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Humorista Maurício Meirelles sobre criar novidades: 'Até Xuxa se reinventa'

Blog do Leo Dias

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Colunista do UOL

09/04/2020 04h00

Um dos grandes nomes do humor atual, conhecido do grande público no programa "CQC" (Band), repórter do "Video Show" (Globo) e sucesso nos palcos de stand-up e na internet —com quase 4 milhões de seguidores no YouTube. Embora tenha uma carreira cheia de conquistas, Maurício Meirelles afirma que se reinventar tem que ser algo permanente na carreira de qualquer pessoa, especialmente na de quem atua no entretenimento.

"Você começa a aprender várias coisas, porque não quer ser só uma. Por mais que seja legal aquilo que você faz. Imagino até que a Xuxa tenha chegado a um momento em que falou: 'Vendo disco para criança, para o Brasil inteiro, mas agora quero falar de outra forma'. E mudou o público dela. A Xuxa foi a Rainha dos Baixinhos nos anos 1980 e 1990 e ela se reinventou. Me vejo como um cara que tenta o tempo todo levar novidades para o tipo de público que gosta de ver essas coisas. Criei agora, na quarentena, o stand-up em casa", conta o comediante, em entrevista exclusiva para o jornalista Leo Dias.

Empreendedor do universo teatral, Meirelles falou também das dificuldades e da adaptação na quarentena, por conta do coronavírus: "Acho que o teatro volta em julho, mas bem devagar". Ele contou que se envolveu em um projeto para ajudar funcionários do teatro que podem estar passando dificuldades nesta fase em que os espetáculos não estão acontecendo, como o iluminador ou o bilheteiro. "A gente fez uma playlist de vários vídeos no YouTube e toda a monetização [dinheiro ganho com a exibição dos vídeos] está indo para essa galera."

O humorista fez questão, ainda, de ressaltar a importância da solidariedade neste momento: "Vai todo o mundo para o mesmo buraco. Então, assim, você é um merda igual a mim. Na hora H, não adianta você ter uma puta casa. A gente está, talvez, melhorando a humanidade se a gente olhar pelo lado positivo da coisa".

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

Maurício Meirelles - Divulgação - Divulgação
O comediante Maurício Meirelles
Imagem: Divulgação
Leo Dias - Você é um cara que vive do stand-up. A sua principal fonte de renda é essa ou é a internet?

Maurício Meirelles - Tenho muitas atividades, mas o grosso do dinheiro que paga os meus funcionários é de shows, que faço todo final de semana. Chego a fazer dez, 15 por mês. Já cheguei a fazer 40, mas agora estou com filho pequeno e tal. Além disso, ainda tenho o dinheiro do YouTube e da Joven Pan, onde faço um programa. Mas 70% é dinheiro do teatro, mesmo, ou de alguma apresentação em bar.

Você, obviamente, como todo o mundo, não estava preparado para essa pandemia.

É, não. Inclusive acho que o teatro tem um grande problema. Quando acabar essa quarentena, muitas pessoas ainda vão ficar com receio de ir. Então eu diria que acabou o ano para a gente, cara. Acho que só em 2021.

E a gente tem que ressaltar que grande parte do público do teatro é formada por idosos.

É, também tem essa. Isso é verdade. Não necessariamente o meu público, mas o público do teatro, sim. [O meu públioc] É a molecada. Quando era do "CQC", falava: "Cara, estou na TV, mas preciso estar na internet". Entrei na internet, peguei um público molecada e juntou com um público mais velho. Fui para o "Vídeo Show", aí peguei os mais velhos. Depois fiz "Webbullying", aí peguei jovens. Agora não estou pegando ninguém.

O que você tirou de melhor do "CQC"?

Fiz coisas que nunca imaginei fazer na minha vida, que o dinheiro não compra, sabe? Ver o Obama ganhando a presidência, por exemplo. Estar ali acompanhando o primeiro discurso dele como presidente. Vi coisas históricas. O Tony Kanaan ganhando a fórmula Indy, eu estava ali. Ele ganhou o prêmio e bebi a champanhe com ele. Mas o "CQC" me ensinou primeiramente a entender o Brasil. Acho que isso foi o mais importante de tudo.

Como é que você se define como humorista?

Acho que o humor, assim como a arte, assim como a música, é muito abstrato. Às vezes, você foi lá no meu show, deu risada para caramba, mas você podia não ter rido. Não significa que você não tem critério. Não significa também que eu não seja um bom humorista. Você só não se identificou comigo.

O Maurício Meirelles é meio nerdezinho?

É um pouco, cara. O Maurício Meirelles é um cara que está com 36 anos, queria ser meio jovem, queria estar curtindo balada, mas ele é casado, está fodido, está com a mulher. Aí a criança grita e, ao mesmo tempo, ele engordou.

Ele não se vê como adulto?

Não se vê. O Adam Sandler é um cara que eu admiro muito por isso. Ele é muito legal, fez a minha infância e continua se reinventando. Não que me veja um Adam Sandler, pelo contrário, me vejo como humorista, um cara que tenta o tempo todo levar novidades para o público que gosta de ver essas coisas. Criei agora na quarentena o stand-up em casa.

Achei tão inovador. Você está nesse período de adversidade, um período em que está tudo proibido, tudo do contra e a sua fonte de renda secou do dia para a noite. Você não ficou no ostracismo, você pensou em se reinventar.

