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As Aventuras de Poliana

Personagem de novela do SBT diz que racismo está "na nossa cabeça"

Paulo Pacheco

Do UOL, em São Paulo

09/08/2018 15h02

O SBT exibiu na última quarta-feira (8) uma cena de "As Aventuras de Poliana" em que Helô, coordenadora da escola Ruth Goulart, explica para Kessya, aluna acusada de vandalismo, de que racismo está 'na nossa cabeça". A fala da personagem gerou discussão nas redes sociais por isentar brancos e culpar negros pela discriminação racial.

No capítulo, a diretora Ruth (Myrian Rios) tirou de Kessya (Duda Pimenta) sua bolsa de estudos como punição por ter sido acusada de destruir a estátua em homenagem à fundadora do colégio. Luigi (Enzo Krieger) defendeu a colega e diz ter o vídeo que incrimina os verdadeiros autores do vandalismo, Éric (Lucas Burgatti) e Hugo (Henry Fiuka).

A diretora devolveu a bolsa de estudos a Kessya e suspendeu os dois valentões. A aluna ficou indignada por quase ter sido punida injustamente e desabafou com a coordenadora, Helô (Elina de Souza).

"Porque eu sou negra todo mundo já fica desconfiado. Tipo: 'Só pode ter sido a Kessya mesmo!'", disse a estudante. "Kessya, sabe qual é um dos maiores culpados pelo preconceito?", questionou Helô.

Kessya respondeu com firmeza: "Os racistas!". Mas Helô a corrigiu com uma fala, no mínimo, controversa: "Não, a nossa cabeça. E para que os outros parem de ver a nós, negros, como diferentes, nós precisamos parar de nos ver como diferentes, como piores ou melhores do que determinada raça!".

Reprodução/SBT
Helô ensina Kessya que racismo está "na nossa cabeça" Imagem: Reprodução/SBT
A coordenadora reiterou seu posicionamento afirmando que, por ser negra, fala com "conhecimento de causa": "Não se esqueça que eu já passei por tudo que você passou e eu estou falando com conhecimento de causa!". Kessya agradeceu ao ensinamento repassado por Helô.

Coincidência ou não, a autora de "As Aventuras de Poliana", Íris Abravanel, falou algo semelhante durante o lançamento da novela, em maio, ao ser questionada sobre a representatividade negra nas novelas.

"Acho que a comunidade afro precisa superar algumas coisas e ir para frente, porque quando nós procuramos atores, não é fácil encontrar ator afro. Nós temos dificuldade de encontrar. Eu acho que eles precisam eles mesmos superarem algumas dificuldades e ir para frente, conquistar. Eu fico tão feliz quando eu vejo alguém que consegue ser um advogado, um médico, um ator. Às vezes quando pedimos, não tem muitos não. Então aquilo que nós conseguimos, nós aproveitamos", disse.

O UOL entrou em contato com Elina de Souza, atriz que interpreta Helô e militante no combate ao racismo, mas ela não quis se pronunciar. A reportagem também procurou o SBT para perguntar se diálogos como este ajudam de fato a combater o racismo.

"A novela tem o papel de debater questões sociais como o enfrentamento ao racismo, citando vários exemplos. Prova disso, no capítulo 60, no ar nesta terça-feira, houve a cena em que o texto exalta que racismo é coisa de gente ignorante. E no capítulo 61, ainda no mesmo contexto que foi ao ar ontem, a coordenadora do colégio quis convencer a menina que aquele estereótipo de que o negro é sempre culpado à primeira vista não pode prevalecer, mostrando-a uma nova perspectiva. Instalou-se uma polêmica que não existe! A novela é uma obra de ficção para entreter e não polemizar", respondeu a emissora.