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Blog do Nilson Xavier

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Anã para novela das 9 não passa de atração grotesca para chamar audiência

Nilson Xavier

19/02/2018 23h37

Juliana Caldas (Foto: divulgação/TV Globo)

Quando a Globo anunciou que haveria uma personagem anã em "O Outro Lado do Paraíso", imaginou-se que seria a oportunidade de discutir os problemas de pessoas com nanismo, como as dificuldades no dia a dia, inclusão social e bullying. Na primeira fase da novela, surgiu Estela, vivida pela atriz Juliana Caldas, a filha anã da megera Sophia (Marieta Severo), indesejada pela mãe.

Estela foi apresentada como uma pessoa esclarecida, que vivia na Suíça, tendo estudado nos melhores colégios. Uma moça culta e preparada, com pós-graduação no exterior, etc e tal. O autor Walcyr Carrasco até desenhou algumas cenas mostrando as dificuldades de Estela, na hora de ligar o chuveiro, subir à cama ou sentar à mesa. Mas ficou nisso, no básico, no superficial. Sophia deu um jeito de exilar a filha em uma casa no vilarejo onde tem a mina de esmeraldas. E assim o autor eliminou qualquer possibilidade de tratar o assunto com a seriedade que merece.

Dez anos se passaram, entrou a fase definitiva da novela e Estela, a moça estudada na Suiça, estava lá, lendo livros em seu cativeiro, como a princesa presa na torre suspirando por um príncipe que venha salvá-la de seu triste destino… de anã. Surgiram então dois galantes pretendentes que passaram a disputá-la. O que Estela fez? Passou 100 capítulos da novela se vitimizando, choramingando ou porque a mãe não a amava, ou porque não acreditava no amor legítimo dos rapazes. Perdemos as contas de quantas vezes ela repetiu "Você fala isso só porque eu sou anã!".

No capítulo desta segunda-feira (19/02), Estela se rebelou. Será que a ficha caiu? Depois de 10 anos lendo livros, sendo cuidada por uma babá e sustentada pela mãe que ela sabe que a odeia… Depois de 100 capítulos!

Desperdiçou-se, neste tempo todo, a oportunidade de mostrar que uma mulher anã também pode ser independente, empoderada, dona de seu nariz e de seu corpo, sem depender de homem para ser feliz. Que lástima a atriz Juliana Caldas estrear na televisão justamente com uma personagem tão… infeliz – em todos os sentidos. Será que lá no início, quando foi escalada para o papel, ela imaginou que acabaria assim?

Restou a impressão de que o autor incluiu uma personagem anã em sua novela apenas para chamar a atenção da audiência. Para aguçar a curiosidade do público. Como eram usados os anões em circos, em freak shows: como uma atração, algo grotesco. No fim, é apenas mais uma trama mal alinhavada e mal escrita de "O Outro Lado do Paraíso" que, no fundo, apenas reforça estereótipos. Lamentável.

Sobre o tema, indico esse texto: "O Outro Lado do Paraíso e o vale-tudo pela audiência: onde fica a qualidade?";

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Sobre o autor

Nilson Xavier é catarinense e mora em São Paulo. Desde pequeno, um fã de televisão: aos 10 anos já catalogava de forma sistemática tudo o que assistia, inclusive as novelas. Pesquisar elencos e curiosidades sobre esse universo tornou-se um hobby. Com a Internet, seus registros novelísticos migraram para a rede: em 2000 lançou o site Teledramaturgia (http://www.teledramaturgia.com.br/), cujo sucesso o levou a publicar o Almanaque da Telenovela Brasileira, em 2007.

Sobre o blog

Um espaço para análise e reflexão sobre a produção dramatúrgica em nossa TV. Seja com a seriedade que o tema exige, ou com uma pitada de humor e deboche, o que também leva à reflexão.