"Para, para, para!"

João Kléber revisita polêmicas de sua carreira, fala de saída da Globo e diz que desistiu de ser pai

Guilherme Machado Do UOL, em São Paulo
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João Kléber já ouviu todo tipo de história em seu programa, Te Vi na TV. O apresentador da RedeTV! ainda se lembra dos relatos, muitos deles bizarros e fora da realidade, como o de uma mulher que disse que comia batons para ficar bonita por dentro ou um rapaz que revelou colecionar pulgas para montar um circo.

Entre um momento surreal e outro, o apresentador ri e se diverte. "Obviamente que alguns casos eu falo: isso não pode ser normal. Mas já que vieram para tirar sarro com a minha cara, então vou fazer zoeira também", conta ele ao UOL.

Mas João também tem algumas narrativas de deixar quem ouve de boca aberta. Aos 17 anos, ele decidiu deixar para trás sua vida em São Paulo para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Seu sonho: ser roteirista de humor na Rede Globo. A realidade: dormir na praia e procurar uma forma de atravessar os dias. Os perrengues, enfim, levaram-no ao seu destino, mas, segundo ele mesmo conta, o que sucedeu não passava pela sua cabeça.

Redator de programas humorísticos e já conhecido nesse universo, foi chamado em 1988 para a missão de comandar o Cassino do Chacrinha ao lado do famoso apresentador, que já estava com a saúde debilitada. A passagem foi curta, mas o colocou de vez no mapa da TV brasileira. Com a saída da Globo, tornou-se o primeiro contratado da Rede TV!, ajudando a cortar a faixa de inauguração da emissora estreante, motivo de orgulho para ele.

Com seu Te Vi na TV —também chamado Eu Vi na TV— João começou a galgar seu espaço na cultura pop brasileira, com quadros como Teste de Fidelidade e as agora famosas revelações de convidados, que geraram uma série de memes e polêmicas. Em 2005, por determinação da Justiça, a Rede TV! ficou 24 horas fora do ar por conta de uma pegadinha de seu programa. Pouco depois, João deixou o país rumo a Portugal.

Momentos de tristeza também marcaram o apresentador, como a morte de sua primeira mulher e um aborto espontâneo sofrido pela segunda, o que o levou a desistir de vez de ser pai. Recentemente, tomou outro susto ao descobrir que teria que realizar uma cirurgia por conta de um problema no coração. Apesar de tudo, João, famoso pelo bordão "para, para, para", segue, com garra e foco naquilo que o faz feliz: seu trabalho na Rede TV!, emissora que considera sua casa, e sua namorada, a jornalista Mara Ferraz.

Ainda tenho muitas coisas a realizar. Ainda tenho muitos sonhos. Eu gostaria de um dia fazer um programa de variedades mesmo, legal, em que eu pudesse entrevistar e entreter. Até mesmo um talk show diferenciado, não sei, mas uma coisa diferente do que faço hoje. Eu acho que, enquanto a gente respira, a gente sonha.

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O velho e o jovem guerreiros

A trajetória de João Kléber não foi exatamente fácil. Aos 17 anos, pegou um ônibus e partiu rumo ao Rio de Janeiro para perseguir seu sonho de trabalhar com humor. Sem emprego e sem ter onde dormir, ele precisou se virar.

"Cheguei lá é tive que morar na praia. Muitas pessoas me ajudaram, porque eu não tinha condições e falei que não ia voltar para São Paulo derrotado, até para não envergonhar minha mãe. Eu prometi a ela que ia vencer, com dignidade, com responsabilidade."

Nesse turbilhão, surgiu Helô Pinheiro, a eterna Garota de Ipanema. "Conheci a Helô e fiz um desabafo. Ela disse que eu poderia ficar na casa da mãe dela. Dormi no quarto do irmão dela, que estava viajando, por um período de 15, 20 dias, até eu alugar uma vaga em uma pensão que tinha na divisa de Copacabana e Ipanema."

A primeira oportunidade de se mostrar no humor veio na Jovem Pan, em um programa humorístico chamado Show de Rádio. Mais tarde, as portas da Globo, pelas mãos de Chico Anysio, abriram-se para ele, e o trabalho de roteirista começou.

"Quando cheguei, comecei a ver meus ídolos. Para mim era uma coisa imaginária. Mas, depois, percebi que não era bem assim. Foi bom eu ver rápido que televisão é trabalho, como qualquer outra empresa. Um lugar onde você tem que se posicionar, cumprir ordens, seguir regras."

Aos 26 anos, João recebeu um pedido inesperado. "Fui chamado na sala do Boni [então superintendente de operações da Globo] e lá estava o Leleco Barbosa, filho do Chacrinha. Eles me comunicaram: "Olha, João, a partir de sábado você vai apresentar o programa ao lado do Chacrinha, porque ele está debilitado. Você vai ajudá-lo".

