

Nos momentos de muita dor física eu desenvolvi a técnica de ir até o banheiro, tirar toda minha roupa e me olhar.

Meu Deus, olha o que eu consegui fazer! Olha o meu rosto como está delicado, os meus seios como ficam bonitos... Olha a minha vagina que bonita ficou! Agora estou completa! A medida que eu me olhava eu tirava o foco da dor física.

"Tenho muito mais orgasmos do que antes"

"A primeira relação sexual em si, como para qualquer mulher, é um pouco desconfortável, mas eu me senti completa e desejada.

Sangrei um pouco e tive dor. Não tive tanto prazer porque doeu bastante. Mas a partir da segunda você relaxa mais e consegue até ter orgasmo. Esse é um mito [de que mulheres trans não sentem prazer].

Tenho muito mais orgasmo do que antes [de fazer a cirurgia]. É incrível. Isso porque as terminações nervosas são todas preservadas.

Globo/João Miguel Júnior
Britney vive o dilema de contar para Abel que é uma mulher transgênero na novela A Dona do Pedaço Imagem: Globo/João Miguel Júnior

"Tenho medo de contar que sou trans"

"Eu já tive uma relação rápida com um rapaz e chegamos a ter relação sexual, mas não falei que sou uma mulher transgênero. Ele não sabe até hoje. Foi algo pontual e não merecia toda minha história. Eu entro no seguinte conflito: já teve casos de eu falar e o cara cair fora.

Às vezes tenho medo de o cara ficar muito agressivo. Teve um caso de uma mulher na Rússia que saiu com um médico e após se dar conta de que ela era uma mulher trans ele a matou. É um conflito real.

Sou uma mulher, não fico dizendo que sou trans. Mas eu não sou uma mulher cisgênero. E isso não me faz mais nem menos do que qualquer outra mulher.

Essa dúvida começa desde o início [de uma paquera]. Tenho esse conflito. É um perigo.

E se eu não falo e o cara fica bravo e resolve me bater ou me violentar? Quando falo e tem uma rejeição, a situação já está posta. Se ele não dá conta da minha história o problema não é meu. É dele.

Se eu falo, às vezes o cara corre, mas se não falo é muito pior para mim porque vou criando expectativa. O grande segredo é criar um vínculo afetivo."

"Não sou uma vagina com pernas"

"Num dos casos recentes, estávamos nos conhecendo, já tínhamos saído e conversado algumas vezes. A conversa foi se desenhando para um papo de história de vida e eu falei: 'A minha história talvez seja um pouco diferente da sua'. E ele foi ficando abismado... Moro no interior da Bahia e as coisas tomam outra proporção. Tem um peso moral e social.

Ele me mandava mensagens, flores, dizia que queria ser meu amigo e, se me via com alguém na rua, já perguntava quem era. Ele sofria também, mas o peso social é maior, até porque é um juiz na cidade.

Sempre perguntam da parte íntima e eu falo que isso não me faz nem menos e nem mais mulher do que ninguém. Ele ficou muito curioso e aí eu retraí porque não sou um objeto. Não sou uma vagina com pernas. Sou uma mulher.

Um conselho para Britney

João Cotta/Globo
Glamour Garcia, que é uma atriz trans, foi escolhida para interpretar a personagem trans na novela de Walcyr Carrasco Imagem: João Cotta/Globo
"Não há uma receita. Cada pessoa é uma pessoa. Ninguém tem obrigação de revelar se é cis ou transgênero. Cada pessoa se entende de uma forma diferente. Mas acho que ela precisaria ir tateando aos poucos.

Se a pessoa gosta de ti, ela vai gostar com toda a tua história, por mais difícil que seja. Ela precisa tatear o assunto e conversar aos poucos, colocando as cartas na mesa.

Quanto mais for protelando, o sofrimento pode ser maior. Se o cara não aceitar, ele não vai aceitar agora e nem depois."