O boa-praça

Sucesso na TV e no cinema, Maurício Manfrini ri até do próprio sequestro, mas revela: "Quis deixar o Brasil"

Paulo Pacheco Do UOL, em São Paulo
Jardiel Carvalho/UOL
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Fatos "venérios" e verídicos

Maurício Manfrini vive a melhor fase da carreira. Líder de audiência no SBT, onde há 15 anos interpreta o malandro Paulinho Gogó em A Praça É Nossa, também bateu recorde na Globo com Os Farofeiros, terceira maior bilheteria nacional de 2018 (2,6 milhões de espectadores). Na Tela Quente, superou a Marvel e marcou 28 pontos, com picos de 33 (mais de 2,4 milhões de domicílios na Grande São Paulo). Foi o filme mais visto na emissora em 2019.

"Ratinho está até hoje sem falar comigo", brinca Manfrini sobre a "guerra" por audiência com o colega do SBT. Disputado também na TV paga, onde protagoniza a série O Dono do Lar no Multishow, o humorista planeja um filme por ano. Em março de 2020, levará a história de Paulinho Gogó aos cinemas e rodará Os Farofeiros 2.

"Chegamos à conclusão de lançar um filme por ano. Com isso, tive que recusar propostas do cineasta Alê Machado e do humorista Gigante Léo. Não pude aceitar, mas agradeço aos dois pelos convites", diz o humorista.

Manfrini é o autêntico boa-praça. Aprendeu com o pai, seu Lúcio, a ter bom relacionamento com todas as pessoas. É a única política que deseja praticar. O humorista de 49 anos, "ídolo" até do presidente Jair Bolsonaro, rejeita qualquer convite para se candidatar. Entretanto, se preocupa com os problemas do país, principalmente a violência. Em 2016, sofreu um sequestro que o fez repensar a vida: trocou a cidade por um sítio e cogitou deixar o Brasil.

É muito confuso para mim. Eu fico tentando analisar e ver da melhor maneira possível, mas não consigo ver uma saída. Não consigo ver uma esperança de mudar a situação do país.

Em entrevista ao UOL, Maurício Manfrini conta fatos verídicos de sua vida (diferentemente dos "fatos venérios" de Paulinho Gogó): lembra seu amadurecimento forçado a partir dos 11 anos, após a morte da mãe, fala de política e comenta sua relação respeitosa com Carlos Alberto de Nóbrega.

Ouça a íntegra da conversa com Maurício Manfrini no podcast UOL Entrevista. A entrevista completa em vídeo com o humorista está disponível no canal do UOL no YouTube.

Lourival Ribeiro/SBT Lourival Ribeiro/SBT
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"Forrest Gump imitou Carlos Alberto"

O filme do Paulinho Gogó, previsto para março de 2020, tem confirmada uma participação especial: Carlos Alberto de Nóbrega. Maurício Manfrini o convidou para retribuir os 15 anos de parceria na Praça.

Minha vida profissional deslanchou na Praça muito mais do que na Escolinha do Professor Raimundo

Manfrini antecipa como será o papel de Carlos Alberto no longa. Basicamente, ele fará o sempre: sentará em um banco contando e ouvindo histórias, em uma referência ao filme Forrest Gump (1994).

"Paulinho Gogó é um contador de histórias. Fizemos uma paródia do filme Forrest Gump, que é um contador de histórias. Houve, no início, a preocupação. 'Vamos fazer uma paródia do Forrest Gump, não vão falar que estamos imitando Forrest Gump, que conta histórias num banco de praça?'. Falei: 'Não, porque se tiver alguém imitando alguém o Forrest Gump está imitando o Carlos Alberto, que já conta história no banco de Praça há 30 e tantos anos, fora o pai dele. Estarei em um banco de praça contando as minhas histórias, e elas se materializam. Carlos Alberto está em uma situação do filme bem emocionante."

Apesar da relação próxima no ar, Manfrini prefere manter distanciamento de Carlos Alberto nos bastidores. Antes das gravações, bate na porta do camarim dele e o cumprimenta, hábito que mantém desde quando não falava seu próprio texto na Praça ("regalia" dada pelo líder do programa).

