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Lives de sertanejos têm bastidor aglomerado e publicidade. Precisa mesmo?

 Live de Jorge e Mateus - Reprodução/YouTube
Live de Jorge e Mateus Imagem: Reprodução/YouTube
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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

05/04/2020 12h06

Resumo da notícia

  • Transmissão teve mais de três milhões de visualizações simultâneas e arrecadou toneladas de alimentos
  • Nos bastidores, no entanto, havia aglomeração e pessoas sem máscara
  • Outras artistas, como Ivete Sangalo e Valesca Popozuda fazem lives de casa, sozinhas

Os sertanejos brasileiros parecem ter criado uma nova e bem sucedida estratégia de show por meio de lives nas redes sociais. Depois de Gusttavo Lima reunir mais 700 mil espectadores simultâneos, foi a vez de Jorge e Mateus baterem o recorde com três milhões de visualizações ao mesmo tempo no YouTube. A princípio uma boa ideia, a apresentação manteve em casa muita gente em tempos de isolamento e divertiu. Também deu o recado para que as pessoas sigam isolados e tomando cuidado. Nem tudo, no entanto, são flores. Tão logo foi iniciada a transmissão, uma imagem de bastidor começou a circular nas redes sociais. Nela, um grupo de produtores está aglomerado, alguns sem utilizar máscaras e até mesmo um garçom circula entre eles servindo cerveja.

Toda a ideia por trás das lives promovidas por cantores e bandas na internet tem sido mostrar que, assim como todos, eles têm ficado em casa e respeitado o pedido de isolamento e distanciamento. Ivete Sangalo cantou direto de seu closet. Dua Lipa fez videoconferência com seus fãs. Valesca Popozuda se apresentou na sala de casa. Exemplos não faltam. O que Gusttavo Lima e Jorge e Mateus fizeram foi levar a apresentação nas redes sociais a outro nível. Transformaram em show, com iluminação, som, múltiplas câmeras. A primeira questão é: precisa mesmo? Em um tempo no qual todos têm de ficar em casa vale a pena aglomerar na garagem um monte de gente sem cumprir protocolos de segurança? Estavam ali, de fato, apenas a quantidade de pessoas necessárias. Dezenas de milhares de pessoas assistiram às transmissões de outros artistas que precisaram apenas de seu celular, um violão e a própria voz, por exemplo.

Não se pode negar, no entanto, o caráter solidário das lives. Tanto Jorge e Mateus quanto Gusttavo Lima arrecadaram dinheiro, toneladas de alimentos e álcool em gel como doações para quem precisa. Na era do coronavírus, a atitude é mais que bem vinda. Ninguém duvida do poder imenso do entretenimento e de sua necessidade em tempos difíceis. Que sigam ajudando, mas impossível não se perguntar se não teriam o mesmo resultado com uma transmissão menos tecnicamente ambiciosa. Não assistiriam os fãs da mesma maneira? Não ocorreriam doações?

Bastidor da live de Jorge e Mateus: há pessoas sem máscara e até garçom - Reprodução/Twitter
Bastidor da live de Jorge e Mateus: há pessoas sem máscara e até garçom
Imagem: Reprodução/Twitter

Outro ponto pertinente para discussão é o fato de a live ser, na verdade, uma ação publicitária. Ou seja: os artistas se apresentaram sob patrocínio. Por vezes, um garçom servia cerveja entre uma música e outra. Em uma época na qual as pessoas não podem frequentar bares, qual a lógica de colocar um garçom em cena? Um balde com o produto não bastaria? Da mesma maneira, essa é mesmo a melhor maneira de usar a publicidade pela causa? Empresas têm ajudado na produção de álcool gel e construção de hospitais. Por si só, isso já se configura como ótima propaganda. Mas anunciar produtos em tempo de pandemia é algo que requer muito cuidado. E, para fazer isso, não precisa se colocar gente aglomerada no bastidor. Que bom que três milhões de pessoas ficaram em casa para assistir ao show, mas nenhuma vida vale mais que a outra. Os produtores em espaço pequeno - alguns sem máscara - também mereciam esse cuidado.

Que os artistas continuem fazendo suas lives e alertando para os cuidados necessários, mas que façam isso também por quem está atrás das câmeras. Que as empresas continuem patrocinando e que se lembrem dos pequenos artistas, que também têm urgência para pagar suas contas. E que pensem a publicidade de maneira mais cuidados das próximas vezes.

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