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Ricardo Feltrin


Análise: A lenta agonia do canal Futura

Logotipo do canal Futura Play, serviço de streaming gratuito do Grupo Globo - Reprodução/YouTube
Logotipo do canal Futura Play, serviço de streaming gratuito do Grupo Globo Imagem: Reprodução/YouTube
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

20/11/2019 10h17

O canal Futura foi criado 22 anos atrás por decisão pessoal de Roberto Marinho (1904-2003).

O então o presidente das Organizações Globo tinha como objetivo levar conhecimento científico e educativo especificamente para as classes sociais mais desfavorecidas.

Ele já fazia isso com os Telecursos na própria Globo. O Futura seria, de certa forma, um passo educacional adiante.

Para isso Marinho pediu e obteve a concessão de um canal UHF aberto, livre, que poderia ser sintonizado por antenas parabólicas em praticamente qualquer lugar do país.

Imediatamente foi incluído nos pacotes mais básicos das então ainda incipientes operadoras de TV paga.

A programação do Futura nasceu focada em quatro públicos: crianças, jovens, donas de casa e educadores. Desde 2015, porém, o conteúdo infantil foi praticamente excluído da grade.

Desde o lançamento Marinho obteve adesão entusiasmada de grandes empresas, bancos e entidades como Fiesp, Firjan e Sebrae, entre outras. Todos queriam ajudar a bancar um conteúdo tão bacana e inovador como aquele.

Futura nasceu como uma espécie de TV Cultura, só que menos elitista e mais coloquial. Sem política, sem propagandas. Só conteúdo educativo, interessante e de boa qualidade.

Triste fim

Por tudo isso, por sua história de bons serviços prestados, é lamentável a situação de sucateamento que o canal Futura chega ao final de 2019.

Não o sucateamento de sua programação que, por mais incrível que pareça, continua relevante e de altíssimo nível.

Há programas excelentes que dão de 10 a 0 em muito canal dito educativo. Entre eles, "Experimentos", "Viver Ciência", "Show da História" e "Alfabetismo Brasil", entre outros.

São programas que prestam um serviço inestimável para qualquer telespectador e que merecem de fato ser chamados de "atrações".

Ele também está disponível em streaming pelo Futura Play.

O problema é que quase ninguém mais se importa ou vê.

No mês passado, segundo dados de audiência da Kantar Ibope Media no país, o Futura amargou a penúltima colocação entre todos os canais abertos no país.

Marcou 0,01 ponto de ibope (isso mesmo, um centésimo de ponto!) e 0,02% de share (dois centésimos de participação no total de TVs ligadas).

Ficou à frente apenas da "inassistível" e enfadonha TV Justiça (0,00 ponto e 0,01% de share).

O motivo provável do fiasco de audiência que o Futura se transformou não é dos profissionais ou da grade.

É da falta de divulgação, de publicidade, de mais investimentos, de eventos envolvendo o canal; é da quase absoluta falta de interatividade.

É como se o Grupo Globo quisesse escondê-lo do telespectador.

A eliminação da programação infantil também certamente é responsável por uma perda enorme de público.

Os desenhos eram certamente um chamariz para jovens se interessarem por outros conteúdos, como o científico.

Dito tudo isso é triste ver um canal de tamanha qualidade agonizando sem público.

Para efeitos de comparação, o Futura é hoje tão mal aproveitado pelo Grupo Globo como a excelente TV Escola é desprezada pelo governo federal.

Nos dois casos quem perde somos nós, telespectadores.

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