Falei que sim, porque se eu parasse para pensar mesmo eu não faria. Não era a Globo de hoje, era uma época que realmente tinha um share de 90%. Ou seja, 90% das pessoas assistiam ao programa do Chacrinha. Era muita responsabilidade", relembra.

A responsabilidade foi grande, e o aprendizado também. Com Chacrinha, ou seu Abelardo, como João diz que sempre chamou o apresentador, ele teve uma convivência curta, mas intensa.

"Tive o privilégio de dividir até o camarim com o Chacrinha, porque ele queria que ficasse perto dele. Ele queria passar sua experiência. Uma das coisas que guardo foi quando ele me disse: 'Não tenha vergonha de ser popular'. Isso me inspira até hoje. Eu jamais poderia imaginar que, no futuro, eu criaria programas populares e tão polêmicos."

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"Se estivesse na Globo, faria sucesso até hoje"

Com a morte de Chacrinha, o futuro de João Kléber passou a ser incerto na Globo. Discussões ventilaram a possibilidade de ele ter um programa aos domingos na emissora.

Só que havia um grande porém: a Globo estava negociando a chegada de Fausto Silva, o Faustão, que então apresentava o Perdidos na Noite, na Band. Por isso, João não criou grandes expectativas.

"Eu já estava ciente de que o Fausto poderia chegar à Globo, o que acabou acontecendo e eu achei ótimo. É um amigo, continua sendo um amigo. E eu sabia que se o Fausto fosse para a Globo, esse programa seria dele."

O apresentador faz, entretanto, uma ressalva: "Mas uma coisa eu te garanto: se eu estivesse apresentando, estaria lá até hoje. O programa teria sucesso até hoje também, como o Fausto é sucesso. Acredito nisso pelo que sou hoje profissionalmente, pela garra que eu tenho, pela determinação. Tanto que o Te Vi na TV ficou na frente da Globo durante dois anos."

Quando vim para a Rede TV!, pessoas da Globo me falaram: 'Você vai para a RedeTV!, TV que está começando. Ou você volta para a Globo ou você encerra a carreira'. Eu disse: 'Tenho também duas alternativas para vocês: ou eu volto para a Globo, ou eu ganho da Globo. E ganhei da Globo.

João Kléber, sobre sair da Globo para a nova emissora

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Uma nova TV

João Kléber deixou a Globo em 1994, após tentativas de projetos que não deram certo. Passou, então, a investir em sua carreira de humorista e começou a viver de teatro. Em um de seus espetáculos, teve como espectador Amilcare Dallevo, um dos donos da Rede TV!, que o convidou para ser o primeiro contratado da emissora que estava para nascer. Ele topou.

"Assinei contrato quando a Rede TV! ainda nem existia", lembra.

O Te Vi na TV foi se tornando um programa de variedades e ganhando fama por seus quadros. Além das pegadinhas, um dos que mais fizeram sucesso foi o Teste de Fidelidade. Mas talvez a atração mais antológica seja a revelação de segredos. O apresentador criava uma enorme expectativa sobre a revelação e daí surgiu o famoso "para, para, para", que João falava para aumentar a tensão.

As revelações muitas vezes eram completamente absurdas, como no caso de uma mulher que contou que comia batons para ficar bonita por dentro, ou de outra que disse que se prostituía para comer cheeseburguers.

"Se tem que entreter as pessoas, então vamos entreter. Qual é o bordão mais falado no Brasil nos últimos anos? É o para, para, para", orgulha-se.

João, que decora todo o programa antes de começar a gravar, procura ter o máximo de espontaneidade possível, inclusive para lidar com histórias bizarras. "Todo o meu programa é de improviso. A produção me dá a história da pessoa, vou lá e faço do meu jeito. Obviamente que, em alguns casos, eu falo: isso não pode ser normal. Mas, já que vieram para tirar sarro da minha cara, então vou fazer zoeira também."

Tudo isso já criou uma série de controvérsias para João Kléber. Em 2005, ele foi campeão de queixas da campanha Quem Financia a Baixaria É Contra a Cidadania, criada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Eles rotularam que aqueles programas populares eram de baixaria, e o ranking mudava mês a mês. Com todo respeito aos parlamentares da época, tinham tanta coisa mais importante para cuidar do que usar desses artifícios para poder fazer campanha eleitoral. As pessoas começaram a ver que baixaria é roubar o povo

No mesmo ano, uma polêmica maior ainda: por conta de uma pegadinha de seu programa, na qual um figurante apanhava por ser homossexual, ONGs entraram na Justiça contra a emissora, pedindo que um programa educativo fosse exibido no lugar da atração. A Rede TV! decidiu, no entanto, exibir a série Vila Maluca. Como consequência, a Justiça determinou que a emissora ficasse 24 horas fora do ar.

