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Mauricio Stycer

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Longe do que prometeu, “O Sétimo Guardião” bate recorde negativo do autor

Mauricio Stycer

07/05/2019 05h01

A duas semanas do fim, é possível dizer, sem medo de errar, que "O Sétimo Guardião" não deixará boas lembranças. Em matéria de audiência, foi mais que uma decepção – entra para a história como a novela de Aguinaldo Silva com pior resultado no Ibope.

Com média abaixo dos 29 pontos em São Paulo, o principal mercado do país, terminará atrás das duas últimas novelas do autor, "Império" (32,7 pontos) e "Fina Estampa" (39,2).

Pelos serviços prestados à teledramaturgia, Aguinaldo não merecia isso. Mas hoje acho que pagou caro pela insistência de levar adiante uma trama cuja autoria foi contestada na Justiça por seus alunos. Talvez para mostrar que era, de fato, o único autor de "O Sétimo Guardião", acabou escrevendo uma história com tantos problemas quanto o número de alunos que reivindicaram créditos. Frouxa, mal costurada, sem coerência, com personagens mal desenhados, atores desperdiçados, a novela sairá do ar sem deixar maiores lembranças.

Tenho por hábito, ao fazer balanço sobre novelas, reler o que escrevi no início delas. Nem sempre acerto. No caso, minha primeira impressão sobre "O Sétimo Guardião" foi positiva. Elogiei, após ver os primeiros 12 capítulos, a tentativa do autor de resgatar um subgênero fundamental na formação da teledramaturgia brasileira, o realismo fantástico.

Observei, porém, que a originalidade não era uma prioridade. Ao contrário, a novela parecia uma espécie de retrospectiva sobre a obra de Aguinaldo escrita por ele próprio. Por isso, registrei que se tratava de um exercício de narcisismo, prestando reverência a si mesmo. E, embora estivesse me divertindo bastante no início, anotei que a trama principal não estava clara.

Escrevi em novembro: Seja como uma alternativa para a crise que afeta o gênero, seja como "válvula de escape" para a realidade, "O Sétimo Guardião" é uma novela antiga, intencionalmente revivida. Seria o que os americanos, falando da atual recriação de várias séries consagradas no passado, chamam de "reboot".

Em janeiro, ainda acreditando na proposta da novela, lamentei que vários personagens da trama pareciam mal construídos e muitas situações careciam de sentido. Citei, entre outros problemas e desperdícios, o vilão Olavo (Tony Ramos) sem pé nem cabeça e o prefeito Eurico (Dan Stulbach) com ares de bobo da corte, além de observar que não aguentava mais o sotaque horrível da Marilda criada por Letícia Spiller.

Com o passar do tempo, fui perdendo o interesse por "O Sétimo Guardião" e a vontade de escrever sobre a novela foi desaparecendo. Não parei de assistir em momento algum, mas raramente algo me surpreendia. Demorei a entender que a trama de Aguinaldo Silva tinha dois problemas sérios.

O primeiro foi apontado pelo crítico Nilson Xavier em março: a falta de carisma dos personagens principais. Falando sobre os sete guardiões, ele escreveu: "São tipos que não despertam sobre si o interesse ou empatia do público. Não são amados. Não há torcida, empolgação, engajamento, fascínio ou atratividade. Logo, não há simbiose. E a novela gira em torno deles." Bingo!

O segundo problema foi a falta de história mesmo. A luta pela fonte de água milagrosa se revelou uma trama incoerente, com pouco interesse e sem maiores desdobramentos. Gabriel (Bruno Gagliasso) foi talvez o protagonista mais chato da história das novelas. A vilã Valentina (Lilia Cabral) se mostrou uma caricatura apenas. Os poderes místicos/divinos de Luz (Marina Ruy Barbosa) e Milu (Zezé Polessa), assim como o conservadorismo religioso de Mirtes (Elizabeth Savala), não foram tratados com profundidade. O bordel de Ondina (Ana Beatriz Nogueira), apesar do seu potencial, foi um cenário oco em matéria de enredos.

Um bom assunto, o fetiche do delegado Machado (Milhem Cortaz) por calcinhas, ganhou alguma densidade a partir do momento em que ele se viu chantageado e, depois, foi humilhado em público por conta de suas preferências. Mas o autor não achou importante mostrar o personagem defender a sua opção.

Outra sugestão interessante em matéria de costumes, um personagem que passou por mudança de sexo, igualmente não foi objeto de aposta da novela. Marcos Paulo (Nany People) ouviu piadas e ofensas por parte de Valentina e Olavo, mas nunca apresentou claramente o seu ponto de vista.

Um único tema de relevância social foi explorado com alguma densidade – o machismo e a violência doméstica. Nicolau (Marcelo Serrado) foi caracterizado, sem qualquer sutileza, como um homem das cavernas. O mal que causou à mulher e aos filhos provocou repulsa. O exagero na apresentação deste núcleo seria até compreensível enquanto tentativa de alerta ao público, mas não encaixou na trama. E acabou passando a impressão de estar ali como um elemento estranho, forçado.

Vários outros "tiros" foram dados ao longo dos meses, mas todos ficaram pelo meio do caminho e nenhum, de fato, conseguiu envolver o espectador. São tantos os desperdícios, os atores mal aproveitados, as histórias esquecidas…

Cito, por exemplo, a trajetória da "louquinha" Lourdes Maria (Bruna Linzmeyer), a trama sobre a busca da mãe de Luz, a paixão do beato Jurandir (Paulo Miklos) por Milu, o casamento do certinho João Inácio (Paulo Vilhena) com a prostituta Stefania (Carol Duarte), o documentário de Leonardo (Jaffar Bambirra) sobre Serro Azul etc etc.

Enfim, o mau resultado no Ibope não foi aleatório. A boa intenção que enxerguei no início, de buscar uma alternativa à crise das novelas por meio do resgate do realismo fantástico, ficou pelo caminho. "O Sétimo Guardião" não teve coragem de ir fundo nesta opção pelo mundo mágico.

Olhando para o conjunto destes 150 capítulos tenho a impressão que Aguinaldo Silva não mostrou entusiasmo pela própria história e pelos personagens que criou. Espero que tenha ainda ânimo para presentear os espectadores com histórias melhores que esta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.

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