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'Tive síndrome do pânico', diz Marcos Pasquim sobre a fama

Do UOL, em São Paulo

22/05/2020 04h00

Ser famoso. O objetivo das pessoas nem sempre é o mar de coisas boas que faz parte da imaginação de muita gente. Com o bônus da fama, alguns ônus também chegam. No caso de Marcos Pasquim, ela trouxe até problema de saúde: a síndrome do pânico.

Nesta conversa com o UOL, o ator que fez diversas novelas na Globo, comenta sobre os prejuízos que a fama trouxe para sua vida. Ele ainda fala do começo de sua carreira quando tinha uma boyband, da fama de galãs e do momento vivido pelas novelas.

Ser famoso

É muito bom. É muito legal. Só que também com a fama vem o tema da liberdade. Você, qualquer lugar que você vá você acaba virando exemplo. Você acaba tendo que se preocupar mais com muitas coisas que na realidade, o anônimo não, não se preocupa. Me prendi mais dentro de casa, tive síndrome do pânico e houve um momento que me incomodou, mas o que você vai fazer, quando você no meio de uma novela fala, 'Cara, porque eu estou tirando essa camisa aqui agora? Não precisa'. Aí o diretor vira e fala, 'Não... está escrito aí. Tira, irmão'. Sabe? 'Mas agora?' 'Tira'. A gente falava...

Vida na quarentena

Na quarentena... Eu vivo no Rio de Janeiro e eu estava em São Paulo ensaiando uma peça e me preparando para começar a fazer a fazer um filme, a filmar. E aí me pegou de surpresa. Nós íamos estrear a peça dia 7 de maio agora. Voltei logo no domingo, na segunda-feira começou a quarentena. Domingo fechou tudo, né. Claro que quando começarmos a sair de casa eu vou ter uma conversa com o diretor. A gente vai conversar e vai ver para onde a gente vai. Se a gente continua ensaiando a peça, se a gente seguinte arma uma outra forma. A gente tem que ter outras ideias como tentar agregar a internet na arte. A gente tem que tentar. A gente vai ter que pensar em alguma coisa, mas antes de qualquer coisa a gente tem que, que essa quarentena termine.

Vida de famoso x vida comum na quarentena

Nossa vida tem a mesma dificuldade que todo mundo. Eu fico o máximo que eu consigo dentro de casa. Eu saio para me exercitar, ando de bicicleta e volto. Não converso com ninguém, não olho para ninguém, né. E fico vendo, fico lendo. Fico tentando fazer coisas dentro de casa. Ontem... Nesse final de semana mesmo, eu fiquei trocando todas as lâmpadas queimadas que tinham dentro da minha casa. Como eu gosto de muito de fazer coisas com as mãos, se eu estou em casa me dá algum tédio, qualquer coisa eu vou mexer numa porta. Eu vou tirar a porta ou vou pintar, ou vou fazer, sei lá. Outro dia também, eu tava mexendo aqui na mangueira de casa, que o negócio tava saindo eu fui, arrumei, tirei... Eu adoro ter um monte de ferramentas. Eu adoro mexer com isso. Acho que as pessoas têm que ter que fazer o que gostam de fazer e tentar adaptar isso para dentro de casa. Acho que talvez esta seja a saída.

Começo da carreira

Era office boy, dos 13... dos 14 aos 15, exatamente. Aí, eu saí da empresa. Fiquei desempregado e comecei... Me chamaram para fazer parte dessa boyband e eu fui. Fiquei nessa boyband durante um ano e foi bem legal. Foi bem divertido. À época estava uma coqueluche, uma boyband chamada Menudo, que acho que foi a precursora de tudo isso, que, até então, eu nunca tinha ouvido falar em outra banda dessa forma, de cantar e dançar. Inclusive, os integrantes dessa boyband, todos eles me acham parecido com um dos integrantes dos Menudos e outros deles também eram. Éramos todos meio morenos. Aí me chamar para fazer, e eu não tava fazendo nada mesmo. Falei, vamos lá. Vamos fazer. E aí foi legal. Eu fiz... eu aprendi. Eu fui estudar um pouco de dança, de canto e aí, fizemos a boyband. Fiquei lá durante um ano e foi legal. E também nessa faixa de 13, 14 anos, eu fiz curso de manequim e comecei a desfilar, para depois de um pico... Isso era tudo paralelo ao meu trabalho normal, que eu era office boy, fui auxiliar de escritório. Eu fiz um monte... passei por vários empregos e o lado de modelo me levou a fazer o teste da minha primeira peça, que foi Blue Jeans. Do teatro que eu fui para o Rio de Janeiro fazer o teste para uma novela que era 'Cara e Coroa'. E aí, já no Rio de Janeiro, o diretor Wolf Maya me chamou para fazer uma participação na 'A Viagem', e eu fiz uma participaçãozinha de um dia de filmagem só, que eu apanhava do Fagundes e cantava a Christiane Torloni. Depois disso eu fiz 'Cara e Coroa', que foi o Cosme. Aprendi muito. Até então, eu estava fazendo, eu gravava e fazia CAL também, eu estudava para fazer né, para ser ator.

