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"Não aguentou o baque", diz irmã sobre afastamento de Paulo Henrique

Marcela Ribeiro

Do UOL, no Rio

11/07/2019 10h43

Familiares e amigos de Paulo Henrique Amorim se reuniram na manhã de hoje na sede da Associação Brasileira de Imprensa, no Centro do Rio, onde ocorre o velório do jornalista, que morreu na madrugada de ontem aos 76 anos. A irmã do jornalista, Marília, que mora na França, veio ao Brasil para o velório, e estava muito emocionada.

"A gente se adorava. Ele era meu irmão mais velho. Éramos três, minha irmã também já faleceu. Ele era meu herói, uma pessoa muito corajosa, extremamente generoso. Corajoso no embate dele de não abrir mão das ideias dele, do que ele achava que tinha que ser dito, revelado, mostrado. Uma pessoa muito corajosa, muito íntegro nas convicções do trabalho dele. Adorava trabalhar", disse.

Ela também comentou o afastamento de Paulo Henrique do Domingo Espetacular, programa que apresentava desde 2006. A irmã disse que o apresentador já havia perdido outros espaços na mídia por conta de "pressão política".

"Falamos pouco porque estava na França. Ele teve vários casos de perder o lugar dele por pressão política. Ele escreveu pra mim e falou: 'Não se preocupe, você sabe que eu tive isso várias vezes e que eu aguento o tranco'", disse ela, que citou outros casos em que o apresentador teria sido afastado de suas funções supostamente por críticas a políticos.

"Me lembro que na Band ele tinha acabado de receber dois prêmios por dois programas [que apresentava]: um era o jornal das 20h e outro era um programa de entrevistas chamado Fogo Cruzado. Poucos dias depois do prêmio, ele perdeu o programa por pressão do [ex-presidente] Fernando Henrique. Ele já conhecia isso, mas claro que sempre é um baque forte. Parece que dessa vez foi demais e ele não aguentou".

A apresentadora Mylena Ciribelli se emocionou ao se lembrar da parceria profissional com Paulo Henrique Amorim: "Durante 10 anos fizemos parte das equipes que cobriram os eventos esportivos, começamos em Vancouver, no Canadá, nos Jogos de Inverno, foram muitos eventos".

"Sempre tudo era muito alegre e divertido com o Paulo porque a gente tinha uma troca bacana. A gente gostava de esporte, então a gente sempre falava de futebol, de gastronomia, ele me dava dicas de bons restaurantes em São Paulo, a gente sempre brincava muito. Estou bem mexida porque você não espera um colega que está sempre com você. Há duas semanas a gente estava brincando na TV... Enfim, a gente está aqui agora", disse ela, emocionada.

A historiadora Rosa Maria Araújo, amiga de longa data de Paulo Henrique Amorim e da mulher dele, Geórgia, jantou com o jornalista horas antes de ele morrer e contou que ele estava feliz.

"Nos últimos 15 anos convivemos muito porque o Paulo, mesmo morando em São Paulo, adorava o Rio, comprou um apartamento há três anos em Ipanema. Nós sempre jantávamos, íamos a shows de música", contou.

"Ele estava muito alegre com compras da livraria, disco da Nana Caymmi, do último livro do Garcia Rosa, discutimos política, falamos do João Gilberto, falamos do Brasil. Às 11h15 da noite levei-os em casa, deixei eles na porta. Quando cheguei pertinho, a Geórgia me ligou, achei que era pra comentar o jantar e falou: 'Rosa, preciso da ajuda de vocês. O Paulo caiu no banheiro e não consigo levantá-lo'. Ele infartou escovando os dentes assim que chegou".

Mesmo feliz com estada no Rio, a historiadora contou que Amorim estava indignado com o afastamento do Domingo Espetacular.

"Qualquer interferência no pensamento político e na liberdade de imprensa nos parece muito forte. A liberdade de imprensa é fundamental. Ele demonstrava uma certa indignação. Era uma pessoa muito aberta, que falava tudo o que pensava, como vários jornalistas e muito importante."

No local, foram colocadas mais de 15 coroas de flores, com as mais diversas homenagens, como das diretorias do SBT e da Record TV, e do ex-presidente Fernando Collor.

A cerimônia, que é aberta ao público, ocorre até as 15h. Originalmente, o corpo seria cremado, mas agora ele será sepultado no cemitério da Penitência, no bairro do Caju.

Amorim trabalhava na Record desde 2003, onde apresentou o Jornal da Record - 2ª edição, ajudou a criar o Tudo a Ver e esteve à frente do Domingo Espetacular até junho passado, quando foi afastado da revista eletrônica em um momento em que fazia fortes críticas ao governo de Jair Bolsonaro (PSL). Em nota, a Record informou que ele permanecia na casa à disposição para novos projetos.

A emissora divulgou uma nota de pesar em que relembrou a trajetória profissional do apresentador: "A Record TV lamenta profundamente o falecimento de Paulo Henrique Amorim e se solidariza com os amigos, familiares e admiradores. A todos, nossas sinceras condolências".

Amorim deixa uma filha, dois netos e a mulher, a jornalista Geórgia Pinheiro.

Trajetória

O jornalista estreou no jornal A Noite, em 1961, foi correspondente em Nova York da revista Realidade e trabalhou na Veja. Na TV, passou também por Manchete e Globo --onde também foi correspondente internacional--, Band e TV Cultura.

Em 1972, ganhou Prêmio Esso, um dos mais importantes do jornalismo brasileiro, na categoria informação econômica, pela reportagem "A renda dos brasileiros", publicada pela revista Veja.

Entre 2000 a 2004, o jornalista passou pelo UOL, onde foi âncora do UOL News, programa pioneiro de jornalismo em vídeo na internet brasileira.