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Mulherengo, agressivo e machista: galã de Por Amor não seria aceito hoje

Antônio Fagundes é Atílio em Por Amor (1997) - Reprodução/Globo
Antônio Fagundes é Atílio em Por Amor (1997) Imagem: Reprodução/Globo

Guilherme Machado

Do UOL, em São Paulo

04/09/2019 04h00

A novela Por Amor (Globo) está tendo uma trajetória gloriosa no Vale a Pena Ver de Novo. A reprise da novela —uma das mais famosas escritas por Manoel Carlos e que já havia feito sucesso em sua exibição original, em 1997— vem reconquistando o público. Entretanto, algumas discrepâncias entre o conteúdo da trama e a atual realidade brasileira também vêm sido percebidas pelos telespectadores.

Um ponto bastante comentado nas redes sociais diz respeito a Atílio, personagem de Antônio Fagundes que é considerado o galã da novela. O arquiteto, um dos protagonistas da história, já se mostrou possessivo e até mesmo cafajeste, o que lhe valeu a fama de machista nas redes sociais.

Mas como um personagem com características tão criticadas hoje pode ser o galã, o personagem garanhão por quem todas as mulheres suspiram? Segundo a professora da Escola de Comunicação e Artes da USP Maria Cristina Mungioli, isso está relacionado ao fato de que a novela forma o retrato de uma época específica.

"A novela tem essa relação direta com o cotidiano. O Manoel Carlos é um cronista, que apresenta os valores daquela sociedade, ele mostra o que as pessoas pensavam naquele tempo. Em 20 anos, muitos valores se alteraram e, hoje, a gente acha aquilo passado, fora do lugar", explica.

Atílio (Antonio Fagundes) e Helena (Regina Duarte) são o casal principal de Por Amor - Globo/Divulgação
Atílio (Antonio Fagundes) e Helena (Regina Duarte) são o casal principal de Por Amor
Imagem: Globo/Divulgação
Entretanto, Mari Cristina diz que ainda é possível perceber comportamentos fora da realidade atual em novelas contemporâneas, como em A Dona do Pedaço (Globo).

"A gente tem, em tramas atuais, posicionamentos machistas", afirma, citando o personagem Agno (Malvino Salvador). "Você vê o que ele faz com a mulher. Não precisaria depreciar tanto a figura feminina. E depois, na história, há um contra-discurso, alguém que argumenta e não aceita."

Ela também destaca que as críticas a Por Amor nas redes sociais não significam necessariamente que a maioria do público discorde de comportamentos mostrados na trama. "O que me chama a atenção é a audiência que a novela tem, está sendo um sucesso. Ela tem um público cativo. Não sei se é por saudosismo apenas."

Intérprete de Atilo, Fagundes concorda que hoje os protagonistas de novela são muito mais próximos da realidade. "As novelas hoje mostram mais o homem como ele é. O homem como era retratado antigamente [nas novelas] é que não existia. Aquele homem perfeito, imaculado, o herói, que não erra nunca. Acho isso bom na novela contemporânea: mostrar as máscaras de cada um."

Veja por que Atílio não seria galã em uma novela atual:

Destruidor de corações

Reprodução/Globo
Imagem: Reprodução/Globo

Atílio é uma espécie de Don Juan de Por Amor. O personagem já ficou com boa parte do elenco feminino da novela e não mostrou muito respeito por nenhuma de suas companheiras femininas, tendo um estilo possessivo.

Um exemplo disso, foi como ele ficou com Flávia (Maria Zilda Bethlem), melhor amiga de Helena (Regina Duarte), sua ex-mulher, sem muita preocupação com os sentimentos dela. Pior ainda: a ira dos personagens pela situação caiu quase toda em cima de Flávia, transformando-a na grande traidora da história e demonstrando a lógica machista da época.

Manipulador

Reprodução/Globo
Imagem: Reprodução/Globo

Atílio tinha certeza de que Helena estava escondendo algo dele. Foi quando descobriu que a mulher guardava um diário. Ele poderia ter respeitado o espaço dela, mas ameaçou a mulher. Disse que ou ela abria o diário e lia suas intimidades, ou o casamento deles acabava ali.

Para completar, ele ainda apertou os braços dela e a empurrou na cama.

Discurso bonito, atitudes nem tanto

Reprodução/Globo
Imagem: Reprodução/Globo

Atílio tem um discurso politicamente correto. Em uma conversa com Flávia, por exemplo, ele disse que muitas vezes os homens não sabem apreciar e ver as qualidades das mulheres, e citou o exemplo de como ele mesmo já fez isso. Mas, em diversas ocasiões, as palavras dele foram só isso: palavras.

Enquanto falava com Isabel na sauna, por exemplo, ele declamou a seguinte frase: "Você é maravilhosa, eu te desejo. Mas você coloca sempre o trabalho em primeiro lugar. A felicidade está na sua vida profissional". Quando ela começou a chorar, dizendo que ele estava sendo cruel, ele continuou. "Agora a gente vai entrar naquela fase de se magoar, não quero isso de jeito nenhum."

Tarde demais.

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