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Juiz anula demissão de câmera do Faustão que tratava alcoolismo

Fausto Silva, apresentador do "Domingão do Faustão" - Selmy Yassuda/TV Globo
Fausto Silva, apresentador do "Domingão do Faustão" Imagem: Selmy Yassuda/TV Globo
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

02/07/2019 11h16

O juiz Thiago Melosi Soria, da 34ª Vara de Trabalho em São Paulo, decidiu anular a demissão de um câmera que trabalhava no "Domingão do Faustão" e estava na Globo havia 18 anos, segundo esta coluna apurou.

JVB (seu nome será preservado) foi demitido sem justa causa em setembro do ano passado, quando fazia tratamento contra o alcoolismo.

O juiz determinou que a Globo o reintegre JVB a seus quadros sob pena de levar multa diária de R$ 500,00 até o cumprimento da mesma.

A coluna teve acesso a todo o processo e, nele, os advogados da emissora pediram "a reconsideração da ordem de reintegração".

O juiz, porém, manteve a decisão e o funcionário deve ser reintegrado aos quadros da Globo imediatamente.

Doença grave

Para o magistrado, os atestados médicos e o tratamento do alcoolismo desde 2017 --incluindo uma internação hospitalar-- comprovam a gravidade da doença do funcionário.

"O receio de dano irreparável ou de difícil reparação é justificado, diante da doença do autor, e da necessidade de dar continuidade ao tratamento médico", proferiu o juiz na sentença

Na Globo, segundo os autos, o alcoolismo do câmera era de conhecimento de todos. Foram incluídos vídeos para comparar o estado de embriaguez do câmera em alguns momentos.

Em um dos vídeos aparece o próprio Fausto Silva, que diz: "(ele) chega bêbado, é uma loucura".

Por causa do vício, testemunhas afirmaram que JVB nem sequer mais era convidado para festas de final de ano promovidas por Faustão para sua equipe.

O advogado Kiyomori Mori, que representa o demitido, afirmou que não comentaria a decisão porque o processo corre em segredo de Justiça.

"Trata-se de doença estigmatizante, com relevantes reflexos sociais, não cabendo a demissão do trabalhador em tratamento da doença, ainda mais em uma emissora como a TV Globo", rebateu o juiz Thiago Melosi Soria.

Globo ainda pode arriscar mais uma manobra e entrar com um pedido de mandado de segurança para tentar cassar a ordem do juiz.

Se a decisão do juiz for confirmada, a Globo deverá pagar inclusive os salários não pagos desde a demissão e ainda fornecer-lhe plano de saúde para que ele continue o tratamento.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) reconhece o alcoolismo como doença. Vale acrescentar que, até se tornar um alcoólatra crônico, o reclamante era reconhecido pelos colegas como um dos melhores profissionais da emissora nessa área, com grande qualidade e bagagem técnica.

O câmera também trabalhou no "Altas Horas" e com Jô Soares, além de ter integrado a equipe do "Criança Esperança".

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