"Carlos Alberto não tem só importância na minha vida profissional, mas na vida de todos os humoristas que passaram por ele e os que estão aqui até hoje, mas não sei se sou amigão dele. Sabe a síndrome do ídolo? Pelo Carlos Alberto tenho um respeito e uma gratidão muito grande. É uma entidade que está ali no banco. É um cara que me deixa muito à vontade", afirma.

Jardiel Carvalho/UOL Jardiel Carvalho/UOL

Sexo tem filtro "venério"

Quem assiste à Praça percebe o quanto Paulinho Gogó adora falar sobre sexo. Nunca reparou? Ele sempre diz que "larga pingo de solda" ou "bate virilha" (transa) com a Nega Juju, e "fatia rocambole" (masturbação) quando está sozinho, garantindo risadas escandalosas de Carlos Alberto de Nóbrega na Praça.

Maurício Manfrini atribui o sucesso do personagem também às frases de duplo sentido. "'Eu tava batendo virilha com a Nega Juju!' é entendido no Rio de Janeiro e em qualquer lugar do Brasil, e me ajudou bastante a atingir todas as classes sociais. Vou a comunidades carentes e empresas, para pessoas de alto nível intelectual que curtem o personagem", afirma o humorista, que realiza 20 shows por mês.

Manfrini decidiu incluir as analogias para não se constranger com as crianças, que passaram a gostar do humorista, principalmente após Os Farofeiros. O filho, Yuri, de nove anos, já entende o que está por trás das piadinhas sexuais.

"No meu show, falo como conheci a Nega Juju em um pagode. Ali vou falando as coisas mais absurdas sem um palavrão. Às vezes, não dizer o palavrão é mais engraçado do que falar o palavrão escancarado. 'Entortei o pescoço da girafa', 'A Nega deu uma palhetada ali na... não tem a marquise do sombreiro?'. Duvido que você não entendeu o que eu quis dizer! Só que a criança não entende, cara. Isso é bem legal", conta.

E quem transa mais: Maurício Manfrini ou Paulinho Gogó? O malandro responde: "Quem larga mais pingo de solda? Sou eu, irmão! O Maurício Manfrini toma amaciante, está batendo fofo! Eu não, cada enxadada uma minhoca, não passo um dia sem chorar o branquinho".

Um rapaz veio falar comigo depois de um show. Quando olhei, vi a lágrima descendo. 'Eu sou atleta, tenho 17 anos e uma depressão muito grande, não sei se vou conseguir vencer na minha profissão. Isso me deixa muito triste. O que me tira da tristeza e acaba com a minha depressão é ficar vendo seus vídeos'. Cara, aquilo me acertou no coração. Fiquei embargado, meu olho começou a encher de água, o abracei, quase comecei a chorar com ele. Chico Anysio falava que humorista é o médico da alma

sobre a receptividade do público

sobre a receptividade do público

"Gogoverso": O universo de Paulinho Gogó

Como surgiram os bordões e personagens de Maurício Manfrini

Reprodução/paulinhogogo.net Reprodução/paulinhogogo.net

Gogó era Tantan

Paulinho Gogó entrou na Globo como Paulo Tantan, mas o redator final, Eduardo Sidney, pediu para trocar o nome porque "tantan" era o bordão de Francisco Milani. Maurício Manfrini mudou para Paulinho Gogó e explicou na rádio Tupi, onde trabalhava desde 1995, que foi pela numerologia: "Falei que era para fazer sucesso, mas eu já estava certo na Escolinha"

Reprodução/paulinhogogo.net Reprodução/paulinhogogo.net

"Fato venério"

O bordão que troca verídico por venéreo (relacionado ao ato sexual) surgiu de repente, quando Chico Anysio pediu para Maurício Manfrini improvisar uma história na Escolinha do Professor Raimundo. "Falei 'Fato venério' sem pensar, eu ia esquecer aquilo. Ele me chamou depois: 'Use sempre fato venério, que por ser venéreo vai pegar'. E até hoje eu falo"

Patrícia Stavis/Folha Imagem Patrícia Stavis/Folha Imagem

"... conta história"