Primeira novela

A primeira novela a gente nunca esquece, né. Foi complicado, porque cheguei sem saber muita coisa. Eu estava acostumado como modelo, que era onde a gente fazia com uma câmera só e você fazia oitocentos e cinquenta e cinco vezes para ir para lá, era uma propaganda, entendeu? Quando você chega em uma novela, você não pode errar muito. Então, quando eu cheguei na novela, eu errava e as pessoas não gostavam. Eu falava, 'Cara, chega... você chega em um estúdio de novela, são quatro câmeras. Então, eu tive que... Ninguém fala, ninguém... Eu fui aprendendo meio que na marra, entende? Ninguém nunca virou e falou: 'Vai. Faz isso daqui que essa câmera...'. Me explicaram assim: 'Olha, essa câmera assim, essa câmera...'. Me explicaram. Eu fui aprendendo, fui aprendendo, mas foi difícil. Foi. Mas eu amava. Eu amava estar ali. E quando eu saí da novela, eu viajei também pela Argentina para fazer Chiquititas. Lá eles fazem de uma outra forma a televisão. Aí eu vi como aqui a gente faz uma outra forma que é melhor pro projeto, para o produto final. Lá, na Argentina, eles não editavam. A gente fazia um capítulo por dia. Aqui, era diferente a forma de gravar e eu tive que me adaptar a isso também. E aprendi com isso também. Além de que, quando você precisa se adaptar, você sempre aprende com isso. Então, tive que me adaptar a isso, aprendendo. Aprendi muito com isso. Foi quando eu voltei para o Brasil e voltei para a Globo e voltei fazendo 'Uga Uga'. Quando eu fui à Argentina, o Carlos Lombardi já tinha lá uma coisa armada com a Globo para fazer o 'Uga Uga'. Ele tinha dois filhos pequenos, e os filhos dele pequenos assistiam Chiquititas. Então, ele me viu em Chiquititas. E aí ele me viu lá também falou, 'Cara...', quando eu pisei no Brasil ele me chamou e eu entrei em 'Uga Uga'.
Foi minha segunda novela inteira.

Fica conhecido

Em duas novelas as pessoas não sabem nem o seu nome, só o do seu personagem. Humberto Martins já me disse, falou: 'Cara, quando as pessoas começarem a te chamar pelo seu nome, e não pelo seu personagem, aí você está começando a ficar famoso'. E as pessoas começaram a me chamar pelo meu nome depois de 'O Quinto dos Infernos' e 'Kubanakan'. Entre 'O Quinto dos Infernos e 'Kubanakan' as pessoas começaram a me chamar pelo meu nome e não pelo Dom Pedro, e não pelo Esteban. É muito bom. É muito legal. Só que também com isso, com a fama, vem o tema da liberdade. Você... você qualquer lugar que você vai, você acaba dando exemplo. Você acaba tendo que se preocupar com muitas coisas que, na verdade, o anônimo não se preocupa. Me prendi mais dentro de casa. Tive síndrome do pânico.

Ser galã

Sempre gostei de heróis. Sempre gostei dessa coisa sempre. Quando era moleque eu lia Conan, lia minha coisa gibi, histórias em quadrinhos de Homem-Aranha. Sempre gostei de heróis e os personagens que o Lombardi fazia com a gente tinha muito disso de HQ né. Acho que ele me viu como um ator que conseguia fazer legal, não só eu, Humberto também. Protagonizar as tramas dele me chamava sempre deixava eu reservado e eu sempre gostei de fazer, era muito legal o cenário dele sempre no calor, por isso a gente ficava sem camisa. As pessoas ficavam mais sem roupa e era por causa disso. Não era eu que saía e falava 'não, não quero fazer, vamos tirar a camisa agora, não quero fazer de camisa agora', não era eu, estava escrito lá e fique claro que sempre esteve escrito. Teve algum momento que me incomodou, mas o que você vai fazer, você no meio de uma novela fala 'cara por que eu estou tirando essa camisa agora né? Não precisa'. Aí o diretor não está escrito aí, tira. Mas, não, sabe. Mas agora, não, tira, aí você falava... Na novela que você grava 25, na época, gravava 35 cenas por dia. Você nem pensa mais, fica gravando, gravando, gravando... Enquanto, eu puder estar fazendo o galã, a gente faz. Acho que o galã, como eu disse, o galã sempre fez parte, galã taí desde que novela é novela. Então, eles colocam os atores no papel de galã, não necessariamente precisa ser lindo ou ser alguma coisa. Personagem se encaixa no papel de galã e faz bem o galã. Ok, o galã é muito difícil de ser feito, não é qualquer pessoa que faz o galã, galã é muito difícil você fazer uma pessoa corretinha, a pessoa certinha, o galã, o sonho de consumo das donas de casa, telespectadoras. É difícil você fazer isso. Mas o vilão te dá um leque maior de sentimentos que você pode expressar. O galã ele é sempre bonzinho, sempre o cara legal, tem sempre que entender as coisas, é o mocinho. O vilão pode ser cínico, o vilão pode ser escroto, vilão pode ser milhões de outras coisas que ele pode brincar entende? O vilão te dá mais oportunidade de brincar do que mocinho. Mocinho é engessado ali, ele tem que fazer aquilo ali.

