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Filme mostra Hebe livre e sem censura: "Vivemos num mundinho de merda"

Felipe Pinheiro

Do UOL, em São Paulo

25/09/2019 13h39

Hebe Camargo era conhecida do público pelo jeito expansivo e por sua eterna "alegria de viver" --que se traduzia pela forma positiva como ela encarava a vida e que acabou virando um jargão pessoal. Mas, para entender quem era a apresentadora, cuja história se mistura à da TV brasileira, é preciso ir além da persona de posicionamentos por vezes duros, dona de joias exuberantes e que recebia todo tipo de convidado em seu famoso sofá.

É o que propõe o filme Hebe - A Estrela do Brasil, que chega aos cinemas amanhã (26). Na cinebiografia dirigida por Maurício Farias e protagonizada por Andréa Beltrão, os espectadores são levados aos anos 80 em um recorte breve, porém marcante, da vida da apresentadora.

A Hebe destemida, que lutava contra a censura, era também uma mulher sensível, mãe de um menino e que viu seu casamento desabar por conta de um marido cego pelo ciúme. É essa mulher de contrastes, intensa e engajada que os espectadores descobrirão com o longa-metragem.

Casamento abalado

Dercy Gonçalves, Lélio Ravagnani e Hebe Camargo em festa - Reproduçã
Dercy Gonçalves, Lélio Ravagnani e Hebe Camargo em festa
Imagem: Reproduçã
O casamento de Hebe com o empresário Lélio Ravagnani é uma das partes mais emocionantes do filme. Ao mesmo tempo em que batia de frente com a ditadura e era perseguida por um governo que não tolerava seus comentários vistos como incômodos, a apresentadora precisava lidar com um marido excessivamente ciumento e possessivo, interpretado por Marco Ricca.

É nesse contexto que Roberto Carlos (Felipe Rocha) aparece no filme. Hebe sempre foi fã do cantor, e a participação dele no programa da apresentadora é o estopim para irritar Lélio, que encontrava refúgio na bebida. Disposta a salvar seu casamento, ela o faz prometer que vai conter seu ciúme desmedido. Mas não é o que acontece.

Em uma outra oportunidade, após ver Chacrinha e Hebe na televisão, o empresário tem um ataque ainda mais violento e parte para cima da apresentadora, chegando a rasgar seu vestido. Os dois chegaram a se separar, mas se reconciliaram posteriormente e ficaram juntos até a morte dele, em 2000.

Morte do amigo Carluxo

Hebe não silenciava diante do que considerava injusto e fazia questão de usar a sua influência para defender as causas nas quais acreditava, entre elas a do fim do preconceito contra homossexuais. Um dos melhores amigos da apresentadora era o seu maquiador e cabeleireiro, Carluxo.

Carluxo adoece e é internado em um hospital público. Em uma visita, Hebe diz que pode oferecer ao amigo um tratamento mais adequado, mas é surpreendida quando ele revela que tem Aids. "Doença de bicha e drogado. Quem se importa com a gente?", afirma Carluxo para a apresentadora, que diz se importar com ele.

O maquiador não resiste, e a dama da TV dedica um programa em sua homenagem. Religiosa, ela pede a todos do estúdio que se levantem para rezar um Pai Nosso —mas um padre, no sofá entre os convidados, se mantém sentado. A apresentadora, nos bastidores, não se contém e critica o sacerdote: "Que diferença faz com quem ele [Carluxo] se deita? Estamos vivendo num mundinho de merda".

Andréa Beltrão é a protagonista de Hebe - A Estrela do Brasil - Divulgação/Warner Bros. Pictures.
Andréa Beltrão é a protagonista de Hebe - A Estrela do Brasil
Imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures.

Pavor da Globo e trote de Silvio Santos

A tentativa de controle por parte do governo federal levou a apresentadora a deixar a Rede Bandeirantes nos anos 1980, fato que inicia a narrativa de Hebe - A Estrela do Brasil. Dona de uma personalidade forte, que inspirava preocupação nos governantes, Hebe se recusa a fazer programas gravados e, num gesto de protesto contra a tentativa de censurá-la, joga o microfone ao chão.

No hiato entre a saída da Band e o acerto com o SBT, Hebe aparece em um momento de descontração com as amigas Lolita Rodrigues e Nair Bello. Elas falam sobre o futuro profissional da apresentadora, e as amigas opinam que ela deveria trabalhar na Globo, mas ela prontamente se mostra resistente à ideia.

"Tenho pavor da Globo. Não vou poder beber nem dizer meu puta que o pariu", afirma a apresentadora, com medo de uma eventual mordaça da emissora.

Como todo o mundo sabe, ela acaba assinando contrato com o SBT, mas um detalhe curioso é que a apresentadora chegou a desconfiar das ligações de Silvio Santos, interpretado por Daniel Boaventura. Hebe acreditou que estava sendo vítima de um trote, até que foi convencida pelo sobrinho de que a proposta daquele que se tornaria o seu patrão era real. Ela aceita as condições de Silvio e vai para o SBT para ganhar metade do que faturava na Band, somado a 30% sobre patrocínio e o mais importante: liberdade para fazer o programa do seu jeito.

Os seios de Dercy Gonçalves

Dercy Gonçalves é retratada no filme Hebe - A Estrela do Brasil - Divulgação
Dercy Gonçalves é retratada no filme Hebe - A Estrela do Brasil
Imagem: Divulgação
Hebe recebia convidados controversos em seu sofá e, até por isso, era vista com temor por setores conservadores da sociedade. Um desses momentos é exemplificado no filme com as participações de Dercy Gonçalves e Roberta Close.

A apresentadora pede a Roberta que ela explique se é homem ou mulher e, bastante didática, a convidada conta que nasceu com o corpo de homem, mas que na verdade é uma mulher transgênero. A apresentadora diz que ela é a mulher mais bonita do Brasil, e Dercy, então, exibe os seios para a plateia.

"A mulher mais bonita do Brasil sou eu", diz a atriz e humorista.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado em uma primeira versão deste texto, Marcello é filho de Hebe Camargo com o empresário Décio Capuano, e não com Lélio Ravagnani. O texto foi corrigido.

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