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Entrevista exclusiva: "Fui sentenciado por um caso pontual", diz Gottino

Reinaldo Gottino, âncora da CNN Brasil - Divulgação CNN Brasil / Spokesman
Reinaldo Gottino, âncora da CNN Brasil
Imagem: Divulgação CNN Brasil / Spokesman
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

31/03/2020 04h50

Resumo da notícia

  • Âncora da CNN caiu no "olho do furacão" após o último domingo
  • Ele teve discussão acalorada com Gabriela Prioli ao vivo na sexta
  • Por causa disso ela deixou o programa, e Gottino virou alvo nas redes sociais
  • "Foi um caso pontual, sei quem sou e como sou", diz ele em entrevista à coluna

As últimas 48 horas foram provavelmente as mais tensas em 20 anos de carreira de Reinaldo Gottino.

Afável, risonho, querido em todas as emissoras de TV e rádios por onde passou nas últimas décadas, ele caiu num furacão de críticas, ataques e xingamentos desde o último domingo.

O motivo ocorrera mais de 24 horas antes, quando se envolveu em uma discussão acalorada, tensa e ao vivo com a advogada Gabriela Prioli —até então uma das participantes do quadro "O Grande Debate", da CNN Brasil.

No domingo pela manhã Gabriela postou em suas redes sociais que estava "saindo do quadro".

Embora não tenha dito com todas as letras, a série de postagens soava claramente como um claro pedido público de demissão.

Admirada pelo seu poder de articulação e embasamento teórico (é uma brilhante professora e mestre em Direito Penal), sua postagem provocou um verdadeiro terremoto digital.

O pedido não foi oficializado até o momento. Afinal, ela tem um contrato com a CNN e as partes estão discutindo como chegar a um acordo comum. Talvez ela fique, talvez não. Ninguém sabe ao certo.

A discussão com Gottino, embora pontual, acabou se tornando a gota d´água para a debatedora.

Ela disse a pessoas próximas que já estava farta do clima de "rinha" do quadro, bem como das ameaças e agressões digitais que sofre desde que se tornou um rosto e uma voz conhecidas no país.

Mesmo assim, sobrou tudo para Gottino.

O âncora e mediador e protagonista da, digamos, "gota d´água", acabou sendo responsabilizado e acusado por tudo nas redes sociais.

Hordas de internautas e até celebridades da TV tomaram as dores de Gabriela e passaram a "sentenciar" o âncora da CNN.

Um dos "ataques" mais comuns foi que ele trabalhou na Record, e ainda por cima em um telejornal popular.

Gottino, porém, também tem sido defendido por fãs e por quem trabalhou com ele nas últimas décadas e o conhece.

Sobre a "acusação" acima, ele se sente à vontade para dizer: "Tenho orgulho de quem sou, da minha carreira e de onde trabalhei".

Em 20 anos de jornalismo, Gottino nunca se envolveu em discussões e polêmicas. Evangélico, amante de música gospel, sempre levou uma vida simples e "low-profile" ao lado da mulher, Simone, e dos filhos.

Porém, passou o último domingo trancado em casa e consternado, amparado só pela família e os amigos da CNN e fora dela, que o procuraram para dar algum apoio durante o "massacre".

"Foi muito triste, porque eu não fui apenas ofendido e xingado, mas sentenciado", disse à coluna.

Carreira

Gottino, 42 anos, chamou a atenção na TV nos últimos anos não só por ter se tornado âncora do único programa a ameaçar a liderança da Globo ("Balanço Geral") em São Paulo, como também por sua generosidade com colegas.

Na "maligna" Record, por exemplo, ele dava uma parte do que ganhava com "merchandisings" para os colegas de bancada Fabíola Reipert e Renato Lombardi. Depositava na conta de ambos.

Trata-se de uma atitude totalmente incomum entre apresentadores de TV, senão inédita.

Quando o furacão abateu contra ele, ligou e enviou mensagens a Gabriela Prioli, pedindo desculpas. Não teve resposta.

Ele afirma que não percebeu nada de errado na sexta, mas viu o programa depois e admite: se excedeu.

No domingo à tarde, quando a bomba já tinha estourado, procurou a direção da CNN Brasil e avisou que pediria desculpas publicamente a Gabriela em suas redes sociais.

Pediu também que essas desculpas estivessem em qualquer nota que a emissora porventura divulgasse sobre o caso. O que de fato ocorreu à noite.

Leia a seguir essa entrevista exclusiva e "pós-terremoto" com Reinaldo Gottino:

Pelo jeito o Grande Debate virou a Grande Polêmica no final de semana. Imaginou que estaria envolvido num, digamos, "bafafá" destes tão cedo na CNN?

Reinaldo Gottino - Foi uma grande surpresa para mim!

Não gosto de me envolver em polêmicas, mas vale dizer que, em um debate na TV, nesses moldes, é comum os questionamentos —inclusive as interrupções.

Mas, como fui muito incisivo, acabou provocando toda essa situação.

Agora com a cabeça fria, qual sua opinião sobre todo o caso?

Reinaldo Gottino - Penso que estamos trazendo uma novidade pra televisão.

Um debate de ideias, que muitas vezes esquenta, faz com que as pessoas mudem o tom de voz, tenham reações inesperadas, mas sempre no campo das ideias.

Estou aprendendo muito com tudo isso.

