Uma jornalista pé na porta

Aos 50 anos, Mariana Godoy fala de casamento com ex-padre e desabafa: "TV não deixa mulher envelhecer"

Guilherme Machado Do UOL, em São Paulo
Lucas Seixas/UOL

Durante anos, Mariana Godoy foi um dos rostos mais conhecidos das manhãs brasileiras, no comando de jornais como o Bom Dia São Paulo e Bom Dia Brasil. Em 2014, depois de mais de 20 anos de Globo, três deles no canal a cabo GloboNews, ela decidiu que era hora de mudar. Pediu demissão e assinou com a RedeTV!, onde se tornou um dos destaques da programação com seu Mariana Godoy Entrevista.

Quando recebeu o UOL nos estúdios do programa, por onde já passaram os mais diversos políticos, atletas e artistas, Mariana admitiu que ser a entrevistada não é como se sente mais confortável. O que não a impediu de se abrir sobre sua trajetória na TV, marcada por, nas palavras dela, seu estilo "pé na porta".

Não tenho arrependimentos. Acho que esse é um dos segredos para a pele boa. Não faço nada muito no emocional, no impulso, costumo pensar. Às vezes faço coisas que não gosto, porque precisa, mas não faço nada que não deva. Nada que me agrida.

É com o estilo espontâneo e incisivo que, aos 50 anos, a jornalista afirma ter conquistado seu espaço na televisão, que, ressalta, não costuma ser nada gentil com as mulheres, impedindo que envelheçam diante das câmeras ou colocando-as em segundo plano.

Sem rodeios, ela se abre sobre o casamento com Dalcides Biscalquin, ex-padre que abdicou da batina para viver ao seu lado e dá de ombros para as críticas da comunidade católica da mesma maneira que ri dos memes e ataques que recebe de todos os lados do espectro político por suas entrevistas.

Para quem já encarou três vezes a morte, como relata na entrevista a seguir, críticas, definitivamente, não são uma questão.

Clique aqui para conferir o vídeo completo da entrevista com Mariana Godoy

Lucas Seixas/UOL Lucas Seixas/UOL

"Mulher não pode ficar velha na TV"

"Pode colocar aí que ainda não sei o que fazer com esse cabelo", brinca Mariana enquanto faz pose para o ensaio que ilustra esta entrevista. Durante 30 anos, a jornalista ficou marcada por seu cabelo curtinho, que alguns diziam ser sua marca registrada. "Cabelo não é marca registrada de ninguém", desdenha ela, que se diz feliz em poder experimentar diferentes penteados.

Mariana começou a trabalhar cedo, quando foi contratada para fazer revisão de textos em uma agência de publicidade. Ela, que nasceu em Itanhém e pulou de cidade em cidade do interior paulista ao longo de sua infância e adolescência, diz que sempre foi apaixonada pelo jornalismo, e com a cara e a coragem, veio para São Paulo perseguir a carreira, que a levou a passar por algumas das maiores emissoras do país, como SBT, Manchete e Globo.

Orgulhosa das cinco décadas de vida que não aparenta ter, ela garante que não é vaidosa e que não tem interesse em plásticas --apesar de admitir um "botoxinho" de vez em quando.

"Esse negócio de vaidade é uma coisa chata. Costumo falar que não gosto de passar maquiagem. Tinha um maquiador na Globo que falava: 'Vai trabalhar em rádio'. Mas não gosto. Imagina todo dia passar uma maquiagem como se você fosse a um casamento? É muito chato!"

De uma época em que pouco se via diversidade na TV, ela também garante que nunca ligou muito para a silhueta.

"Me lembro de uma diretora que tinha sido bailarina e estava sempre em forma. Ela dizia: 'Você precisa emagrecer'. Cada vez que ela dizia isso, eu engordava uns 3 quilos. Pedia um X-salada com bacon. Você me contratou para quê?".

Com uma vida diante das câmeras, no entanto, Mariana admite ser exceção e que a TV é, de fato, mais cruel com as mulheres.

Mulher não fica velha à frente dos programas. A TV brasileira trata muito mal as mulheres que envelhecem na frente das câmeras, vai tirando devagarzinho. A gente teve o Sérgio Chapelin grisalho à frente do Jornal Nacional, o Cid Moreira com cabelo completamente branco. Agora você não viu a Lilian Witte Fibe envelhecer no ar, nem a Ana Paula Padrão no jornalismo. É impressionante.

