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Análise: TV paga nacional vive "febre" de reality shows de carros

Cena do programa de carros "Caffeine & Octane", do canal The History Channel - Reprodução/YouTube
Cena do programa de carros "Caffeine & Octane", do canal The History Channel Imagem: Reprodução/YouTube
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

24/09/2018 02h43

Nunca existiu tantos programas sobre carros na TV por assinatura do Brasil.

Os leitores são testemunhas que eu mesmo adoro programas de carros. Já cheguei a fazer rankings de alguns que considerava ótimos, mas hoje o setor vivencia um evidente exagero.

Levantamento feito pela coluna, sem incluir o canal especializado Discovery Turbo, apurou que há hoje no ar mais de 20 programas diferentes em pelo menos quatro diferentes canais da TV paga.
Se somado aqui também o especializado Discovery Turbo, há hoje de 30 a 35 horas por dia só de programas e reality shows de carros na TV por assinatura.

History Channel, NatGeo e até +Globosat disputam cada décimo de ibope desse minúsculo “nicho” de telespectadores.

Esses canais somados mal chegam a meio ponto (0,5) de audiência no país, segundo uma medição da Kantar Ibope Media chamada PayTV.

Nessa medição cada ponto equivale a cerca de 115 mil domicílios sintonizados (a coluna obteve os dados por terceiros, e não pela Kantar Ibope, que por contrato não pode divulgá-los dessa forma).

No entanto mesmo esses décimos de audiência são relativamente atraentes para vários tipos de anunciantes interessados nesse público majoritariamente masculino e de bom poder aquisitivo.

AVALANCHE DE CARROS

O The History Channel, por exemplo, está com temporadas de novos e velhos programas praticamente todos os dias e em todas as suas faixas horárias.

Há repetições, de duas a três vezes, de cada programa diariamente.

“Guerra de Pick-Ups”, “Monstros Sobre Rodas”, “Velozes e Endiabrados”, “Caffeine & Octane”, “Hot Rods & Muscle Cars”, “Loucos por Carros”, “Garagem de Jay Leno” e “Clássicos Repaginados”, para ficar só em algumas das atrações atuais do THC.

Já o NatGeo tem “Criadores de SuperCarros” e variáveis automotivas ou de transporte, como “Desafios da Estrada”, “Estrada da Morte” além de um reality britânico de disputa entre duas equipes para saber quem lucra mais com o desmanche e venda de peças de carros “mortos”.

Até mesmo o Discovery, que migrou nos últimos tempos tudo que tinha sobre o tema “carros” para o seu especializado Discovery Turbo,  mantém hoje em sua programação o  “Trocando a Marcha com Aaron Kaufman”, ex-mecânico-chefe de Richard Rawlings do reality “Dupla do Barulho”.

Sem falar no “+Globosat”, um canal que tem uma identidade mais perdida que calota solta, e que exibe o “comercialíssimo” e pouco crítico “Oficina Motor”.

PREGUIÇA CRIATIVA

No entanto, parece que, de tempos em tempos, a TV paga descamba para uma “moda” de algum tipo específico de conteúdo. Parece ser uma “síndrome" generalizada de preguiça.

No início da década, por exemplo, eram realities e jogos de resistência pessoal.

Três anos atrás foi a vez  dos reality culinários.

Em 2016 também houve uma “febre” de programas sobre paranormalidade e fantasmas.

No ano passado e retrasado também houve um “tsunami” de atrações de sobrevivência, e que ainda perdura.

E hoje também há os carros e tudo que os cerca: compra, venda, reforma, troca, peças, consertos, dicas, ferros-velhos, corridas, “videocassetadas automotivas”, infrações e até a perigosa vida dos “marronzinhos” dos EUA.

Um dos resultados óbvio desse comportamento é a saturação de um mesmo tipo de conteúdo para o telespectador que paga --e caro-- por sua mensalidade de TV.

Outro efeito certamente já pode ser visto na constante queda de audiência dos canais pagos nos últimos tempos.

Em um ano a TV por assinatura brasileira já perdeu quase um quarto de sua audiência.

Somente em junho e julho, perdeu quase 100 mil assinantes. Desde o fim da Copa do Mundo no Brasil, em 2014, já se foram mais de 2 milhões (mais de 10% da base de assinantes).

Porque a pessoa vai se sentir estimulada a continuar pagando por um conteúdo que se repete diariamente em vários locais do line-up das operadoras?


Se os canais não aprenderem essa lição --sejam criativos, por favor!-- de forma voluntária, vão acabar aprendendo por meio de seus departamentos comercial e de assinaturas.

Aliás, já deveriam ter aprendido.

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