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Órfãos da Terra


Refugiados reais ajudam a contar história de "Órfãos da Terra"

Reprodução/UOL
Congolês Blaise Musipere e o sírio Abdulbaset Jarour estão em "Órfãos da Terra" Imagem: Reprodução/UOL

Carolina Farias

Do UOL, no Rio

2019-04-12T04:00:00

12/04/2019 04h00

O mundo vive uma crise de refugiados, com 68 milhões forçadas a deixar seus países atingidos por guerras, conflitos ou crises econômicas. É o drama dessas pessoas que a nova novela das 18h, "Órfãos da Terra", tenta retratar. Para deixar a trama mais verossímil, refugiados reais colaboram com a novela, tanto na frente das câmeras, como atrás delas.

Além de Kaysar Dadour, sírio que comoveu o público o no "BBB18" ao revelar que teve de deixar a família em seu país, o congolês Blaise Musipere também integra o elenco. O ex-brother interpreta Fauze, um dos capangas do sheik Aziz (Herson Capri). Já Musipere é Jean Baptiste, um cantor haitiano que é um refugiado como ele.

Antes do início da novela, estrangeiros que também tiveram de abandonar seus países colaboraram com a direção e com as autoras Thelma Guedes e Duca Rachid, como é o caso de Abdulbaset Jarour, também refugiado sírio.

"Contei minha experiência. Tirei dúvidas sobre cenas da guerra, o deslocamento, o que comíamos, como fugi, sobre a dificuldade, o sofrimento, o pânico quando acontecem bombardeios", contou Jarour, que participou de uma cena no primeiro capítulo e está na abertura da novela ao lado de outros refugiados.

Morador de São Paulo, o sírio de 29 anos foi convidado pela Cáritas, um organismo da Igreja Católica para promoção humanitária, a participar de uma reunião com a dupla de autoras da novela, direção e produtores. De lá para cá, não parou mais.

"Quando vi na tela que estou fazendo parte da novela, me emocionei muito. Meus olhos se encheram de lágrimas", conta empolgado o sírio. Segundo a ONU, o Brasil reconheceu, até 2017, 10.145 refugiados - os sírios representam 35% do total.
Arquivo Pessoal
Abdulbaset Jarour é refugiado sírio que está na abertura de "Órfãos da Terra" Imagem: Arquivo Pessoal
Depois do encontro com as autoras, Jarour participou de um workshop com outros refugiados, entre eles Musipere, que dividiram suas histórias com equipe técnica e elenco.

Gravações em uma mesquita de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, que ainda não foram exibidas, também contaram com a ajuda do sírio. Nas cenas, Jamil (Renato Góes) reza no templo e os figurantes a sua volta são realmente muçulmanos.

"Como é costume no islamismo, tem que ser um muçulmano para saber fazer oração ao lado dele. Ele [Renato] foi aprender com o sheik Mohamad Al Bukai. Eu trouxe muçulmanos de verdade, não figurantes de outra religião. Na maioria são da Síria, mas também têm do Marrocos, Egito, Palestina", disse Jarour.

"Perdi vários amigos num bombardeio"

Em comum, as histórias de Jarour e Musipere têm dor, perda e sofrimento. Os dois deixaram para trás seus países e famílias e passaram por dificuldades mesmo depois de se estabelecerem no Brasil.

O sírio chegou ao Brasil em 2014. De Alepo, Jarour teve de servir o Exército ao completar 20 anos, em 2010, como prevê a lei no país. No ano seguinte, a guerra civil eclodiu e o serviço obrigatório passou a ser por tempo indeterminado.

"No dia 5 de maio de 2013 houve um bombardeio de Israel contra Damasco, que nada tinha a ver com a guerra, e me machuquei. Vários amigos morreram. Desmaiei e acordei no hospital", contou.

Após se recuperar dos ferimentos, Jarour conseguiu ajuda para fugir para o Líbano, país mais próximo de Damasco. A família, que ele não via desde 2012, ficou em Alepo.

