Dores e amores de Manuela

Mais jovem autora a estrear no horário nobre em décadas, Manuela Dias leva sua vivência para Amor de Mãe

Débora Miranda Do UOL, em São Paulo
Jorge Bispo/Divulgação

Amor por escrever, por viajar, por estudar, por trabalhar. Amor pelos amigos. Pelo ser humano. Muito amor de filha e pela filha. Manuela Dias, 42 anos, autora da novela Amor de Mãe, citou nove vezes a palavra amor em pouco mais de uma hora de conversa para esta reportagem. Falou também de paixões. E de dor, dúvidas e inseguranças.

A escritora, que chegou à Globo com 19 anos, estreou na semana passada como autora principal de novela, justamente no horário mais nobre da TV aberta brasileira. É a mulher mais jovem a assumir essa responsabilidade em décadas. Sozinha, já havia assinado as séries Ligações Perigosas e Justiça —esta última indicada ao Emmy Internacional. Escreveu peças de teatro e filmes, além de ter atuado como diretora. E começou a carreira como atriz —profissão da qual ela diz não sentir falta. "Estava no lugar errado."

Manuela é, em grande medida, o que seus personagens mostram na TV. Ou vice-versa. "Aprendi, em momentos muito sofridos, a pensar que alguma coisa tenho que aproveitar daquilo. Eu perdi um bebê com cinco meses de gestação, foi uma experiência muito traumatizante. E o que eu pensava era: eu vou aproveitar isso. Não posso só sofrer. Tenho que partir para cima dessa experiência de algum jeito. Aprendi com a minha mãe essa resiliência, a pegar uma coisa ruim e transformar em uma coisa boa."

A dramaturgia de Manuela pode causar estranhamento para quem estava acostumado a pastelão, fantasia e tramas rocambolescas. Na mesma medida em que fala de amor, ela distribui tensão. Com personagens que não são apenas bons ou maus, que não são só felizes ou sofredores. São humanos.

"A novela tem esse impulso de humanização. A gente precisa se ver. O entregador da sua comida, ele é uma pessoa. Ele se separou ontem, o filho dele nasceu na semana passada, o pai dele pode morrer depois de amanhã. Então, essa ideia de que não existem figurantes na vida, de que todo o mundo é protagonista... De que os ricos não são os protagonistas e os pobres são os figurantes, que cruzam no fundo, servindo alguma coisa."

Nesta entrevista exclusiva ao UOL, Manuela fala ainda de sua infância, da liberdade com que foi criada pela mãe de "alma nômade", do início da carreira como atriz, de feminismo, do sonho de ser mãe que demorou a se concretizar. E de como tudo isso faz parte, de alguma forma, de sua obra.

"Tudo o que eu fiz até hoje foi formando o meu olhar, lapidando o meu jeito de ver. Então, está tudo lá: as minhas experiências pessoais, as experiências que eu peguei de outras pessoas e os meus futuros imaginários."

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Mãe guerreira

Sou filha dos anos 1970 e, quando nasci, o mundo estava muito lindo, muito colorido, muito livre. O corpo, muito legalizado. Cresci num mundo feliz e, para mim, que era uma criança, era uma experiência lúdica.

Meus pais foram muito livres na minha criação, especialmente na forma de apresentar as coisas. Porque o pai e a mãe —sobretudo a mãe— apresentam o mundo para o filho. [Ensinam] desde "isso é comida, isso não é", até "isso é amor, isso não é". São conceitos muito complexos, que vão sendo absorvidos pela criança diariamente, de forma não dita. E eu me sinto muito privilegiada nesse sentido da minha criação.

A minha mãe se separou do meu pai quando eu tinha cinco anos, e eu passei a morar com ela. Minha mãe é uma pessoa de alma nômade, e eu, aos 18 anos, já tinha morado em 20 casas. A gente se mudava compulsivamente. Quando ela falava "andei pensando", eu já começava a empacotar as coisas.

Mas sempre a vi como uma pessoa guerreira, sem medo e, ao mesmo tempo, muito criativa nas suas soluções. Ela resolvia as coisas de um jeito mágico. Não mudava nada, mas mudava tudo.

"Manuelinha, isso é material de trabalho"

Aprendi, em momentos muito sofridos, a pensar que alguma coisa tenho que aproveitar daquilo. Minha mãe sempre fala: "Manuelinha, isso é material de trabalho". Eu perdi um bebê com cinco meses de gestação, foi uma experiência muito traumatizante. E o que eu pensava era: eu vou aproveitar isso. Não posso só sofrer. Tenho que partir para cima dessa experiência de algum jeito. Aprendi com a minha mãe essa resiliência, a pegar uma coisa ruim e transformar em uma coisa boa.