Futuro da TV

O que mudou de lá pra cá, é a agilidade, as novelas ficaram mais ágeis. Assim como no seriado, você vê. Mas isso já vem de trás do cinema anterior. Tudo está ficando muito mais ágil, a novela também está indo, pra ficar mais ágil. Eu acho que isso, é inevitável que aconteça, hoje em dia, as pessoas não consomem só novela. As pessoas, hoje em dia, consomem essas outras plataformas que a Netflix, vê seriados e vê como seriados são diferentes, e a novela tem de acompanhar isso, vem mudando e ela acompanha. Novela não vai acabar nunca não, eu acho. No meu ponto de vista, não acaba. Vai ser só mais um nicho, vai ter nicho de novela, nicho de seriado, nicho de filme. Acho que a novela ainda será uma grande parte das pessoas, ainda mais aqui no Brasil. O consumo das pessoas no Brasil ainda vai ser novela, creio eu, está diminuindo, mas vai demorar muito tempo, e, com o passar do tempo, também acho que vai facilitar, a Netflix vai baratear e vão vir outras plataformas para você poder assistir coisas, para poder criar, a própria internet. Você vai conseguir além, você vai poder ver coisas no seu computador. Muita gente que puder ter um computador vai conseguir no computador. Se tiver só televisão, vai ficar ali, mas sim os computadores vão ficar mais barato. Tudo vai baratear e tudo vai facilitar. Eu acho que a coisa vai vir para a internet. Eu penso dessa forma.

Contratos fixos ou não?

Com essa coisa de contratos, ela é a única no mundo que faz e fazia, faz isso. Ela contrata durante três anos, eu fui contratado da Rede Globo durante 15 anos. Mas ela era a única que fazia isso, ninguém fazia isso. E eu acho que não fazer isso é o correto porque enquanto você está contratando ali, você não pode fazer mais. Não pode dar entrevista, você não pode ir para outras. Se for fazer, tem de pedir autorização. Sabe, tem toda uma burocracia aí para você conseguir fazer em outra emissora, seja uma reportagem, que seja um programa, é um caos. Mas quando você faz um trabalho por obra que você vai fazer naquela obra, acabou a obra, você pode fazer outras coisas. Isso é muito bom também. É muito bom estar contratado porque você a valorização do seu trabalho. Outra emissora te paga bem, você fica ali, está tranquilo, que estou com o meu salário. Por outro lado, você não pode fazer nada mais. Antigamente, pouco tempo atrás, a gente tinha a Globo, SBT, Record aqui para fazer uma TV. Hoje em dia, a gente tem muito mais campos de trabalho. Hoje em dia, a gente tem Globo, a gente tem Record, a gente tem Band, Band não, a gente tem SBT, a gente tem Netflix, a gente tem a internet inteira que se a gente quiser fazer um programa na internet, a gente faz. A gente tem a HBO. Cara, tem um monte de lugares, tem o cinema tem um monte de lugar que a gente pode trabalhar. Isso é excelente. A concorrência só gera benefícios.

Projetos futuros

Novela não, por enquanto não, estou fazendo um filme que deve estrear, cinema a gente nunca sabe quando vai estrear. Eu fiz dois filmes no ano passado, ia fazer mais dois filmes este ano. Agora, com a quarentena, a gente não sabe. Ia fazer dois filmes este ano, mais uma peça de teatro. Agora, a gente não sabe. Então, tem aí quatro filmes pra vir e uma peça de teatro. Agora a TV também, estamos aí, se me convidaram, eu faço.

Famosos