Você se surpreendeu com a atitude da Gabriela Prioli de se "despedir" da CNN publicamente ontem, assim como a repercussão?

Reinaldo Gottino - Para mim foi uma surpresa porque conversamos na sexta-feira (27), e não pareceu que tínhamos nenhum problema. Muito pelo contrário. Tínhamos uma ótima relação.

Como foi a conversa que vocês tiveram na sexta, depois do programa?

Reinaldo Gottino - A conversa foi sobre o que poderíamos melhorar no quadro. Nós temos (tínhamos) essas conversas diariamente.

Até aquele momento você não pensou que tinha cometido um erro?

Reinaldo Gottino - Os questionamentos acontecem pelo mediador. Isso é comum pelas regras desse modelo de debate. É só assistir ao "Grande Debate" da CNN nos EUA.

O âncora traz temas novos para a conversa. Na sexta o assunto não gerou nenhuma repercussão. Eu só fui assistir depois que começou a gerar polêmica (nas redes sociais). Aí percebi que tinha sido incisivo (demais).

Você se desculpou com ela na nota oficial divulgada pela CNN anteontem. Mas, você se desculpou diretamente com ela também?

Reinaldo Gottino - Me desculpei com ela antes dela publicar as mensagens. Eu tinha uma ótima relação com a Gabi, com o marido dela. Não imaginava que iríamos ter esses desdobramentos.

Em 23 anos cobrindo TV não lembro de alguma vez ter visto um jornalista ou apresentador pedindo desculpas a um colega em uma nota oficial da emissora? A CNN pediu isso a você? Ou o (CEO) Douglas Tavolaro?

Reinaldo Gottino - A ideia foi minha, informei à emissora o meu desejo, que prontamente me autorizou a publicar o pedido de desculpas (antes mesmo da nota oficial).

Ontem você estava em 1º lugar nos TTs (trending topics) do Twitter Brasil, e a maioria absoluta dos posts, pelo que pesquisei, eram críticos e contrários a você. Como se sentiu e se sente com isso?

Reinaldo Gottino - Fiquei muito triste, porque o recorte que fizeram sugere algo que não é realidade. Fizemos dez programas ao vivo juntos, e mais de uma dezena de pilotos.

Foram mais de 20 horas de debate: tente achar interrupções grosseiras ou tentativas da minha parte de cortar a fala.

Não existe! Foi uma coisa só e naquele momento.

As pessoas nas redes sociais querem julgar, massacrar, e agredir verbalmente quem está naquele momento envolvido (em qualquer coisa). E isso sem saber quem realmente eu sou. Peço que você procure quem já trabalhou comigo.

Você pode escolher aleatoriamente pessoas que já trabalharam comigo. Essas pessoas poderão falar da minha conduta, do meu caráter, da forma como eu trato as pessoas; e principalmente de como convivo com as opiniões, com o debate e com a divergência de ideias.

Muita gente tem criticado você por ter saído da Record, e de um programa popular, para uma emissora noticiosa e classificada como elitista. Acham que você, digamos, "não combina" com a CNN. O que tem a dizer a esses críticos?

Reinaldo Gottino - Tenho um grande orgulho da minha carreira. Grande orgulho por onde passei. Grande orgulho de onde cheguei.

Ser o apresentador que mais faz cobertura ao vivo na televisão brasileira é uma honra. Sou jornalista e sou um profissional de TV. Trabalho muito, trabalho em equipe, faço televisão para todas as pessoas.

Faço o meu trabalho da melhor maneira possível, e acho que é por isso que recebi esse convite para atuar na maior marca jornalística do mundo.

Os profissionais que estão a frente da CNN sabem do que posso oferecer como jornalista, como apresentador, mediador e também pela experiência que tenho nesses mais de 20 anos de carreira.

Então vamos lá... Muita gente que te critica não conhece essa carreira. Fale dela então...

Reinaldo Gottino - Recebi críticas feitas por pessoas que pregam a todo instante para não se fazer isso nas redes sociais. Não foram apenas julgamentos que recebi, e sim verdadeiras sentenças.

Hoje começo a receber comentários de pessoas que não acompanhavam o meu trabalho, foram atrás disso e agora estão percebendo que o que aconteceu foi algo pontual. Não define quem eu realmente sou.

A resposta desse questionamento já está na sua pergunta.

Quem não conhece minha carreira, escreve absurdos. Não sabe das minhas experiências profissionais.

Fui o âncora mais jovem da rádio CBN, com apenas 22 anos. Fiquei lá por seis anos. Também fui o jornalista mais jovem a apresentar o "Globo No Ar", na Rádio Globo.

Na RecordTV, além dos jornais, comandei debates e sabatinas com candidatos nas últimas eleições. Atuei em grandes coberturas factuais, posses presidenciais e eleições norte-americanas.

Estive em grandes coberturas esportivas dos últimos 16 anos. Da Olimpíada de Atenas, na Grécia, em 2004, passando pelo Pan em Guadalajara, no México, até a Rio 2016.

Trabalhei como apresentador na TV Japonesa IPCTV (retransmissora da Globo), além da TV Gazeta.

São mais de 20 anos de carreira, sempre buscando informar as pessoas, noticiar os fatos e agora tenho a oportunidade de fazer isso de forma plural e direta na CNN Brasil.

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Ricardo Feltrin