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Twitter exclui contas que publicam ibope da TV em tempo real

Usuários estão divulgando dados distorcidos de ibope televisivo no Twitter  - Matt Rourke/AP
Usuários estão divulgando dados distorcidos de ibope televisivo no Twitter Imagem: Matt Rourke/AP
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

06/05/2019 07h02

Contas do Twitter que têm o hábito de publicar ibope de emissoras de TV em tempo real --o chamado realtime-- estão sendo deletadas pela rede ou podem estar com seus dias contados.

A coluna apurou que, a pedido da Kantar Ibope Media, o Twitter decidiu suspender ou mesmo eliminar "arrobas" que publiquem dados de audiência de TV não consolidados.

Esses dados integram o chamado "ibope minuto a minuto", ou "realtime", e nunca são divulgados ao público porque, na verdade, não representam resultados reais. Eles precisam ser "afinados" antes disso.

Por meio de um software e senhas, os clientes da Kantar Ibope têm acesso ao sistema de ibope "minuto a minuto" (para acompanhamento), mas só podem divulgar os resultados (suas vitórias) com os dados pós-checados, consolidados e aprovados pela Kantar Ibope.

Outro motivo para o veto à divulgação do "realtime" é que muitas pessoas e emissoras podem usá-los de forma distorcida --que é o que tem ocorrido e levou ao pedido de suspensão por parte da Kantar ao Twitter.

Há anos algumas pessoas vêm tendo acesso irregular ao "realtime". Em pelo menos um caso apurado pela coluna, um usuário obteve acesso a partir de uma senha "furtada" do setor de programação da TV Aparecida (a emissora foi informada e já trocou suas senhas do sistema).

Nos últimos meses alguns usuários com acesso ao realtime transformaram essa "pirataria" de dados não consolidados em dinheiro.

Como funciona o "esquema"

Usuários fazem acordo financeiro (sigiloso) com artistas, apresentadores, jornalistas e até mesmo diretores de emissoras.

Os "contratantes" pagam uma verba mensal para o usuário e ele se compromete a publicar somente dados positivos a respeito de seus programas e emissoras.

Para isso o usuário "contratado" passa a publicar durante o dia dados em realtime, sempre que seus "clientes" estiverem tendo boa performance na audiência.

Além do interesse financeiro, a estratégia é distorcer os dados: isso porque muitas vezes uma atração de TV ganha da concorrência por vários minutos, mas, na média consolidada (que só fica pronta no dia seguinte), ela acaba derrotada --às vezes por larga margem, inclusive.

Então, para o público, pode ficar a impressão que este ou aquele programa está fazendo sucesso e liderando o ibope.

Só que isso, muitas vezes, é mentira, pois a "@" que recebe dinheiro só divulga os minutos de vitória de seus clientes, não os de derrota..

Há suspeitas de que alguns executivos das próprias emissoras estariam repassando as senhas de acesso ao realtime a terceiros --e ainda por cima pagando a eles um "cachê" informal.

Segundo a coluna apurou há envolvidos no esquema ao menos dois apresentadores de telejornais de São Paulo, um do Rio e um graduado executivo de uma emissora em Goiânia.

Eles pagam mensalmente um "cachê" (em dinheiro ou presentes, como relógios, smartphones etc) para um usuário do twitter "divulgar" os melhores momentos de seus programas ou canal.

Outros lados

A coluna procurou o Twitter e a Kantar Ibope para que se manifestassem. Nenhuma das duas empresas quis comentar o assunto.

A coluna apurou, no entanto, que o Twitter está suspendendo ou deletando os perfis baseado em sua lista de termos e condições para assinantes.

Nessa longa lista inclui-se a proteção ao direito autoral. A suposta justificativa é que os dados do realtime pertencem e são produzidos por uma empresa privada (Kantar), que é dona de seu conteúdo, e que ela não deu autorização para seu uso, muito menos distorção.