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A Dona do Pedaço


Atriz de A Dona vê falta de patrocínio para cultura como censura: "É grave"

Ellen (Rosane Gofman) é amiga e trabalha com Maria da Paz - Estevam Avellar/Globo
Ellen (Rosane Gofman) é amiga e trabalha com Maria da Paz Imagem: Estevam Avellar/Globo

Carolina Farias

Do UOL, no Rio

11/09/2019 04h00

No ar em A Dona do Pedaço como Ellen, a fiel escudeira de Maria da Paz (Juliana Paes), Rosane Gofman comemora o momento da carreira, o qual define como o melhor. Além de estar na TV com a novela das 21h, a atriz de 61 anos está no teatro com a peça Eu Sempre Soube... —monólogo que aborda a relação de mães com seus filhos LGBTs. Mas, para colocar a peça em cartaz, ela teve que contar com a ajuda especial do autor de novelas Aguinaldo Silva, já que não conseguiu patrocínio.

"Estou fazendo sem dinheiro nenhum. Quando recebi o texto, fiquei tão apaixonada que eu tinha que fazer aquilo e estamos metendo a cara e fazendo. Existe uma pessoa muito importante, porque tivemos gastos para pagar nossa primeira temporada no Dulcina [teatro no centro do Rio], que foi quem ajudou a pagar todas as coisas que virariam dívidas em nosso caminho, que foi o Aguinaldo Silva", contou Rosane sobre o amigo em entrevista nos bastidores das gravações da novela, nos Estúdios Globo.

Depois da ajuda inicial para estrear, em julho, a peça conseguiu se manter e fazer uma turnê pela própria cidade do Rio com o dinheiro da bilheteria.

"Aguinaldo foi um parceiraço, entendeu nossa necessidade e a importância da peça em cartaz. Se não fosse ele, não teríamos continuado. Conseguimos seguir sem dívida nas costas. Agora estamos por bilheteria, menos mal. [Nesse momento] não tem outro caminho, tem que fazer, do jeito que der para fazer. Temos que falar coisas transformadoras. Vivi o finzinho da ditadura e a gente fazia espetáculo com censor, mas fazíamos espetáculos que pudessem mexer, transformar."

Para a atriz, a atual falta de patrocínio e de outros tipos fomentos para produções culturais pode ser encarada como uma nova forma de censura. Sob o governo de Jair Bolsonaro (PSL), o Ministério da Cultura foi extinto em janeiro e as regras da Lei Rouanet, principal ferramenta de financiamento cultural no país, alteradas.

"A gente já sabia. Não posso acusar sem ter provas, mas a gente sabe de histórias absurdas que estão acontecendo. Tem coisas veladas que a gente sabe, coisas miúdas que se tornam gigantes, e estão acontecendo com colegas que ainda não falaram publicamente, mas que são aterrorizantes para a cultura. É muito grave o que está acontecendo. Mas sempre fomos resistentes não no sentido político, mas de entender nossa função e cair dentro dela enquanto formação da sociedade."

A crítica sobre o momento atual que o setor cultural enfrenta é compartilhada outros outros artistas, também da Globo, como Antonio Fagundes, que, antes de estrear em Bom Sucesso, criticou o desmanche sofrido nessa área. Outra colega que também está em cartaz no teatro com Antígona, no Rio, até dia 29, Andréa Beltrão, que estreia nas telas do cinema ainda neste mês como Hebe, também já falou sobre a vantagem de ser contratada na TV e assim custear despesas de espetáculos.

No próximo fim de semana, o espetáculo de Rosane estará em cartaz no teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande, zona oeste do Rio. "Estamos indo para a periferia, que foi uma exigência que eu fiz. Não tem como falar desse assunto só aos meus amigos da zona sul [área nobre do Rio], no centro. Temos que falar para todos, porque as pessoas precisam pensar, ser esclarecidas e nós também somos responsáveis por esclarecer."

Na peça, escrita e dirigida por Márcio Azevedo, Rosane interpreta a jornalista Majô Gonçalo, em sua primeira aparição pública para falar sobre seu livro, que conta a história de seu amor pelo filho gay.

"Me sinto em momento muito importante de minha carreira, principalmente por causa de Eu Sempre Soube... e estar fazendo A Dona do Pedaço, que é sem dúvida o que me ajuda a fazer a peça. Walcyr Carrasco [autor da trama] também é um grande colaborador. Se ele não me desse esse personagem, eu não tinha condições de entrar em cartaz."

Apesar dos perrengues que passou para colocar o espetáculo em circulação, a atriz comemora os resultados.

"O retorno do público é muito mais rico do que qualquer patrocínio. Tenho 40 e tantos anos de carreira e não fiz nada de que me orgulhasse tanto quanto Eu Sempre Soube... Uma das coisas mais legais que fiz, virou missão em minha vida. Se pudesse mexer com uma pessoa a cada sessão, já era transformador e valeria a pena. É genial."

Rosane Gofman em cena de Por Amor como a empregada Tadinha - Reprodução/Globo
Rosane Gofman em cena de Por Amor como a empregada Tadinha
Imagem: Reprodução/Globo

Rosane, que é mãe de Yuri, 37, Kauê, 35, e Daniel, 31, diz que tem um sobrinho gay, além de muitos amigos, mas não imaginava situações vividas por homossexuais."Vemos os gays felizes, alegres, mas existem histórias por trás, de aceitação, da família. Contamos casos de pai e mãe que matam seus filhos por conta da homossexualidade. É fundamental que se fale nisso, que transformem, que as pessoas entendam que não é isso, que o amor é fundamental, que nossos filhos são as pessoas mais importantes das nossas vidas."

Surra

Rosane está se divertindo com o trabalho na novela. Nesse momento da trama, ela vive sozinha com Josiane (Agatha Moreira), que deu um golpe em Maria da Paz, na mansão. A atriz conta que o público anda inconformado com as maldades da jovem contra a boleira.

"Única coisa que pedem é para eu dar surra na Josiane. É uma personagem muito má. É o que mais incomoda. Tem muita gente assim, ruim em todos os sentidos. Ela no caso é psicopata, uma doença, não só maldade."