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Por que um personagem como Crô, de 'Fina Estampa', não é mais viável hoje?

Marcelo Serrado como Crô, um dos personagens mais populares (e criticados) de Fina Estampa - Divulgação/TV Globo
Marcelo Serrado como Crô, um dos personagens mais populares (e criticados) de Fina Estampa Imagem: Divulgação/TV Globo
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Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

23/07/2020 17h18

Resumo da notícia

  • Personagem tem despertado a mesma controvérsia que na época da primeira exibição
  • Crô parece mais com personagens de novelas dos anos 80 e 90 que dos anos 2000
  • Marcelo Serrado é lembrado até hoje por causa da novela

Por muitos anos, gays foram retratados em novelas ou programas de auditório como alívios cômicos. Não raro, suas presenças eram preenchidas por efeitos sonoros como "ai" e "ui". Em humorísticos como o "Zorra Total", atores como Jorge Doria olhavam para a câmera perguntando "Onde foi que eu errei?", ao se referir ao filho homossexual vivido por Lúcio Mauro Filho. No ar em "Fina Estampa", Crô, personagem de Marcelo Serrado, tem despertado ainda mais controvérsia do que na primeira exibição. Afinal, por que o mordomo de Tereza Cristina (Chistiane Torloni) não é uma unanimidade mesmo fazendo tanta gente rir?

Crô é afeminado e, ao contrário do que muita gente possa imaginar, isso não é defeito. O problema é que, em muitas das abordagens, o fato de alguns personagens não corresponderem ao que se considera como ideal de virilidade passa a ser tratado como piada. Assim como Crô, muitos homossexuais são afeminados. Isso não significa que, por causa disso, tenham de ser motivo de risada pelo modo como se comportam ou se colocam no mundo.

Assim como muitos homossexuais retratados nos anos 80 e 90, o personagem de Marcelo Serrado é subalterno e serve de escada para a grande vilã da trama. Sua motivação é única e exclusivamente voltada para agradar à patroa, que o trata como escravo e a quem chama de deusa com constância. Crô pode ser divertido, mas é também submisso e amoral. Parece não ter senso crítico. Sabe que sua patroa cometeu assassinato e ainda assim permanece ao lado dela.

A falta de crítica se aplica também a Baltazar, papel de Alexandre Nero. O motorista, agressor confesso de mulheres, passa a ser usado, por incrível que pareça, como alívio cômico e forma uma dupla com o mordomo. Em dado momento, há até mesmo quem aposte em um flerte entre ambos. Em "Fina Estampa", Crô foge, ao menos, da tentativa de "conversão" promovida por muitos autores, que não só fingem não existir a bissexualidade como fazem com que gays se "regenerem" com mulheres. Isso não significa, no entanto, que o personagem de Marcelo Serrado tenha direito à afetividade. O segredo referente a seu misterioso namorado acaba nunca revelado de fato na trama e seu flerte com Baltazar reforça mais um estereótipo: o de que gays se apaixonam sempre por heteros e fazem disso um segredo.

É difícil imaginar a viabilidade no mundo de hoje de um homossexual que desperta risadas apenas pelo fato de ser afeminado e serve de capacho para a patroa. Não se pode negar que muita gente tenha simpatia pelo personagem, mas parece estar na década de 80 e não nos anos 2000. Falta substância a Crô, falta entender que ele é mais do que uma escada para uma vilã afetada e entusiasta de porcelana e camisolas de seda. Uma pena que Aguinaldo Silva, autor com grande história de militância LGBT, criador do pioneiro jornal "Lampião da Esquina", não tenha percebido isso.

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