Se vira nos 30 anos!

"Domingão do Faustão" comemora sucesso como programa de auditório mais longevo da Globo

Paulo Pacheco Do UOL, em São Paulo
Selmy Yassuda/TV Globo

Quem sabe faz ao vivo!

A Globo viu em um jornalista esportivo o sucessor de Chacrinha nos programas de auditório. Parece loucura, mas deu muito certo. Fausto Silva, ex-repórter de campo, é o dono dos domingos da TV ao lado do tradicional Silvio Santos (SBT) com o "Domingão do Faustão", que hoje comemora 30 anos de sua estreia.

Fausto virou Faustão no "Domingão", mas já incomodava a concorrência (e a ditadura militar, que censurava seus palavrões) no "Perdidos na Noite", seu primeiro programa de auditório na TV. Levado para a Gazeta pelo jornalista Goulart de Andrade (1933-2016), o apresentador migrou rapidamente para a Record e ganhou projeção nacional na Band. Meses após a morte de Chacrinha (1917-1988), Fausto Silva foi contratado pela Globo.

Durante três décadas, Faustão enfrentou gigantes como o próprio Silvio e travou uma das maiores "guerras" pela audiência com Gugu Liberato (SBT). Casos como "Latininho" e "sushi erótico" geraram crises no programa, e o apresentador decidiu dar um basta na apelação. Com o tempo, ele viu a concorrência cair enquanto seu "Domingão" reinava na TV. Mas, para Fausto, a disputa nunca termina.

"É um desafio toda semana, com o lema de 'insatisfação permanente e renovação constante', pois vem de uma atração segmentada, que é o futebol, e com o objetivo de conquistar público em todas as idades e estilos. Emoção, humor, informação, curiosidades, prestação de serviço público, música de todo tipo ou gênero são os ingredientes", explica Fausto Silva ao UOL.

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Lucimara, o "carma" de Faustão

Lucimara Parisi é exatamente um ano mais nova do que Faustão. "Nascemos no mesmo dia. Ele fala que é o carma da vida dele: 'Ai, que saco, tenho que aguentar isso também!'", brinca a diretora de TV, que integrou a equipe do "Domingão" até 2009.

As piadas ao vivo marcaram a relação entre Lucimara e Faustão, iniciada muito antes do "Domingão" (como diria o apresentador, desde os tempos dos 'Perdidos'). Os dois se conheceram na rádio Excelsior, coirmã da Globo, no final dos anos 70. Ela produziu os primeiros programas de auditório do colega no rádio ("Balancê") e na TV ("Perdidos na Noite"), e acompanhou o crescimento do ex-repórter no palco.

"Ele falava cada barbaridade para mim que era uma coisa de louco! Eu também entrava no pique e dava risada", lembra a diretora, que há dez anos trabalha com Ratinho e há três apresenta seu próprio programa na Rede Brasil. Ela se orgulha da trajetória no "Domingão" e conta que sempre apostava no sucesso de Faustão.

"Um cara para manter um programa líder durante 30 anos tem que ser bom. Vi desde o primeiro dia o que ele é hoje. Eu via nele um novo cara, irreverente, com novo linguajar. A garotada curtia muito. Eu sabia que ele iria estourar", afirma.

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Tensão e estratégia para bater Silvio

Fausto Silva chegou à Globo após a emissora perder Gugu Liberato. Silvio Santos conseguiu convencer Roberto Marinho a romper o contrato e resgatar seu pupilo, para surpresa da equipe que mais tarde ficaria no "Domingão". A estreia do programa deixou o apresentador tenso.

"O Fausto estava muito nervoso. Um dia antes da estreia, teve uma crise renal e apresentou o programa 'mais ou menos'. Ele passou a noite dormindo em uma banheira de água quente", recorda Mauricio Nunes, diretor de quadros.

"Não estava normal porque estava saindo da Band para a Globo, com uma responsabilidade maior, vários anunciantes. Claro que você fica um pouco tenso, por causa do senso de profissionalismo. Mas ele segurou lindo", conta Lucimara Parisi.

Líder de audiência no início, o "Domingão" começou a perder público para Silvio. Mas a equipe do programa global montou uma estratégia que levaria o dono do SBT a praticamente abandonar o dia mais forte de sua programação.