Em Beirute, o jovem começou a trabalhar e planejar para qual país poderia ir e entrar legalmente. Com dinheiro guardado dos trabalhos que fez, pegou um visto humanitário e comprou passagens para São Paulo.

"Escolhi São Paulo porque tem uma comunidade árabe maior. Não sabia nada do Brasil. Esqueci que a língua era o português. Tive dificuldades de arrumar trabalho, de conseguir curso de português porque tinha uma demanda enorme, mas consegui aprender sozinho, só de conversar".

Hoje, o sírio sobrevive de palestras sobre sua história, a questão dos refugiados e também sobre o mundo árabe. Ele também ajuda outros refugiados voluntariamente na ONG África do Coração, que organiza projetos de combate à xenofobia. Em 2018, ele conseguiu trazer a mãe e uma das cinco irmãs para o Brasil.

"Preferi dormir na rua que voltar ao Congo"

Uma bomba também marcou para sempre a história de Musipere. O congolês, hoje com 33 anos, perdeu dois irmãos em um bombardeio em 1998 - a República Democrática do Congo viveu uma guerra sangrenta entre 1998 e 2003 e depois desse período um levante rebelde.

"Os rebeldes lançaram bombas contra a fábrica onde trabalhávamos. Vamos falar sobre isso sempre, mas só de lembrar é muito difícil mesmo", conta o ator, emocionado, à reportagem, mesmo mais de 20 anos após o episódio.

Quase dez anos após perder os irmãos, ele decidiu que não tinha mais como permanecer no país. Em 2007 tentou e conseguiu uma bolsa de estudos no Brasil. Juntou US$ 1.500 com ajuda de amigos.

O congolês foi para Curitiba, onde passou cinco anos, entre trabalhos informais e ajuda de pessoas que conheceu na cidade. Antes de vir ao país, não conhecia nada sobre o Brasil, além do futebol.

"Eu não tinha noção do que era o Brasil. A gente não estudava a cultura. Só via na Copa do Mundo. Eu tinha uma 'pilha' por causa do Ronaldinho Gaúcho jogando no Barcelona. Todos os africanos torciam por ele", conta o ator.

Reprodução/Globo
Imagem: Reprodução/Globo
Em 2011, ainda em Curitiba, Musipere fez um curso de interpretação para a TV depois de ter feito um comercial e "ficar muito rico" com os R$ 4.000 de cachê. No curso, o diretor Alexandre Moretzsohn o convidou para fazer "Malhação", em 2013, onde também interpretou um haitiano.

Quando acabou a novela teen, o congolês voltou para Curitiba e foi vítima de um golpe. Um irmão que ficou no Congo foi enganado por uma pessoa que lhe prometeu levá-lo para a Austrália para estudar medicina. Musipere pegou os R$ 20 mil que tinha conseguido juntar com o trabalho na Globo e enviou para o irmão. Ficou sem nada.

Em 2016, Musipere encontrou outro trabalho em um restaurante, porém, dessa vez, não tinha onde morar. "Passei cinco dias dormindo na rua. Eu tinha amigos que tinham me ajudado bastante, mas fiquei com vergonha [de pedir ajuda novamente]. Tomava banho na casa deles. Mas prefiro dormir na rua aqui que viver a vida que vivi no Congo. Lá não sabíamos se ia cair na uma bomba na nossa casa e matar todo mundo".

Em 2017 Musipere também participou da novela "Novo Mundo" e, quando já se preparava para voltar para Curitiba novamente, sem perspectiva de como se manter no Rio, foi chamado para "Órfãos da Terra".

"Para mim a novela é uma mensagem. Espero que chegue a milhares de brasileiros, principalmente para que não tem empatia", diz ele, que conta também ter sofrido preconceito logo que chegou ao país. "Quando fiz 'Malhação' demorei duas semanas para assinar contrato porque só agora começaram a entender o que é um refugiado".