A novela, para mim, é tipo aquela história do Picasso que falam: "Pô, você pintou esse quadro em dez minutos?". E ele responde: "Não, eu levei 60 anos e dez minutos". A cada momento que a vida da gente desemboca em uma obra, é tudo. Todas as experiências vão se reestratificando.

Eu entrei na Globo com 19 anos, como pesquisadora de Sandy e Junior, e tudo o que eu fiz até hoje —Fama, Faustão, Zorra Total, Xuxa, Bambuluá, A Grande Família, Aline— foi formando o meu olhar, lapidando o meu jeito de ver. Então, está tudo junto lá: as minhas experiências pessoais, as experiências que eu peguei de outras pessoas e os meus futuros imaginários.

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"Será que não vai rolar para mim?"

Eu tentei muito ter uma filha, tentei muito. Eu perdi três vezes, duas muito no começo da gravidez. Chegou um ponto em que eu falei: "Será que não vou conseguir? Será que não vai rolar para mim?". Eu tive filha com 39 anos e nunca imaginei que fosse ser difícil.

O momento de você garantir que o bebê sobreviva é um momento muito atávico. Eu amamentei a Helena até um ano e dois meses, foi a melhor experiência da minha vida. E eu odiei a gravidez. Pouquíssimas mulheres conseguem falar isso, mas meu médico disse que só duas de cada dez mulheres se sentem plenas nessa fase.

Gravidez para mim foi um tormento. Eu não era eu. As coisas que gostava de comer, de repente, eu não gostava. É um alien que toma conta do seu corpo, é uma coisa muito louca. Mas eu conversava muito com a Helena, falava: "Filha, eu te amo, não é com você. É só a gravidez que está estranha".

A maternidade é uma porrada. É o momento de você ver a vida no broto, o caos que é a vida. Não tem justiça, não tem lógica. Não tem Apolo, é Dionísio enlouquecido. A vida lá no começo, no mistério da vida.

No momento em que minha filha nasceu, eu não tive mais nenhum problema, com nada. E aí você entende o que é o amor de mãe. Eu não precisava comer, eu não precisava dormir, nada! É uma experiência que eu desejo a todas as mulheres.

Sobre as dificuldades da gestação

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"O peito é meu, o sutiã é meu"

Eu sempre tive atitudes que hoje em dia são lidas como feministas. Mas, antes, eram tidas como atitudes desleixadas, desbocadas ou de galinha, porque uma mulher que é dona do seu corpo e que fica com quem quer, ela pode ser vista de várias formas. E acho importante que esse conceito de feminismo cada vez mais vá para o dia a dia. Eu não quero queimar meu sutiã, eu adoro sutiã, mas também posso botar o meu peito para fora a qualquer momento. O peito é meu, o sutiã é meu, a blusa é minha, e eu vejo como é que faz.

O que não quer dizer que, numa relação, não exista negociação. Quem decide sou eu, mas se você quiser decidir tudo sempre sozinha, você vai ser uma pessoa sozinha —seja homem ou mulher. Eu, como sou apaixonado pelo ser humano, não tenho nenhuma vontade de ser uma ilha, só tenho vontade de criar pontes, então eu quero negociar. Sempre me respeitando, claro, respeitando a minha integridade física e moral.

A Simone de Beauvoir [escritora francesa, 1908-1986] fala o seguinte: na Idade Média, quando as mulheres não trabalhavam, o que era sobreviver? Era ter um homem. Isso foi introjetado nas mulheres e foi gerando essa falta de sororidade entre nós. Agora estamos nessa retomada, com a mulher conquistando independência —que não é só uma independência econômica, é uma independência simbólica, uma independência de "modus operandi", porque, de fato, no Brasil, 55% dos lares sequer têm a figura masculina.

Então, como a mulher ainda acha que ela precisa do homem para alguma coisa?

Mas é engraçado como às vezes a gente acredita em coisas opostas com a mesma verdade. Por um lado, eu acho que o fato de eu ser mulher muda tudo. E, por outro, acho que uma mulher é um ser humano igual a um homem. E, para mim, ser humano vem antes de tudo.

Eu acredito nas duas coisas. Acho que tem um lado meu que vê o mundo de um jeito que só porque eu sou mulher posso ver. Justiça, por exemplo, várias pessoas, quando sabiam que era uma mulher que tinha escrito, ficavam espantadas. Acho que a minha narrativa tem, às vezes, uma pegada policial que é mais associada a autores homens.

E vejo isso como uma espécie de elogio, no sentido de eu me libertar do gênero, do meu próprio gênero. Por que é isso: a liberdade de transcender o gênero e a liberdade de ter o gênero. Eu quero aproveitar as duas liberdades. Não quero ser uma autora mulher. Eu quero ser uma autora humana.

Na vida, todo o mundo é protagonista

Estudar é uma paixão da minha vida, porque o conhecimento altera a percepção. Eu realmente sempre busco estudar, ainda mais para meter a mão em cumbuca quente. Para a novela, eu pesquisei muito a realidade das babás e das funcionárias que trabalham em casa. Foi um estudo horrível, que me dá vontade de chorar até hoje.