Com passagens por Manchete, SBT e Globo, ela também relembra um episódio em que novamente lançou mão de seu estilo direto para evitar ser rotulada por ser mulher.

"O Amauri Soares [então diretor de jornalismo da Globo em São Paulo] me falou que queria colocar o José Roberto Burnier pra fazer o Bom Dia São Paulo comigo porque achava que eu era muito delicada, suave. Falei que se ele quisesse eu saia do programa ou mudava meu estilo. Sou muito pé na porta mesmo".

Na TV o homem lê a grande notícia, mulher lê notapé. Isso é um modelo. O lugar é de quem se acotovelar e pegar, a mulher tem que entrar na briga. Acho que já quebramos isso, mas toda vez que tem dois [na apresentação], você vai ver que tem um certo favorecimento pro rapaz

sobre mulheres brigarem por espaço na TV

As três (quase) mortes de Mariana

  • Acidente de automóvel

    "Uma vez meu carro capotou na rodovia dos Bandeirantes, cinco vezes. Cada volta que o carro dava, em câmera lenta, eu pensava: 'Ai meu Deus, que bom que meu filho não está no carro, assim morro só eu. Você vai pensando como vai ficar sua vida sem você. Na segunda volta, eu pensava: 'Estou capotando em uma rodovia movimentada. Deus, por favor, não me deixa bater em ninguém. Não quero morrer e não quero matar ninguém'".

  • Mergulho sem oxigênio

    "Outra vez eu quase morri afogada. Estava mergulhando e, não sei por que, acabou o oxigênio. Eu estava em apneia e falei que ia dar tempo. Eu ficava muito tempo sem respirar, quase três minutos. Uma hora eu sabia que estava entrando em narcose [estado de inconsciência]. Eu pensava: 'Ih, vou morrer'. Eu não sabia mais onde estava a superfície, apaguei embaixo d'água. Como eu ainda tinha o cabelo comprido, me pegaram e só acordei quando me jogaram no barco".

  • Descoberta do câncer

    "A terceira vez eu pensei nisso porque tive um melanoma. O Pedro Collor [empresário irmão do ex-presidente Collor, morto em 1994] tinha morrido por causa da metástase de um melanoma. Não tive problema porque melanoma é um tipo de câncer que você arranca, joga fora e pronto. Mas foram momentos em que parei e fiz um balanço da minha vida. E estava tudo certo. Não tenho arrependimentos".

Coxinha ou mortadela?

Nos últimos anos, virou moda se dizer apolítico ou averso a "tudo isso que está aí". Mariana Godoy definitivamente não é uma dessas pessoas. Acostumada a lidar com políticos desde os tempos de repórter, ela já recebeu em seu programa personagens da extrema-direita à extrema-esquerda e, não raro, sua espontaneidade rende ataques e memes nas redes sociais.

"Acho engraçado", diz a apresentadora, que admite não ser muito afeita à repercussão virtual. "Quem me avisa de meme é meu filho. Ele fala: 'Meus amigos sabem quem você é porque você virou um meme'. Que bom! A única rede social que eu uso mesmo é o Twitter. O Instagram eu só posto, não fico olhando as coisas".

Num dos mais conhecidos, ao entrevistar o então candidato à presidência Jair Bolsonaro, ela não escondeu a surpresa ao ouvir dele que os presidentes da ditadura militar teriam levado o Brasil à oitava economia do mundo.

As pessoas me chamam de tudo: de coxinha ou de mortadela. Mas eu fico muito feliz porque a crítica e o elogio vêm dos dois lados. Quando uma pessoa é muita agressiva, não bloqueio, porque não quero meu block vire print de tela pra alguém ficar se gabando, só silencio.

A despeito das reações espontâneas, a jornalista ressalta que nunca deixa suas opiniões pessoais transparecerem quando está entrevistando seja quem for.

"O trabalho do jornalista é tirar a melhor resposta do entrevistado. Às vezes falo os maiores absurdos, mas estou provocando uma resposta. É uma técnica, simplesmente. Você vai perguntar e provocar com algumas outras informações. Toda vez que entrevisto alguém de esquerda, acham que eu sou de direita e vice-versa".