"Peguei um caderno e escrevi tudo que Silvio falava. O programa inteirinho, quase oito horas. Vi que era muito lento, pouco dinâmico, e fomos colocando coisas legais. Criamos uma 'espinha dorsal' com 'Olimpíadas', 'Pegadinhas' e 'Videocassetadas', e começamos a ganhar do Silvio, até que ele desistiu e foi para a noite", explica Nunes.

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Montagem/UOL/Divulgação/TV Globo/Renato Larangeira/Arquivo pessoal Montagem/UOL/Divulgação/TV Globo/Renato Larangeira/Arquivo pessoal

Renatão, o maior cinegrafista do "Domingão"

Quem assistiu ao "Domingão" nos anos 90 e não se lembra do Renatão? O cinegrafista bigodudo Renato Larangeira "sofria" nas mãos de Faustão, mas por trás das brincadeiras havia uma relação de respeito e profissionalismo entre o apresentador e o cameraman mais conhecido do programa.

Faustão começou a aprontar com Renatão quando soube que ele tinha fama de "palhaço". O profissional, que trabalhava na Globo desde os anos 60, participava das brincadeiras de Didi em "Os Trapalhões" e era o cinegrafista Xuper do "Xou da Xuxa".

"Ele dedicou uma faixa do programa à criançada e começou a me lançar fantasiado", relembra o cameraman, que na TV já se vestiu de samurai, havaiana, gari, coelhinho da Páscoa e até freira. No dia em que se fantasiou de Professor Raimundo, levou um tombo que fez até suas calças caírem ao vivo.

Hoje, aos 72 anos, Larangeira mudou: está 60 quilos mais magro (resultado de uma cirurgia bariátrica) e tem o bigodão ofuscado pela barba. Depois da Globo, onde também ensinou a operar câmeras, trabalhou na Record. Aposentado há cinco anos, ele se emociona ao se lembrar da convivência com Faustão.

"Tenho muita saudade porque aprendi muito com o Fausto. A posição dele, a personalidade, a honestidade. Ele é um talento. Tenho muito carinho por ele. O palhaço chora também", diz Renatão, enxugando as lágrimas. "Assisto às gracinhas dele no 'Domingão' e falo com a minha mulher que, se fosse comigo, estaria penando na mão dele", brinca.

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A chefona do balé

Quer ser bailarina do Faustão? Não pense que elas apenas servem para rir das "Videocassetadas" e trocar 15 segundos de papo com Fausto Silva. O cargo dos sonhos das dançarinas que almejam um lugar na TV é disputado e requer um treinamento rigoroso.

Há quatro meses, a coreógrafa Regina Calil coordena o trabalho do Balé do "Domingão". A professora de dança e fisioterapeuta trabalha de terça a domingo para deixar prontas as 39 bailarinas fixas do programa, além de 170 moças que dançam em quadros específicos, como "Ding Dong" e "Show dos Famosos", que servem como porta de entrada para quem quer ser "promovida".

"Elas são extremamente dedicadas, é por isso que o Fausto tem grande apreço por todas elas e um cuidado muito especial com cada uma. Para mim, tem sido um prazer muito grande", comemora Regina Calil, que conta receber dez pedidos por dia de mulheres interessadas em entrar para o Balé do Faustão.

A profissional de 58 anos já foi bailarina no SBT e participa do júri da "Dança dos Famosos" há oito anos. O convite para chefiar o time de bailarinas tem sido um desafio empolgante para a coreógrafa, que ao lado da assistente Natália Trevisan precisa lidar com dezenas de mulheres e suas peculiaridades.

"Tenho que ter, ao mesmo tempo, delicadeza e firmeza. Mulheres têm TPM, a parte hormonal tem uma variação muito grande. Há particularidades femininas que procuro levar muito em consideração para que a gente possa tornar os ensaios agradáveis e que eles consigam ensaiar", explica.

As bailarinas trabalham todos os dias da semana, exceto às segundas, e ensaiam para o programa com duas semanas de antecedência. Em média, elas precisam decorar 15 coreografias, mais 30 só no "Ding Dong".