Li relatos de Facebook muito impactantes. Como a gente vive numa estratificação perversíssima, em que qualquer pequena diferença de poder aquisitivo, dependendo da doideira de cada um, libera uma tirania. Li relatos horríveis de uma funcionária que aprendeu a fazer as necessidades dela em um pote de sorvete, de outra que passou seis anos só comendo ovo.

Mais um ponto em que a gente precisa se reconstruir. E a novela tem esse impulso de humanização. A gente precisa se ver. O entregador da sua comida, ele é uma pessoa, ele se separou ontem, o filho dele nasceu na semana passada, o pai dele pode morrer depois de amanhã. Então, essa ideia de que não existem figurantes na vida, de que todo o mundo é protagonista. De que os ricos não são os protagonistas e os pobres são os figurantes que cruzam no fundo, servindo alguma coisa.

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Rede de segurança

É claro que estrear no horário nobre é uma responsabilidade em todos os sentidos. Responsabilidade comigo, responsabilidade com a empresa. É uma responsabilidade com as pessoas que vão assistir, é uma responsabilidade com a minha filha, com a minha mãe. Eu encaro como um grande desafio.

Tenho muitas inseguranças. Imagina, eu não durmo. Durmo três horas por noite ultimamente, não consigo dormir, não consigo comer. Para cada um explode num lugar.

Mas tenho muita experiência, apesar de não ter feito uma novela minha, nem das nove nem em horário nenhum. Tive trabalhos autorais dentro da Globo e fora. Fiz mais de cinco longas, fiz teatro. Eu me sinto instrumentada. Isso é um ponto. O outro é que eu conto com um suporte muito grande na emissora. Eu tenho um supervisor, que é o Ricardo Linhares, eu tenho o Silvio de Abreu, que lê os meus capítulos e que é o autor da primeira novela que eu me lembro de ter visto na vida, que foi Guerra dos Sexos. Tenho uma rede de segurança muito confiável, muito estruturada e muito experiente.

Tudo isso além da minha parceria com o Zé [o diretor José Luiz Villamarim], que é o sonho da minha vida. Ele me instiga e me desafia. Temos muita troca e muita confiança. Enfim, coisas que fazem com que o trabalho funcione, porque é importante que o trabalho seja bom do pequenininho, da pontualidade, até a maior liberdade total de falar tudo. E com ele é assim.

Tenho muitas dúvidas, mudo de ideia o tempo todo, graça a Deus. Não me sinto enclausurada na coerência comigo mesma.

Sobre se sentir insegura na hora de escrever

Oferecida

O Brasil tem grandes roteiristas. João Emanuel Carneiro, Gilberto Braga, Silvio de Abreu, Walcyr Carrasco, Thelma, Duca. Te dou 20 nomes de roteiristas incríveis. E me sinto entrando nesse rio, querendo navegar nessas águas. Acho que o Brasil tem um talento para a contação de história.

Trabalhei com o Mauro Wilson [autor da Globo que fez A Grande Família e várias outras séries], que acho uma pessoa fantástica. Aprendi muito. E fui eu que me ofereci para trabalhar com ele. Mandei um email, o assunto era "oferecida". Disse que não nos conhecíamos, mas que eu queria trabalhar com ele. Esse tipo de atitude sempre me ajudou muito na vida, até porque o "não" está garantido.

Claro que nem sempre deu certo. Mas esse negócio de mudar muito de casa na infância me ajudou. Um dia, reclamei com a minha mãe que não estava dando tempo de fazer amigos. Aí ela falou: "Você tem que agilizar esse processo". Então, aos sete anos de idade, eu chegava nos prédios e batia de porta em porta perguntando: "Oi, tem criança aí?". Se a pessoa respondesse que sim, perguntava: "Tem quantos anos?".

Isso me ajudou muito. Eu que fui pedir para a Globo para fazer novela. E tem que ser assim, porque quem não chora não mama. Quem não chora morre de fome.

Para o futuro, já tenho um projeto de outra novela e quero fazer Justiça 2. Escrevi uma peça para a minha filha, chamada Berenice e Soriano, que estreou em Minas e gostaria muito que viesse para cá no ano que vem. Tem uma outra peça também, chamada A Perna, baseada no trabalho do neurocirurgião Oliver Sacks. E tem um filme, que eu escrevi o roteiro, chamado Menina Azul, inspirado na vida da Conceição Senna, em Canudos. Também quero escrever uma peça sobre a Guerra de Troia. Estou com várias ideias.

As Donas do Show

Este é o segundo capítulo de uma série de reportagens do UOL Entretenimento com histórias de mulheres que não necessariamente são famosas ou estão em cima do palco, mas que se tornaram referências no universo da arte.

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