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Análise: Cortes na Globo eram previstos; investimentos também

Mauro Naves foi demitido, mas, se ficasse, teria os ganhos reduzidos - Reprodução/TV Globo
Mauro Naves foi demitido, mas, se ficasse, teria os ganhos reduzidos Imagem: Reprodução/TV Globo
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

14/07/2019 06h30

Nos últimos meses a Globo teve uma grande "movimentação" no quadro de funcionários.

Não foi uma dança de cadeiras, com troca de cargos, e sim a saída --voluntária ou não-- de profissionais conhecidos do grande público havia anos.

Alguns foram demitidos, como Izabella Camargo, Cris Dias e Mauro Naves.

Outros decidiram deixar a emissora, como Evaristo Costa (hoje CNN Brasil), Alexandre Garcia, Márcio Canuto, Ivan Moré, André Azeredo, o narrador Luiz Alano e o repórter Phelipe Siani.

Outros ainda, como Marcos Uchôa, pediram licença alegando desgaste e se afastaram da casa.

A lista não termina aí: até a próxima semana Mari Palma também deve sair e seguir o mesmo destino no namorado, Siani: a CNN Brasil (que não confirma, assim como não confirmou Siani até o último momento).

Estão ocorrendo cortes e mudanças também no braço noticioso do Grupo Globo na TV paga: desde o início do ano a GloboNews vem promovendo várias demissões atrás e à frente das câmeras --como a de Sérgio Aguiar, ex-âncora do "Em Pauta".

Boa parte dessas mudanças, cortes etc. são creditados pela Globo à mudança de um paradigma no conteúdo: a produção multiplataforma, "que mudou as relações de trabalho e parceria" (veja nota oficial da emissora abaixo).

Cortes gerais eram previstos

Todos os setores estão na mira: linha de shows, dramaturgia e de "infojornalismo" também sofreram baixas, como Fernando Rocha e Mariana Ferrão, do Bem-Estar, entre os mais conhecidos.

Cinco anos atrás esta coluna já havia antecipado o início do longo processo de redução de gastos não só na emissora da família Marinho, mas na TV brasileira em geral.

A coluna antecipou (em 2014) o que de fato ocorreu: o fim da era dos "supersalários" na dramaturgia e linha de shows da TV brasileira.

Isso tem ocorrido em todas as TVs. O SBT está desmontando seu Jornalismo. A Record até tem investido em jornalismo atualmente, mas teve enormes cortes nos últimos anos. A Band, que está numa crise que já dura anos e já não vinha investindo em nada, para piorar perdeu uma de suas maiores estrelas, Ricardo Boechat, que morreu em fevereiro.

O fato, porém, é que muitos internautas antipáticos à Globo têm pregado que tudo isso está ocorrendo porque a emissora enfrenta uma "grave" crise econômica por causa do corte de gastos publicitários federais por parte do governo Bolsonaro.

Bom, isso não é verdade. Primeiro porque a Globo vive e viverá tranquilamente sem dinheiro de publicidade federal (que nunca passou de 6% de seu faturamento). Esse dinheiro faz muito mais falta às outras TVs abertas que à Globo. E, mesmo assim, nem tanto.

Segundo porque a Globo enfrenta, sim, uma crise econômica e de redução de receitas, como qualquer outra empresa de mídia do país. Mas, está longe --muito longe-- de perder sua hegemonia financeira e, principalmente, de ibope.

Além disso o Grupo Globo tem algo que muitas empresas do setor não têm: administração capacitada que planeja e executa cada passo de forma meticulosa.

Com exceção do caso de Mauro Naves, e talvez do de Izabella Camargo (cuja Justiça trabalhista mandou a emissora reintegrar), todos os demais cortes e despedidas nos últimos anos estão previstos no plano de redução de gastos da casa.

Não em termos de nomes dos profissionais, mas de custos na folha de pagamentos.

No caso de Naves, assim como está ocorrendo com seus colegas, mesmo se não tivesse ocorrido o "caso Neymar-Najila", ainda assim também provavelmente lhe seria proposta mudança de contrato na próxima renovação.

Seu salário era um dos maiores do departamento de Esportes (assim como o de Uchôa).

E isso está longe de terminar: a emissora vem tentando renegociar contratos com repórteres, âncoras e apresentadores, e, em muitos casos, tem proposto que eles deixem de ser PJs (Pessoas Jurídicas) e passem para o regime de CLT (carteira assinada), conforme esta coluna também antecipou no mês passado.

Isso está causando desconforto a vários integrantes do Jornalismo da emissora, ao ponto de fazê-los desistir de continuar na casa e pedir demissão ou se afastar.

Há dois temores dos profissionais em aceitar essa mudança, como o site Notícias da TV informou no mês passado: a aparente redução do ganho líquido, no caso de mudança de PJs para celetistas; o temor que, após aceitarem a mudança, a emissora demita a todos e pague apenas por efêmeros direitos trabalhistas.

Saneamento e também investimento

É triste, mas a verdade é que, do ponto de vista de saúde corporativa, a Globo está fazendo o que qualquer empresa (séria) do mundo faria em seu lugar: mantendo-se lucrativa, operacional e empregando milhares de pessoas --sejam elas PJs, contratados ou colaboradores.

Pode-se dizer que ela está, sim, abrindo e ainda vai abrir mão de muitas estrelas que marcaram época e sua própria história. Mas, se esse é o preço a pagar para se manter saudável, assim certamente vai ser.

Mas, vale dizer que, se por um lado tem economizado e cortado custos em várias áreas, a Globo também tem feito investimentos pesados em outros setores, como a própria plataforma Globo Play, na redação do "JN" no Rio e num moderníssimo complexo de estúdios para dramaturgia e shows, também no Rio, entre outros.

Se no futuro a Globo quiser se "associar" a outro grupo de mídia (o que a legislação permite), o saneamento financeiro e os investimentos atuais só vão elevar seu valor, jamais diminui-lo.

Outro lado

Procurada para comentar o tema acima, a Globo considera que a análise da coluna não leva em conta um fenômeno importante: "a produção multiplataforma, que, por si só, implica em novos modelos de parceria e de trabalho". A emissora acrescenta ainda a seguinte nota:

"Como todos sabem, há mais de cinco anos, temos tomado uma série de iniciativas para preparar a empresa para os desafios do futuro. Com isso, temos evoluído nos nossos modelos de gestão, de criação, de produção, de negócios e também de gestão de talentos.

Em sintonia com as transformações pelas quais passa nosso mercado e com as novas dinâmicas de parceria da Globo com os seus talentos, estamos revendo modelos de contrato para atividades estratégicas nas múltiplas plataformas das empresas Globo, em comum acordo e sem prejuízo para nenhuma das partes. Central Globo de Comunicação"

Ricardo Feltrin no Twitter, Facebook e site Ooops

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