Na Escolinha, Paulinho Gogó também trocou seu bordão final. "Sai da frente que eu vou entrar rasgando", trazido da rádio Tupi, era considerado agressivo demais para um brincalhão. Eis que o sambista Dicró (1946-2012) viu o colega desesperado e tentou ajudar: "Quem não tem dinheiro conta história". Até hoje, Manfrini o agradece pela frase

Reprodução/Instagram/paulinhogogoverdadeiro Reprodução/Instagram/paulinhogogoverdadeiro

Nega Juju

A mulher de Gogó já existia nas histórias do personagem, mas com outro nome: Nega Jupira. Quando Manfrini começou em A Praça É Nossa, precisou alterar porque Fafy Siqueira interpretava no programa a portuguesa Jupira. No filme Do Gogó do Paulinho, que estreia em março de 2020, ela será vivida por Cacau Protásio, parceira do ator em Os Farofeiros

Jardiel Carvalho/UOL Jardiel Carvalho/UOL

"Não sabia se estava morto ou vivo"

Maurício Manfrini lembra até hoje o dia 25 de janeiro de 2016: "Foi uma segunda-feira". O humorista estava voltando da casa da sogra e iria deixar o carro com um amigo para fazer revisão, quando sofreu um sequestro-relâmpago. Mais de três anos depois, ele ainda guarda traumas daquela noite.

"Meu filho estava na casa da avó e sempre voltava comigo quando chegava de viagem, mas naquele dia ele falou: 'Ah, não, quero dormir com a vovó'. Cercaram o nosso carro, tiraram minha mulher, me jogaram no banco de trás e cobriram minha cabeça com minha camisa mesmo. Aí foi um terror. 'A gente vai te matar!'", recorda.

Sem caixa eletrônico para sacar dinheiro por causa do horário, Manfrini foi "depenado" ali mesmo e deixado no meio da estrada: "Tiraram relógio, cordão, e até um sapato. Um pé! Só se for saci-pererê para levar um pé de sapato!". Sobrevivente, o humorista se permite brincar com o sequestro, como fazia com os casos policiais no Patrulha da Cidade, seu primeiro programa de rádio.

"Ficaram rodando comigo, 'vamos te matar', com o revólver na cabeça, e eu pensando: 'Chegou minha hora, chegou minha hora'. Do nada, um falou assim: 'Vamos matar agora, vamos parar o carro!'. Nessa hora, pararam o carro, 'desce do carro!'. Já desci com a cabeça encoberta, mas rodando para poder sair da linha de tiro do cara. Eram moleques. Só escutei o carro arrancando e fiquei parado no meio da rua. Não sabia se eu estava morto, se eu estava vivo, se eu tinha tomado tiro."

Quando cheguei em casa, minha ficha caiu, que eu podia estar morto naquele momento, e aí piorou minha situação de cabeça quando percebi que era para o meu filho estar ali. Ele decidiu em cima da hora não ir. Foi Deus que o travou, porque não ia dar tempo de tirá-lo da cadeirinha, foi muito rápido. Cara, senti minha imunidade baixando e aí dei uma pirada. Tomei um remédio para apagar

Jardiel Carvalho/UOL Jardiel Carvalho/UOL

Minha mãe morreu quando eu tinha 11 anos. Nós morávamos em uma casinha na subida do morro. Meu pai era pedreiro, vendia panelas, essas coisas, e saía para trabalhar e eu ficava sozinho. Eu tive todas as oportunidades de partir para um lado ruim da vida. Tive muitos colegas que morreram porque começaram a fazer coisas erradas, a partir para o mundo do crime. Colegas mesmo, de jogar bola junto comigo. A maioria deles já se foi

sobre a infância no Rio de Janeiro

sobre a infância no Rio de Janeiro

Pré-Gogó

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Office-boy

"Com 14, fui trabalhar como office-boy e conheci o Rio de Janeiro inteiro. Meu irmão, para ser office-boy no Rio de Janeiro, ou você é safo ou não é, porque eu escapava de assalto, nego vinha contar história para poder me roubar. Quando eu falava que ia pegar o dinheiro, o cara ficava me esperando mesmo, mas aquele prédio eu já sabia que tinha outra entrada e eu olhava o cara de longe me esperando. Como office-boy, aprendi a andar o Rio inteiro"

