Sadi, e o Queiroz?

De rebelde da família ao fazer jornalismo a um dos principais nomes da Globo

Beatriz Amendola e Leandro Carneiro Do UOL, em São Paulo

Todo mundo quer falar de política, acho que a política de repente virou um tema de interesse nacional, que deveria ser desde o começo, né?

Quando se fala de jornalismo, Brasília e Globo, Andréia Sadi se tornou sinônimo. São 33 anos de idade, cinco deles na TV. A repórter e comentarista é destaque do Jornal Nacional, mas ainda fica tímida quando a câmera liga ou quando precisa dar entrevista.

Sadi não é nova apenas na idade. Ela também tem uma trajetória curta na TV. No entanto, já possui um currículo de deixar muita gente experiente com inveja.

E isso se reflete no dia a dia da jornalista. Seja com o namorado, o apresentador André Rizek, com as amigas, no Uber ou em restaurantes: todos querem falar sobre política com ela.

Nessa conversa com o UOL, é claro que Sadi falou sobre política, mas também revelou alguns outros segredos sobre sua trajetória. Vem com a gente.

Reprodução/GloboNews

O ato de rebeldia

No papo de 40 minutos com o UOL, a palavra "rebeldia" apareceu algumas vezes. E um dos momentos mais rebeldes de Sadi foi o que deu pontapé para ela se tornar quem é hoje: a decisão de cursar jornalismo, indo na contramão da família, cheia de médicos e advogados.

"Tinha uma tendência um pouco 'você vai seguir o que a gente já faz na família'. Pensei 'não vou fazer nada disso, vou por outro caminho'", lembra. Ela não passou em História, mas foi aceita em Direito e Jornalismo —e, como bem sabemos, escolheu o último.

Quando prestei vestibular para Jornalismo foi um ato de rebeldia. Na faculdade, eu pensei 'o que que eu vou fazer no jornalismo?'. Aí eu me apaixonei pela política.

E foi paixão mesmo. Logo em seu primeiro ano na PUC de São Paulo, em 2005, estourou o escândalo do Mensalão, e Sadi se viu viciada em acompanhar as sessões da CPI.

Eu queria vir para casa assistir TV Câmara. Minhas amigas falavam que eu era maluca, não é possível, quem quer ver isso. Porque é chato se você não gosta. Meus irmãos sempre trocavam de canal, ficavam irritados comigo. Mas eu olhei e falei 'eu quero fazer isso'. O jornalismo para mim só tinha sentido se fosse no jornalismo político.

Daí veio ooooutro ato de rebeldia. Para cobrir os bastidores da política, Sadi, filha do meio entre uma irmã e um irmão, precisava se mudar para Brasília. A decisão foi recebida com choque pela família, em que a tradição era sair de casa só para casar.

Não saí para casar, saí para trabalhar e eu acho que foi um choque. Até eles entenderem que eu não precisaria deles, não no caso da minha mãe, mas do meu pai... A primeira reação não foi boa. E eu pensava: 'agora preciso provar que eu estou certa'. Eu brinco que a gente não quer ouvir 'eu te amo', quer estar certo.

Metade da minha família é de médicos, mas eu não posso ver uma agulha. Quando eu vou tirar sangue, eu choro, imagina, menor condição!

Andréia Sadi, falando porque também não tinha vontade de virar médica

Divulgação/Globo Divulgação/Globo

E quase desistiu

Isso não impediu que Sadi também tivesse suas dúvidas depois de já estar estabelecida na capital federal —com a devida ajuda da mãe Sara, claro. "Mãe é mãe. Ficou brava uma semana e na semana seguinte foi para Brasília montar casa para mim, obviamente", conta.

A realidade da vida em Brasília, no entanto, foi sofrida. Sadi não conhecia a cidade e estava, pela primeira vez, morando sozinha. "Brasília é uma cidade muito solitária no sentido de que todo mundo que está lá, que está correndo na sua raia, também é de fora e também foi lá para trabalhar. Ninguém vai a Brasília para visitar e fala 'gostei, vou morar aqui'. Eu não conheço", admite.

Sentindo-se sozinha, Sadi chegou a pensar em desistir e voltar para São Paulo —mas a mãe, a quem não queria de jeito nenhum dar trabalho, a incentivou a seguir em frente.

Eu falava que ia voltar, ela falava 'não vai, não, foi até agora, vai ficar aí. Vai voltar por quê? Você gosta do que faz'. Mas é uma cobertura pesada. A política é pesada e sempre foi, mas desde que estou em Brasília piorou muito. E é isso, você vive para trabalhar. As pessoas perguntavam como é morar em Brasília. E eu respondia 'eu não sei, eu só trabalho'.

No fim, deu tudo certo —inclusive com a família.

Eu fiz tudo do meu jeito, mas acabei fazendo tudo que eles queriam. Porque eu saí de casa, fui trabalhar, me formei, casei na igreja. Fiz tudo que eles quiseram, mas não foi na ordem que eles quiseram e não foi porque eles quiseram, foi porque eu quis.