Ex-bailarinas, eternas bailarinas

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Tainá Grando

"Trabalhar na Globo foi uma escola para mim. Muita coisa que aprendi lá dentro aplico nos meus outros projetos. São 30 anos de 'Domingão' e fiquei sete anos lá. É uma honra para toda bailarina que quer viver da dança, lá é um lugar que a gente sonha estar. Quando entrei, realizei um sonho. Entrei uma menina, com 19 anos, e saí uma mulher. Fez parte da minha história. Minhas melhores amigas são do Balé. O 'Domingão' marcou a minha vida"

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Bruna Padovani

"Nunca tive a pretensão de que passaria na seleção, que na época era bem rigorosa. Acredito que a estreia tenha sido um dos dias mais felizes da minha vida. Sentia aquele friozinho na barriga toda vez que o programa começava. Foi uma grande faculdade, com ensinamentos que irei levar para a vida. Faustão é uma pessoa com um grande coração, fazia questão de nos receber em sua casa. Eu me sentia em uma grande família"

Raquel Cunha/TV Globo Raquel Cunha/TV Globo
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As inoxidáveis "Videocassetadas"

Domingo sem "Videocassetadas" não é domingo. E elas encerram o "Domingão do Faustão" desde abril de 1990. O momento mais esperado do programa de Fausto Silva é assistir a vídeos caseiros de pessoas comuns escorregando, caindo ou até machucando as partes íntimas. Simples, não é? Nem tanto. Dois redatores e dois editores trabalham para tornar as cassetadas, como diz Faustão, "inoxidáveis".

O ator Riba Carlovich e o humorista Fábio Güeré são os responsáveis por escrever os títulos das cassetadas, sempre com algum trocadilho ou referência ao vídeo que irá ao ar. Riba, no "Domingão" há 30 anos, não se cansa de trabalhar no mesmo quadro. Güeré começou há dez meses e adora acompanhar a repercussão na internet.

"A coisa mais importante é que se incorporou ao vocabulário das pessoas no dia a dia. A pessoa senta em uma cadeira e desaba: 'Pô, videocassetada!'. Escolher a mesma cassetada e não repetir o texto é a minha motivação. Se o cara leva uma bolada no saco, o que escrevo? 'Batida de ovos', 'omelete', já usei todas essas", brinca Carlovich.

"Temos as cassetadas pontuais, temáticas, e há outras cassetadas soltas, que chamamos de 'ordinárias', para colocar qualquer frase e o Fausto improvisar em cima. Dois dias de pesquisa e fechamento do bloco e um dia de edição. Apesar de ser um quadro para divertir, ser um compilado de vídeos, é algo bem selecionado. Parece meio maluco eu falar isso, mas a escolha é bem criteriosa", explica Fábio.

Se depender dos dois roteiristas e de Faustão, as "Videocassetadas" nunca sairão do ar. O quadro despretensioso (e ao mesmo tempo o mais barato do programa) tem a missão de fazer o apresentador e o público de casa rirem e esquecerem os problemas da vida.

"É um respiro para a pessoa que já está no prenúncio da segunda-feira. A cassetada é universal, para qualquer idade ou classe social, e agrada a todos. É a grande virtude do quadro, porque o público de domingo é heterogêneo. Um tombo bem dado não tem erro", analisa Riba.

"As bailarinas são o primeiro termômetro, porque elas começam a rir, a risada contagia o auditório e, depois disso, o Fausto vai também. Ele adora. É a hora que ele relaxa, porque é um programa longo, às vezes tem assuntos mais elaborados, e é ao vivo e gera uma tensão não só no no Faustão mas em toda a equipe. Quando ouvimos a musiquinha das videocassetadas, damos uma respirada, descansamos, porque é hora de dar risada", celebra Güeré.

"Domingão" dos memes

  • "Tá pegando fogo, bicho!"

    Em 1994, o inventor português Marcolino Pereira levou ao "Domingão" uma churrasqueira a controle remoto. Na hora de ligar, o aparato explodiu em pleno estúdio, dando um baita susto em Faustão. "Tá pegando fogo, bicho!", gritou o apresentador. O churrasco queimou, mas rendeu um dos primeiros memes do programa

    Imagem: Reprodução/TV Globo
  • "Errou!"