Mas é isso, cara. A gente já bateu muito papo. Você era o cara do jornal da fofoca. Aí você começou a virar o cara da TV. Você começa a virar o repórter, você começa a aprender, você começa a fazer várias coisas, porque você não quer ser só uma coisa, por mais que seja legal aquilo que você faz. Imagino até que a Xuxa, chegou a um momento em que ela falou: "Cara, eu vendo disco para criança, para o Brasil inteiro. Mas agora tenho 60 anos, quero falar de outra forma". Então ela mudou o público dela. E as pessoas hoje —acho até um pouco ignorante— não entendem esse mercado e falam que a Xuxa acabou. Não, a Xuxa não acabou! Pelo contrário, ela está se reinventando. A Xuxa foi a Rainha dos Baixinhos nos anos 1980 e 1990. Ela se reinventou e hoje está mais para um caminho comportamental, digamos assim. Porque não dá para falar com criança o tempo todo.

Acho que o mérito é estar no ar ainda hoje, né?

Exato, por mais que você goste daquilo que você faz. Adoro humor bobo, adoro "Webbullying", que é o humor mais simples, é pegar teu celular, criar constrangimento. Mas adoro também pegar, por exemplo, minha mulher e meu filho, pegar um microfone e ficar fazendo piada para eles, que é o que estou fazendo no stand-up em casa. "Webbullying" dá 10 milhões de visualizações. Esse dá 200 mil. E tudo bem!

Como é que a pessoa pode ver esse seu stand-up em casa?

Estou botando [no ar] todo domingo, é o resumo da semana. A gente está vivendo uma parada surreal, é um filme isso que a gente está vivendo. Falo: "Caraca, tem um vírus que surgiu de um morcego, que ninguém sai de casa e tal, e o Bolsonaro". Está virando um bagulho meio doido. E aí, toda semana, meio que tem uns destaques do que está acontecendo. Teve a semana das paneladas. Daqui a uma semana vai ser a da faxina. Aí começo a fazer piada, e você se identifica. Todo o mundo está lavando louça. Todo o mundo está com poeira.

Maurício Meirelles - Divulgação - Divulgação
O humorista vem trabalhando em stand-up em casa, por causa do coronavírus
Imagem: Divulgação
Qual é a dica para o seu público neste momento, além de assistir a você todo domingo?

Tem muita gente que está perdendo emprego, se ferrando, ou em uma situação delicada, mas volto a dizer: tem coisa que levo para o positivo, porque senão eu piro e morro, Leo. Se eu encarar isso só com negatividade, acabou a minha vida. Estou dentro de quatro paredes aqui e acho minha esposa um saco, meu filho um saco. Não, vejo o contrário. Vejo como a minha esposa é muito legal. Só descobri mais ainda que a minha esposa é muito legal convivendo 24 horas com ela. E a gente descobre que na situação ruim, adversa, a gente é muito parceiro. Descobri que o meu filho, caramba, ele gosta de umas cosquinhas na barriga que não imaginava, porque estou tendo tempo. Porque terça à noite eu estaria fazendo show e agora estou com eles. Então, assim, tem lados positivos.

Acho que o mundo precisava parar, né?

É, um pouco. Parece que foi tipo: desacelera. Sabe? Olha vou falar um negócio: estou perdendo muito dinheiro com o coronavírus, tá? Porque estou pagando e não estou recebendo, estou perdendo. Mas é engraçado, estava mais angustiado antes. Não quero que isso seja sempre, pelo amor de Deus! Mas me fez refletir. Eu converso, estou fazendo 'call' com amigos meus só porque está tendo coronavírus, porque se não tivesse, a gente não ia se encontrar no bar porque a gente não ia ter tempo. Como a gente está sem nada para fazer, a gente se liga.

Posso te dar uma dica? Parei de assistir a telejornal.

Eu também parei. Já sei que está tendo uma pandemia, já sei que tem que passar o álcool em gel. Agora, preciso ficar sabendo de todas as declarações do presidente da França? Não, velho! A dica que dou é: dá uma pausa. Dia 16 de abril vai estrear o meu show na Netflix, a galera vai estar em quarentena. Se já assistiu ao show, teve coisa aí que não assistiu. Não gosta de mim? Assiste a outros colegas meus, só sai um pouco desse negócio.

Ao stand-up real você volta quando?

Acho que a gente volta para o teatro em julho, mas bem devagar. Quem estava acostumado a fazer mil pessoas vai fazer 300, 400. Vai ser assim.

Você é um caso excepcional, porque seus espetáculos estão sempre lotados. Já fui a muita peça que tinha 30, 40 pessoas. Essas peças vão quebrar né?

Não sei se a palavra é quebrar, mas elas vão passar por dificuldades muito grandes. Vou falar até uma ação nossa, idealizada pelo Nando Viana, que faz o "A Culpa É do Cabral". Ele pensou o seguinte: "Tá, eu estou bem abastecido, mas o meu iluminador está fodido, o cara da bilheteria também". Então a gente fez uma playlist de vários vídeos de YouTube e toda a monetização está indo para essa galera, a gente vai distribuir. É o projeto Doe Views. Se você for no Instagram do Nando Viana ou no meu lá tem. Está o meu solo, o solo do Murilo Couto, o solo do Thiago Ventura, tem uma galera que entrou nisso. Tem vídeo lá que já está com 5 milhões, então entra uma grana. Entra em dólar, né?

Então vai entrar um dinheiro legal para o iluminador, para todo o mundo que ajuda.

É, cara, a gente tem que ser legal. Tudo isso está servindo para a gente olhar e falar: "Você não é nada, também não sou. Vai todo o mundo para o mesmo buraco. Você é um merda igual a mim. Então, na hora H, não adianta você ter uma puta casa. A gente está talvez melhorando a humanidade se a gente olhar pelo lado positivo da coisa. Se ficar só focado na economia você vai pirar, então não fica focado, é a dica que eu dou.