Andréia Sadi

'Haters'

Lidar com a internet em tempos de tensão política não é a missão das mais fáceis até para anônimos. Imagina se você fosse um dos nomes mais em evidência na televisão? Essa é a vida de Sadi, que tira os "haters" de letra. Afinal, ela já passou por situações mais apertadas em 2016, quando cobria o resultado das eleições à prefeitura de São Paulo no comitê do PT, partido do então candidato Fernando Haddad.

"Eu estava ao vivo, ele (Haddad) tinha perdido para o Dória em primeiro turno, e aí veio a militância e começou a me atrapalhar, eu praticamente não conseguia trabalhar. No dia seguinte, a assessoria (do PT) me ligou e explicou que ele estava ali, mas, como me relataram, tinha acabado de perder a eleição, não estava em condições (de ajudar). Imagina que veria o que estava acontecendo mais adiante onde estavam os jornalistas."

Na internet, brinco que o 'block' é via de mão dupla. Você pode me criticar, mas não pode me ofender, é simples. Uma vez respondi, não gosto de responder, nunca sei se é robô. Mas, às vezes é tão surreal, rola obsessão pelo ataque. Crítica é uma coisa, não dá é para ser agredida.

E o machismo?

Nas redes sociais, já aconteceu de Sadi ser ofendida com insultos de cunho machista. "Mulher é pior, o xingamento, para mim, é pior. É baixo, nojento. Então, começou a xingar, fazer esse tipo de ataque, eu bloqueio. Lido assim", diz.

Os espaços da política, infelizmente, ainda são muito masculinos —mas Sadi crê que a situação vem melhorando, muito por conta do aumento do número de mulheres entrando para cargos públicos. "Acho que melhorou muito o ambiente, melhorou muito a noção das pessoas".

Desde o começo, porém, ela se viu preocupada em colocar limites em suas relações trabalho. "Mulher quando é séria, é brava. Sempre fui muito, muito séria e acho que cobrindo política, eu coloquei os limites. Acho que dobra, triplica essa preocupação".

Parte do trabalho é isso: almoçar, tomar café e jantar com fonte, é normal. Como eu acordo muito cedo e eu não bebo, eu nunca gostei de jantar. Então, isso também é um limite que eu colocava para mim, porque funciono melhor de manhã. Então não tem muita confusão a ser feita. Mas eu acho que a mulher se cobra isso.

Andreia Sadi

Reprodução Reprodução

A rebeldia que a tirou do esporte

Bem antes de sua decisão rebelde de ir para o Jornalismo, Sadi já mostrava a rebeldia de outras formas —como quando, aos 11 anos, desistiu de jogar uma final de futsal no São Paulo, para viajar pela primeira vez com seus amigos para Toque-Toque, no litoral paulista.

Coisa de menina rebelde sem causa. Não tinha nenhuma causa, era só para irritar meu pai, mas também porque eu queria ir na viagem. Eu jogava superbem.

Sadi não teve coragem de falar para seu pai, Carlos Henrique, que iria desistir da final. Ele, aliás, é até hoje conselheiro do clube paulistano.

Depois, ela, que também jogava vôlei, seguiu treinando por mais dois anos antes de parar. "Eu falei 'não tem a menor condição de acordar cedo para treinar e viajar', e eu já queria fazer outras coisas da vida. Mas eu adoro jogar, é muito bom".

Reprodução/Instagram

O nascimento que virou notícia e investigação

O nascimento de Sadi foi um evento à parte. Ela nasceu no carro, em plena Avenida 9 de Julho, na capital de São Paulo, enquanto seus pais tentavam chegar ao hospital, na região da Paulista.

Fechou o trânsito, imagina. O meu pai —ele confirma isso, porque eu chequei com os dois —ficou branco, não conseguiu ajudar a minha mãe. Aí ela falou que eu saí muito forte, bati a cabeça e ela me segurou com a batata da perna. Foi muito rápido. Meu pai conta que ele estava quase morrendo, desmaiando e o pessoal do ônibus do lado começou a bater palmas.

Sadi apurou a história com precisão jornalística ao longo dos anos. Tudo porque seus dois irmãos brincavam sobre ela ser adotada, já que ela, mais questionadora, tinha uma personalidade diferente da do resto da família.

"A minha mãe ficava louca com aquilo", lembra. "Ela falava 'Andréia, contei 15 vezes essa história, eu não sou suas fontes'. Com meu pai era a mesma história. Mas depois de tantos anos e eles saberem tantos detalhes, é verdade, tem que ser verdade".

Reprodução/Instagram

Medo da câmera

Quem vê sua desenvoltura com a câmera ligada pode não acreditar, mas Sadi é tímida. Quando ainda trabalhava na Folha de S.Paulo, ela fez participações em um dos quadros de Cristiana Lobo, o suficiente para passar mal. "Era gravado e, mesmo assim, eu passava muito mal, ficava nervosa. Eu sou tímida".