Mas, afinal, Mariana é de esquerda ou de direita? "Acho que sou liberal, democrática, republicana. Sou uma pessoa bacana, de bom senso. Alguém que não acha que pobreza é normal", desconversa, para em seguida acrescentar:

"Diante dessa resposta, acho que sou mais pro centro, um pouquinho mais à esquerda. Mas sou tão conservadora em algumas posturas, que tem gente que vai falar: 'Ela é de direita'. Por exemplo: meu pai sempre teve arma em casa, não vejo problema nenhum. Acho que todo mundo tem que ter arma? Não".

7 personagens da política e o que ela pensa deles

  • Lula

    "Um personagem interessante da nossa história"

    Imagem: Nelson Almeida/AFP
  • Dilma Rousseff

    "Acho que foi superestimada"

    Imagem: AFP PHOTO/EVARISTO SÁ
  • Jair Bolsonaro

    "A gente ainda vai avaliar mais pra frente, mas é outra figura interessante. Os dois lados de uma mesma moeda eu diria que são o Lula e, do outro, o Bolsonaro"

    Imagem: Mauro PIMENTEL/AFP
  • Sérgio Moro

    "Ainda não me deu entrevista. Estou esperando. Sergio Moro agora que é ministro deveria falar mais, mas é difícil falar com ele porque ou vai em lugar que já está com ambiente preparado ou só na Globo"

    Imagem: Cláudio Reis/Estadão Conteúdo
  • Rodrigo Maia

    "Está sendo correto com o papel que exerce. Apesar de estar levando paulada de todos os lados, está fazendo o que deve. Me surpreendeu a maturidade que adquiriu. Acho que muita dessa maturidade política veio de pouco tempo pra cá"

    Imagem: Reprodução
  • Tabata Amaral

    "O PDT não merece a Tabata Amaral. É uma jovem com um futuro pela frente, que agiu de acordo com a consciência, com aquilo que ela achava que era melhor. Ela nunca foi o PDT, o melhor pra Tabata agora seria a expulsão"

    Imagem: Agência Câmara
  • Ciro Gomes

    "Ótimo entrevistado! Só tem manchetes bombásticas. Ele é super didático, muito claro no que fala. Tem uma agressividade, uma certa ironia, uma dramatização. Como entrevistado é maravilhoso"

    Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Lucas Seixas/UOL Lucas Seixas/UOL

"Não estou nem aí para a família tradicional católica"

Horas antes de receber sua entrevistada do dia, a deputada Joice Hasselmann, líder do governo na Câmara, Mariana mostrou detalhes de seu cenário à reportagem do UOL. Entre objetos de decoração e livros, há fotos da apresentadora ao lado do marido e do filho, as duas pessoas com quem ela diz brigar de verdade. "Quando brigo com alguém é porque amo".

Casados há 15 anos, Mariana e o marido, Dalcides Biscalquin, se conheceram quando ele ainda era padre e apresentador de um programa na emissora católica Canção Nova. Os dois se apaixonaram e ele abandou a batina para ficar com ela --uma história que a própria jornalista compara à série "Pássaros Feridos", dramalhão americano exibido no Brasil nos anos 80, que carregava a mesma temática.

"Ele era amigo de um amigo meu, que nos apresentou. Eu dei algumas dicas pro programa que eles tinham. A gente ficou muito próximo. Um belo dia... A única coisa que falei foi: 'Olha, eu vou te beijar'. Ele sumiu! Ficou uns meses [sumido], tinha vários trabalhos pra fazer em Portugal. Quando voltou, decidiu que queria pedir a dispensa [da Igreja]. Pediu em setembro e a gente se casou em dezembro", conta.

Mariana diz que nunca ouviu nenhum comentário condenando o fato de o marido ter deixado o sacerdócio para ficar com ela. Mas sabe que Dalcides ouviu críticas da comunidade religiosa. Uma pessoa conhecida, ela lembra, repassou informações e fotos do casal para um jornal que produziu uma matéria um tanto sensacionalista sobre o casamento. Ela garante que são episódios superados.

Vida que segue. Tá cheio de padre por aí. Esse resolveu casar, tchau! Get over! Supera. Eu não ligo para o que as pessoas falam, você não consegue ter uma vida completa, se ficar o tempo inteiro prestando atenção no que os outros estão falando. 'Ah, a família tradicional católica'. Não estou nem aí!

Católica assumida, Mariana também afirma que não teve grandes dramas de consciência com a religião. "Toda vez que você fizer alguma coisa por amor, você está certo! Jesus tá com você!", diz, aos risos.