    É um país da Europa. Invadiu o Brasil. É terra dos moinhos de vento. Eliminou o Brasil na Copa do Mundo de 2010 e perdeu a final para a Espanha. E fala holandês! Que país é esse? No game "No Sufoco" de janeiro de 2011, ninguém respondeu Holanda e todo mundo "errrrrou!", eternizando mais um meme de Fausto Silva

    Imagem: Reprodução/TV Globo
  • "Faustop"

    O sertanejo Filipe Labre venceu o quadro "Iluminados" de 2016, mas Fausto Silva ficou inconformado porque deram ao campeão uma coroa horrível, e não o prêmio de R$ 150 mil. O apresentador tirou o acessório da cabeça do cantor e se auto coroou: "Tira essa merda da cabeça, isso é feio pra chuchu!". E Faustão virou "Faustop" nas redes sociais

    Imagem: Reprodução/TV Globo
  • Selena Gomez

    Pode acreditar, mas a internet criou uma história de amor entre Fausto Silva e Selena Gomez. A produção do "Domingão", que adorou a trama, pôs a cantora norte-americana nas dedicatórias do apresentador, fazendo o público "shippar" ainda mais o casal. Até o filho de Faustão entrou na zoeira e disse que o relacionamento dos dois acabou

    Imagem: Reprodução/YouTube
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O fã "número 1" de Faustão

No Twitter, Fausto Silva ganhou um apelido carinhoso: simplesmente "Fau". O nome singelo é obra de um dos primeiros fã-clubes do apresentador nas redes sociais, o "Faustanetes". Criado no final de 2015, conseguiu a proeza de ser oficializado pelo próprio Faustão, ao vivo, no "Domingão" de 23 de outubro de 2016.

A dedicatória (certamente obra de algum produtor atento às redes sociais) surpreendeu o criador do "Faustanetes". Ele, que prefere esconder sua verdadeira identidade, diz ter 21 anos e morar em Brasília. Ele não viu o "Domingão" nascer, mas assiste aos programas antigos desde os tempos dos "Perdidos na Noite".

"O Fausto é uma lenda da televisão brasileira. Ele é um comunicador por natureza. Eu sou fascinado pelo talento, generosidade e humildade dele, pois percebe-se que não é forçado, sabe? Ele simplesmente é aquilo. Espontâneo, divertido, polêmico e mutável", elogia o fã.

No perfil, seguido por 20,3 mil admiradores de Fausto Silva, o rapaz publica as melhores fotos do apresentador e lança perguntas como: "Vocês beijariam o dedo do Fau?". Os elogios à beleza do apresentador são sempre muito respeitosos e ganharam o apreço da mulher de Faustão, Luciana Cardoso, roteirista do "Domingão".

"Eu converso de vez em quando com a mulher dele pelo Instagram. Ela é um amor de pessoa também. Ela é sempre muito educada e legal comigo. Algumas pessoas da equipe dele me seguem e já falaram sobre o fã-clube para ele", conta o dono do "Faustanetes", que se diverte com os memes e gosta de mostrar um outro "Fau" ao público.

"O único programa de TV a que assisto é o 'Domingão do Faustão'. Fico feliz que muitas pessoas passaram a ver o Fausto com outros olhos por causa do fã-clube. Com os memes, elas perceberam que, além de engraçado, ele é um homem de 68 anos que luta contra a homofobia, o racismo e o sexismo. Apesar de ser idoso, tenta se adaptar às novas realidades. Ele erra? Lógico que sim. Mas realmente acredito que ele vai continuar se inovando e trazendo novas perspectivas para as pessoas", afirma.

Conheci outros apresentadores, como Silvio Santos, Flávio Cavalcanti e Chacrinha, mas procurei ser diferente. Uso uma frase do Armando Nogueira de que humanizei o elenco da Globo. Antes do 'Domingão', os artistas da Globo só eram vistos em novelas e outros trabalhos. Quando coloquei esse pessoal no 'Domingão', eles se sentem à vontade, falam o que quer e podem conversar sobre os mais diferentes assuntos. Faço ao vivo, apresento e edito no ar. Não há ponto eletrônico nem TP, mas tem TPM de vez em quando

Fausto Silva

Fausto Silva, sobre o segredo do sucesso do "Domingão"

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