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Segundo Sol

Erros recorrentes em Segundo Sol colocam em xeque padrão Globo de qualidade

Carolina Farias

do UOL, do Rio

08/06/2018 04h00

"Buscamos qualidade em tudo o que fazemos." A frase faz parte de um dos tópicos da missão do Grupo Globo sobre sua produção dramatúrgica e jornalística. A sucessão de erros nos primeiros 20 capítulos de "Segundo Sol", porém, coloca em xeque essa busca pela excelência. Os recorrentes tropeços na novela de João Emanuel Carneiro levantam a questão: O que aconteceu com o padrão Globo de qualidade?

Ao menos em seis ocasiões faltou cuidado na produção e no roteiro. Na quarta-feira (6), a personagem Maura (Nanda Costa) descobre, de novo, que seu parceiro de polícia Ionan (Armando Babaioff) é irmão de Beto Falcão (Emilio Dantas). No primeiro capítulo, um homem apareceu deitado em uma canoa, na qual Beto e Ícaro (Thales Miranda, na primeira fase) estavam, mas as falhas não pararam por aí.

O "padrão Globo de qualidade" teve início na gestão (1967-2001) de José Bonifácio de Oliveira, o Boni, pai de Boninho, que hoje é diretor do núcleo do "BBB", entre outros programas. Na autobiografia "O Livro do Boni", publicada em 2011, o veterano explica como nasceu o tal padrão, um "híbrido" do que ele buscava em sua gestão. 

"Essa expressão não nasceu dentro da Globo, como muitos pensam. Ela foi sendo usada pela imprensa e nós acabamos assimilando o rótulo. Embora muitos atribuam a mim a criação desse padrão, na verdade o padrão Globo de qualidade não foi criado por ninguém, mas resultou de uma exigência comum a quase todos os funcionários da empresa em todos os escalões", explica Boni no capítulo "O Padrão Globo de Qualidade".

"A mentalidade da tolerância zero se implantou na empresa de forma automática e não imposta. E tolerância zero não significa que tudo seja perfeito, mas que se busca a perfeição. Para mim, não há busca de perfeição quando se tem qualquer tipo de tolerância. É preciso querer 100% para conseguir 80 ou 90%."

Para o especialista em teledramaturgia e colunista do UOL, Nilson Xavier, não há como defender a atuação da emissora na novela com tantos erros em tão poucos capítulos. 

"A única explicação é a falta de atenção da direção e do texto, nesse último caso, sobre a Maura. É uma quebra do padrão de qualidade estabelecido pelo Boni. Nas novelas antigas, que estão no ar no 'Viva', você não percebe isso", analisa o colunista.

As cenas das novelas passam por muitas mãos, como lembra outro especialista no assunto e também colunista do UOL, Flávio Ricco, o que torna ainda mais surpreendente erros grosseiros ocorrerem.

Risco de virar meme

"É inexplicável a Globo acobertar tantos erros seguidos nessa novela. Quando gravam, além do diretor, existem outras pessoas na pós-gravação, como em todo processo de edição, decupagem e, por último, sonorização. Depois de passar por tantos olhos é absurdo esse tipo de erro passar", concorda Ricco.

Ele ainda arrisca um palpite ousado sobre a sucessão de falhas. "Pode ser algum truque para chamar atenção. É inexplicável o cara deitado no barco, o outro no espelho [em cena de Adriana Esteves e Fabricio Boliveira]. Nunca aconteceu isso. A novela é boa, o autor é bom, o elenco também. O próprio Dennis Carvalho [diretor-geral], que é do maior respeito. Não vejo tanta explicação por essa bobeada. Chega a ser um mistério."

O que piora a situação também é o monitoramento da novela pelos fãs, que parecem assistir à trama com lupa, tanto na TV quanto na web. Qualquer detalhe é fotografado, vai para as redes sociais e ainda correm o risco de virar um meme.

 "Com a novela sendo comentada em tempo real, o cuidado deveria ser dobrado", destaca Ricco.

A Globo foi procurada para comentar os erros e suas causas. Entre as questões encaminhadas à assessoria de imprensa da novela, estão perguntas sobre o cronograma (se há atrasos nas gravações) e repetição de cenários. Por meio de sua assessoria de imprensa a emissora informou que não vai se manifestar.

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