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Futebol

"Meu sonho era ser jogador de futebol, só que a contusão no joelho me impediu. Fiz testes no Flamengo e no Volta Redonda, onde o [Donizete] Pantera me mostrou a cidade e o estádio. Meu grande ídolo se chama Zico! Quando cheguei perto dele, aquilo me deu uma emoção que não senti nem pela minha mulher. Que ela não fique sabendo disso (risos). Ele manda piadas para mim no WhatsApp e eu não acredito"

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Teatro infantil

"Eu era contrarregra e trabalhava em A Bruxinha que Era Boa. Queria muito fazer teatro, atuar, só que não tinha experiência. Um dia, um ator faltou e me pediram para substitui-lo. Salvei nas primeiras apresentações, mas com o tempo esqueci texto, me dava um branco, um nervoso muito grande. Comecei a prejudicar o espetáculo. Resolveram me expulsar por falta de qualidade técnica! Me matriculei em vários cursos e me descobri no humor"

Reprodução/paulinhogogo.net Reprodução/paulinhogogo.net

Rádio

Fui lançado artista profissional em 2/10/1995, na Super Rádio Tupi. Fazia o Patrulha da Cidade e imitava Clodovil, Lula, Brizola. Mas não curtia muito. Queria um personagem. Vi uns caras contando histórias um para o outro e escrevi umas coisas, mas faltava a voz. Achei-a em um negão de dois metros pedindo no bar "aquela que engasgou o gato". Fiquei olhando e ele notou: "É permitido 'homem sexual' aqui?". Era o Paulinho Gogó!

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"Não quero ir para a política"

Em um sábado qualquer, Manfrini regava as plantas de seu sítio, onde vive com o pai, quando um assessor do prefeito da cidade chegou oferecendo uma proposta: ser candidato a vice na chapa eleitoral. O humorista recusou na hora. Avesso a partidos --não votou para presidente porque viajou--, ele afasta suas opiniões políticas dos palcos, mas já lidou com o ódio nas redes sociais.

Em maio, quando Carlos Alberto de Nóbrega visitou Jair Bolsonaro, o presidente perguntou: "Cadê o Paulinho Gogó?". "Algumas pessoas me deram um cacetezinho. 'Ai é bolsominion, por isso o presidente estava perguntando por ele!'. Em fevereiro, foi atacado ao postar uma foto com o ator Bemvindo Sequeira, apoiador do PT e presente no filme de Paulinho Gogó.

"'Pô, Paulinho Gogó, esse cara é petralha, é esquerdista, não vale nada!'. Eu sou meio arredio, escondido em relação a isso. A gente já tem problemas, imagina assumir [posição política] hoje, é muito complicado. Não tenho pretensão nenhuma, prazer nenhum em relação a isso, e me falam: 'É um mosquitinho que pica a gente, a gente fica viciado nisso'. Então, meu irmão, esse mosquitinho até agora... o que pode me picar é o mosquito da dengue e olhe lá", brinca.

Tenho vontade de mandar minhas filhas estudarem fora do país. E te confesso que até pensei em morar fora do país, principalmente depois do sequestro. Ando com carro blindado hoje em dia, e tenho medo mesmo assim. Tinha tudo para ser revoltado, 'tem que matar!'. Não. 'Bandido tem que ser morto!'. Vai matar só bandido? Liberação das armas vai ser bom? Se eu estivesse armado no dia do sequestro, acho que não conseguiria resolver. Mas será que se meu carro fosse blindado, eu conseguiria?

sobre insegurança

Será que Bolsonaro vai resolver isso? Se não tivesse ganhado, o Haddad iria resolver? É muito confuso para mim. Fico tentando analisar e ver da melhor maneira possível, mas não consigo ver uma saída. Não consigo ver uma esperança de mudar a situação do país. O que eu acho que tem que acabar é a violência. É um negócio que assusta demais. Há pessoas que falam assim: 'Não vou ao teu show porque não saio à noite e tenho muito medo'. Se a violência diminuísse, seria bom para todo mundo

sobre o cenário político do Brasil

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