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Ricardo Feltrin

Análise: Corte em programa de Geraldo mostra linha-dura da Record em gastos

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Geraldo Luís, da Record Imagem: Reprodução/YouTube
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

08/02/2018 07h02

Demissões, corte ou extinção de programas não lucrativos, mudanças na grade de programação, redução no tamanho de novelas, terceirização de boa parte das produções…

Tudo isso representa péssima notícia para (ex) trabalhadores da Record, emissora que vem fazendo grandes cortes de custos, salários e cargos nos últimos meses.

Ninguém em sã consciência pode ficar feliz ou ser favorável a demissões de pais e mães de família. Por outro lado é preciso entender que pessoas jurídicas não são e nunca serão entidades beneficentes --embora tenham necessariamente um mínimo de responsabilidade social.

Cortes como os que vêm sendo feitos pela Record (e RedeTV!, Globo, SBT, Band etc) são medidas inevitáveis para qualquer empresa que queira equilibrar suas finanças. Isso é óbvio.

A verdade é que, como empresa, a Record não é mais a mesma de anos atrás.

Pouco a pouco acabaram --ou foram adiados indefinidamente-- os planos utópicos.

A torneira dos investimentos nababescos fechou. Acabaram as contratações de atores a peso de ouro. Os salários foram achatados. O sonho da liderança foi trocado pelo realismo dos números reais: tanto os do ibope como os do departamento comercial.

A mais recente “vítima” dessa nova gestão é Geraldo Luís, que perdeu boa parte de sua produção esta semana e terá seu programa “Domingo Show” cortado quase que pela metade.

A notícia sobre os estudos para o fim ou redução do programa dominical foi antecipada com exclusividade por esta coluna em janeiro.

Além de ter uma produção cara, o programa de Geraldo sempre rendeu pouca receita.

Apelativo, piegas, assistencialista, prolixo, o “Domingo Show’ só atrai basicamente um público que, infelizmente, para os anunciantes, não tem atrativo.

Eis aí uma das velhas máximas da TV: não é porque um programa tem ibope que ele necessariamente tem valor para a publicidade. 

O “Domingo Show” há muito não acrescenta nada à programação da Record.

Ainda que tenha conseguido se manter no ar, por ora, seu futuro é previsível: cedo ou tarde vai ser extinto. Como outras atrações da casa, aliás.

Embora não possa nem de longe ser comparado com o “Domingo Show” em termos de (baixa) qualidade, o agora extinto “Legendários”, de Marcos Mion, também foi vítima dessa mudança de rumo da Record.

Era um programa inovador? Sim. Esperto? Também. Mas, voltado a um público muito específico, de produção muito cara e pouco rentável.

Xuxa? A mesma coisa. Seu programa solo se tornou inviável justamente por não atrair mais anunciantes como em seus anos dourados de “rainha”.

Na verdade, como já se disse aqui, Xuxa até que mostrou humildade, se reinventou como apresentadora e hoje está à frente de uma atração de relativo sucesso comercial e de ibope, o “Dancing Brasil’

Até mesmo Gugu já entendeu que os tempos mudaram e que não adianta mais querer impor um produto à empresa que o emprega e paga seu salário.

Depois de muito resistir, acabou aceitando apresentar um outro reality este ano.

De certa forma, a própria RecordTV está aceitando que é preciso mudar. Talvez também esteja aprendendo a virtude da modéstia.

Mas, ainda falta muito. O principal problema hoje ainda é a área artística, que não parece ter rumo definido. Não parece existir ainda uma "linha", um norte, uma "cara". Falta algo (ou alguém) nesse leme.

Mas, voltando às mudanças imediatas, Geraldo terá de repensar a própria carreira.

No ano passado a direção da emissora já havia lhe oferecido um horário noturno para um novo programa, mas ele recusou --aparentemente porque não queria afetar suas necessidades familiares.

Agora, no entanto, até essa porta está fechada. Não há mais espaço na grade em 2018 para isso. 

Se são boas notícias? Do ponto de vista humano, claro que não.

“Ah, mas a Igreja Universal coloca centenas de milhões na emissora; então ela não precisava fazer cortes”, vão argumentar alguns.

Em termos. Os milhões da igreja vêm minguando ano após ano. Estima-se que nos últimos 10 anos a Universal reduziu em quase 50% o valor que paga para comprar (legalmente, diga-se) a faixa horária da madrugada na emissora.

Claro que há empregos sendo esfacelados. Mas isso, infelizmente, é parte da realidade e do sistema econômico. Lembremos que a TV é uma concessão pública, porém não subvencionada.

A Record está fazendo apenas o que quase todas as empresas do mundo fazem.

E, lamento dizer isso, mas certamente há mais cortes pela frente.

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