Eu não conseguia me assistir no começo. Sempre me vi mais cheinha do que era, tive muito problema de peso na infância, eu não gostava da imagem que via. Então, eu fazia sem ver, só ouvia a voz.

"Eu fiz um ao vivo em frente ao palácio e quando acabou, eu suava, porque Brasília é quente. Eu liguei pro meu o meu marido na época, o Paulo, que hoje é super meu amigo, e disse 'eu não quero isso nunca mais na vida, estou passando mal'. Nem sei o que falei, porque estava muito nervosa. Ele assistiu e falou que foi ótimo e eu não quis acreditar".

Sadi ainda revelou que Marina Franceschini chegou a acalmá-la dizendo que as coisas ficariam mais tranquilas a partir do 15º dia. "Não é possível, estou no 12º e ainda estou passando mal", relembra.

"Até hoje não tem um vivo que eu faça que eu não fique nervosa. E não adianta falar que é mentira, é verdade. E eu prefiro ficar assim, porque quando você está atento, a chance de errar é menor. Isso é muito verdade, não adianta, você tem que estar alerta. Eu sou uma pessoa tensa, estou sempre tensa, na apuração, no ar, porque você está alerta, só quando acaba que eu falo 'ufa'."

No meu primeiro plantão em rede nacional na Globo, eu achei que iria desmaiar. Minha mãe me ligou e perguntou 'você acabou de entrar no Vídeo Show, o que aconteceu?'. Falei 'acho que era o plantão, mãe'. Só me falaram no ponto 'você vai entrar agora'. Só que era um plantão. Eu achei que ia morrer, não acreditava que isso estava acontecendo

Andréia Sadi

Globo/Fábio Rocha

A fama

Estar toda noite na casa das pessoas no Jornal Nacional faz com que Andréia também assuma uma faceta nova em sua vida. A de ser famosa. Uma dificuldade a mais para quem é tímida e precisa lidar com o assédio dos fãs.

Jornalista não é artista né. Eu acho que jornalista não pode se furtar a falar sobre o jornalismo. Eu entendo totalmente o interesse. A gente é curioso, né. Não tem profissão mais curiosa que a nossa, e eu acho isso incrível.

"Mas me incomoda quando é fofoca, sabe. E quando se é mulher, você fica mais exposta. Então, você tem que se preservar. Cabe a mim me preservar. Eu não divido a minha vida pessoal no meu Instagram, por exemplo. Tenho algumas coisas ali que posto porque eu quero postar. E se alguém pergunta alguma coisa sobre a minha vida pessoal, que eu não acho invasivo, eu respondo, não tem problema algum".

Eu acho que há mais curiosidade com a mulher, o que é chato, mas eu tenho uma capacidade muito grande de ignorar as coisas. Isso é bom. você cria uma casca e vai embora. Quando não é ofensivo, tudo bem, não estou escondendo nada de ninguém.

Reprodução/Instagram

Vida de 'casada' na pandemia

A pandemia trouxe uma novidade na rotina de Sadi. Como mora com André Rizek, seu namorado e apresentador do SporTV, eles precisam fazer algumas adaptações na hora de entrar no ar. Quase como uma escala de trabalho dentro de casa.

"Eu estou sempre trabalhando. Se estou em casa, estou trabalhando, se estou aqui falando com vocês, estou trabalhando, e, nos fins de semana, nos plantões, faço tudo de casa. E ainda tem outro jornalista morando comigo. Tem algumas edições do jornal em que eu não consigo entrar porque esbarra nos horários do Rizek."

Eu viajava toda semana. Eu brinco que agora eu sei onde estão as coisas na casa, o que é muito bom. Eu sei onde está o copo, porque antes eu não sabia, eu nunca estava em casa

Andréia Sadi

Sadi, e o Queiroz?

Todo mundo quer conversar sobre política com ela

Reprodução/TV Globo

Quando acaba o dia, o Rizek ainda quer falar comigo sobre política: não dá, não dá. Eu falo 'li que vão voltar os jogos'.

Reprodução/TV Globo

Já aconteceu de estar jantando e alguém me chamar alto no restaurante: 'Sadi, e o fulano?'. Acho engraçado, você quer se esconder na hora. Não, por favor, para de me chamar, de me gritar.

Reprodução/TV Globo

As pessoas querem conversar sobre política, no Uber, no táxi. Acho que no meu caso pessoa se identifica com o que faço. Ela quer informação, ela quer conversar comigo sobre isso.

Reprodução/TV Globo

As pessoas vêm conversar comigo quando entro no elevador: 'Sadi, e o Queiroz?' Não, não dá, estou ouvindo música, são 6 da manhã, não vou conversar sobre o Queiroz.

Topo