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Mauricio Stycer


Bacci merece solidariedade, mas culpa pelo que ocorreu é do Cidade Alerta

Um dia após a morte da jovem Marcela, Luiz Bacci comenta as repercussões do caso no Cidade Alerta - Reprodução/Record TV
Um dia após a morte da jovem Marcela, Luiz Bacci comenta as repercussões do caso no Cidade Alerta Imagem: Reprodução/Record TV
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

21/02/2020 13h00

O "Cidade Alerta" cometeu um erro muito grave esta semana. Como se sabe, na segunda-feira (17), ao vivo, uma mãe descobriu no programa que a filha foi assassinada - e desmaiou no ar.

O erro é uma consequência do formato do programa. Como falei no podcast UOL Vê TV, o vespertino da Record apresenta casos policiais em forma de novela, esticando a sua duração. A história da jovem Marcela, por exemplo, foi tema de reportagens durante quatro dias - até o seu desfecho trágico ser revelado ao vivo.

Ao se justificar, o apresentador Luiz Bacci informou que sempre pergunta para as famílias envolvidas nas histórias se elas aceitam acompanhar ao vivo a cobertura. Ou seja, a produção do programa sabe que está envolvendo familiares numa situação com potencial de invasão de privacidade e constrangimento - e pede autorização para isso.

"A mãe da Marcela quis saber as informações ao vivo na cobertura", disse Bacci em um vídeo gravado nas redes sociais. Na TV, na terça-feira (18), ele havia dito: "Assim que terminou o programa ontem eu conversei com a dona Andrea, hoje eu também conversei com ela e ela fez questão de agradecer o Cidade Alerta".

Acredito. Mas isso não é uma justificativa suficiente, na minha opinião. Aliás, me pergunto se o programa tem o mesmo interesse em acompanhar um determinado caso se os familiares não topam aparecer ao vivo durante a cobertura.

Sem esperança que a polícia resolva seus problemas, muita gente acredita que um programa de televisão pode cumprir o papel de auxiliar na elucidação dos casos. E imagino que a pressão que "Cidade Alerta" ou "Brasil Urgente" exercem ao noticiar determinado crime pode, realmente, estimular uma investigação.

O que os familiares que aparecem nestes programas podem não ser capazes de avaliar, acho, é o impacto que esta exposição é capaz de causar em suas vidas. Ou, desesperados, eles não têm opção melhor e aceitam esta ajuda que o programa policial aparentemente oferece.

O objetivo principal da atração, cabe sempre lembrar, é audiência, custe o que custar. Não surpreende, aliás, que na segunda-feira, o "Cidade Alerta" tenha sido o programa mais visto fora da Globo, em São Paulo, como registrou o site Noticias da TV.

Na terça-feira, Bacci pediu desculpas ao espectador, mas reconheceu que erros como este são inevitáveis no formato do programa: "Aqui é um programa ao vivo e nós infelizmente estamos sujeitos a isso. Nós jamais teríamos a intenção de causar qualquer desconforto a essa família. Nossa única intenção é ajudar nesses casos, que às vezes ficam invisíveis na sociedade", disse ele.

Na quinta-feira (20), o apresentador voltou a falar do caso e disse que sofreu ameaças de morte nas redes sociais. "Vocês sabem que essa não foi uma semana fácil para mim, para todos nós, aqui. Ameaça de morte no Instagram. Quando eu sou ameaçado, isso só me faz saber que eu estou no caminho certo", disse o apresentador, sugerindo que não é a primeira vez que isto ocorre.

"Por causa de uma coisa que aconteceu essa semana, vocês não sabem o que eu fui obrigado a ler. [Fui] ameaçado de morte e ameaçaram de morte a minha mãe. Que coisa horrível", lamentou.

É uma situação horrível, de fato. Que merece repúdio, solidariedade e o apoio de todos. Mas que não vai mudar se o programa permanecer fazendo o que faz desta forma.

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