Quando se casou com Dalcides, a apresentadora também ganhou um pai para o filho Heitor, de 22 anos. Durante seis anos, ela criou sozinha o menino, fruto de um relacionamento anterior que ela prefere não revelar o nome, Os três assinaram um contrato de uma nova família e hoje o ex-padre é oficialmente pai de Heitor, hoje estudante de engenharia na USP.

"O fato de ter sido mãe solteira fez com que eu me dedicasse mais ao meio filho, à educação e à formação, porque você fica com um certo complexo de culpa, sentindo que não está fazendo o suficiente", admite.

"Tentei proporcionar pra ele todas as alegrias, experiências. Estava sempre muito junto. Comecei a surfar por causa dele. Para onde ele quiser ir, o que ele quiser fazer, vou sempre incentivar. Acho que mimo um pouco meu filho".

Faz parte daquelas coisas que você, a partir dali, tem uma nova perspectiva. É uma barra, super dureza, mas se você estiver aberta pra entender a força e o poder do amor, consegue ver que tem algumas coisas que acha um drama, um pesadelo, e acaba vendo que na verdade foi um livramento, uma bênção, o melhor que podia ter acontecido

Mariana Godoy, sobre ter assumido a criação do filho sozinha

Saída da Globo: "Melhor ser estrela numa emissora menor"

Mariana Godoy se orgulha do programa de entrevistas que leva seu nome. Desde que mudou de emissora, há cinco anos, ela diz não ter saudade nenhuma da bancada.

"Estou muito feliz fazendo o que faço, com outros projetos. Acabou esse negócio de encontrar uma coisa pronta pra você só fazer parte de um formato e entregar um negócio que outra pessoa fez. Eu quero por a mão na massa, participar da produção, da elaboração. Senão não é verdadeiro, não é meu. Sou eu que escrevo, que faço", assegura.

Entre os muitos convidados que recebeu, relembra ter tido uma conversa reveladora com o empresário Eike Batista (que considera uma de suas melhores entrevistas), de ter se divertido com os cantores Johnny Hooker e Ney Matogrosso e de uma saia justa com a jornalista Míriam Dutra, que ameaçou até deixar o estúdio. Feitos que, acredita, seriam impossíveis na Globo.

É melhor ser estrela em uma emissora menor do que coadjuvante em uma que estava sendo colocada de escanteio. A GloboNews estava sendo desmontada.

Apesar da crítica, a apresentadora assegura que teve uma saída amigável da antiga emissora e nega os rumores comuns na época de que estaria insatisfeita por ter ficado de fora da cobertura política ou por dividir a apresentação com Renata Lo Prete, que diz ser sua amiga.

"Na verdade, a decisão foi super pessoal. Como você mantém um casamento na ponte aérea? É complicado. A adaptação do meu filho adolescente no Rio, com 15 anos, foi difícil. A única coisa que fui perguntar foi se havia a possibilidade de eu voltar para São Paulo. E essa possibilidade não existia mais", diz.

"Foi uma saída muito boa. Não sei por que as pessoas falam isso, acho que pra ver se eu rebato e tem alguma coisa ali que dê um caldo em algum programa".

Sem mágoas, Mariana também afirma manter uma boa relação com a ex-casa, que eventualmente libera seus contratados para sua atração na Rede TV!

Criticada pela demissão na época, a apresentadora diz ver com bons olhos a decisão de ex-colegas que também deixaram a emissora depois, como Evaristo Costa, contratado recentemente pela CNN Brasil.

"A Globo é um excelente lugar para trabalhar, mas já foi melhor. Nunca pagou os mais altos salários. Então se você quer ganhar dinheiro, saia mesmo, o Evaristo está certíssimo. Ele está criando as filhas na Inglaterra, ganhando mais dinheiro fazendo publicidade e em outras iniciativas do que ficando todos os dias preso [num jornal]", diz.

"Olha que beleza minha vida: meu programa é uma vez por semana, consigo fazer vários 'jobs', palestra, escrever livro, pensar em projetos paralelos e ainda ganhar dinheiro".

Faço minhas escolhas e convivo bem com elas. Com as mais polêmicas, as que ninguém faria. 'Ninguém sairia da Globo e iria para a RedeTV!'. É, mas eu fiz e deu certo. Sempre permiti que a vida me surpreendesse. Eu quero tudo, faço tudo, gosto de tudo. A vida em troca gosta de mim.

Sobre ter deixado a Globo após mais de 20 anos

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