"É tão incoerente. Sempre dei espaço para drags, sempre tive nas minhas produções pessoas homossexuais. Se tem uma coisa que eu jamais fui é homofóbico."

João Kléber elege três momentos icônicos de seus programas

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Para comer cheeseburguer

"O do 'se prostituir por cheeseburguer', sem dúvida." Uma mulher contou no programa que se prostituia para comer cheseeburguers, em uma cena que é lembrada até hoje nas redes sociais.

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Quebra tudo!

Em um Teste de Fidelidade, uma mulher, revoltada, quebrou o cenário do programa. "Eu estava desesperado. aquele cenário era praticamente novo."

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Vamos ao circo

No quadro dos segredos, em outro momento inusitado, um jovem contou que estava colecionando pulgas para montar um circo de pulgas. "E o pior é que ele queria que eu contasse as pulgas?", brinca João.

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"Desisti de ser pai depois que minha namorada teve um aborto"

A trajetória de João Kléber também é marcada por perdas. Após a decisão da Justiça que tirou a Rede TV! do ar por 24 horas, o apresentador deixou o Brasil e foi morar em Portugal. Pouco tempo depois, ele se separou da mulher, Wanya Barros, com quem foi casado por 12 anos.

Em 2015, Wanya morreu em decorrência de um câncer de pulmão. Mesmo separados, a notícia caiu como uma bomba para o apresentador, que descreveu o dia como "o mais triste de sua vida". "Wanya foi uma pessoa que me ajudou muito."

Conversamos uma semana antes de ela falecer. Colocamos tudo em pratos limpos, como a gente diz no vocabulário mais simples. Ficamos bem resolvidos. Parece que ela já adivinhava que ia partir.

Depois de Wanya, João teve uma relação com a modelo portuguesa Elsa Raposo. Em 2009, ela engravidou, e ele comemorou. Mas a modelo teve um aborto espontâneo, e João perdeu a vontade de ser pai.

"Nunca imaginei passar por aquilo. A nossa relação, meses depois, degringolou e acabou terminando. Falei: 'Não quero mais ser pai, não é para eu ser'. Desisti e hoje nem penso nisso."

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Não para!

Este ano trouxe mais um susto para João: ele foi internado com duas artérias entupidas e com risco de infartar. Precisou enfrentar um procedimento cirúrgico, mas diz que não ficou com medo de morrer.

"Morrer todo o mundo vai. O tipo de morte é o problema. Morte que vai fazer sofrer, lentamente. Vai tomar anestesia? Ótimo, porque se vou morrer nem vou sentir!"

Ele conta, no entanto, que a experiência trouxe aprendizados: "Hoje sou um cara mais maneiro. Já deveria ter tido mais sabedoria. Se eu tiver que falar alguma coisa não mando mais recado, já falo diretamente, fica mais prático".

Durante o processo, João teve o auxílio de sua namorada, a jornalista Mara Ferraz. Aliás, ele já considera que os dois levam uma vida de casados. "Ela [está] sempre preocupada comigo. É uma mulher abençoada, veio realmente para me iluminar. Parece que a gente se conhece há 50 anos. E temos muita coisa em comum. É uma pessoa especial. Tenho um amor enorme pela Mara."

Aos 62 anos, mesmo depois de todos os percalços, o apresentador está mesmo focado em curtir sua vida. Atualmente, ele apresenta o João Kleber Show e o Você na TV, ambos na Rede TV!, para a qual voltou em 2013.

Com vontade de realizar também outros projetos, o dono do "para, para, para" não tem vontade de seguir o seu famoso bordão. Ou será que tem?

"Você vai tirar uma confissão minha", diz ele, fazendo uma pausa, como se estivesse no banco dos segredos.

"A coisa que mais me aborrece aos 62 anos de idade é a falta do bom senso, do profissionalismo, da dedicação, do respeito ao ser humano. Meu pai dizia o seguinte: 'Se o malandro soubesse quanto é bom ser honesto, ele seria honesto por malandragem'. Cada dia que passa, vejo que essa frase do meu pai está mais presente em mim. Às vezes, fico em casa pensando: 'Puxa vida, não está na hora de dar um tempo?'. Eu olho no espelho: 'Não, João, você é mais forte do que tudo isso'. E aí esse meu lado de personalidade forte e guerreira é que me faz seguir na luta e não perder o foco."

Ouça a íntegra da conversa com João Kléber no podcast UOL Entrevista. A entrevista completa em vídeo com o apresentador está disponível no canal do YouTube do UOL.

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