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Repórter é xingada de 'macaca' por funcionário público no Rio

A jornalista Julie Alves, alvo de agressão - Arquivo Pessoal
A jornalista Julie Alves, alvo de agressão Imagem: Arquivo Pessoal

Tatiana Campbell

Colaboração para o UOL, no Rio

25/09/2020 11h48

Dois jornalistas da Rede CNT sofreram agressões físicas e verbais por parte de um funcionário público da área da saúde do município de Japeri, na Região Metropolitana do Rio. A repórter Julie Alves e o cinegrafista Vangelis Floyd gravavam um material para o programa "Fala Baixada", voltado especificamente para notícias da Baixada Fluminense, quando foram abordados.

A jornalista contou ao UOL como tudo aconteceu. De acordo com ela, eles foram realizar uma matéria sobre um lixão, que fica ao lado do Posto de Saúde do Mucujá, quando o agressor, um dos diretores da unidade, começou a abordagem já de forma truculenta. A ação foi registrada por testemunhas em vídeo, ao qual o UOL teve acesso.

"Nós já estávamos terminando de produzir o material, o cinegrafista já tinha até desligado a câmera, quando chegou esse homem. Ele começou a gritar com palavrões 'por*, caral*, quem mandou vocês gravarem aqui?'".

Julie conta que o questionou, disse que não precisava de autorização e conhecia seus direitos. "Foi aí que ele falou 'sabe do seu direito o que, macaca?'. Logo em seguida, o cinegrafista questionou o modo como ele me tratou e o homem o mandou calar a boca e o chamou de gordo."

A equipe continuou registrando o que estava acontecendo. "Quando ele percebeu, veio na minha direção para bater no meu rosto. O cinegrafista foi me proteger. O homem acabou batendo na minha mão e meu microfone caiu. Ele foi então em direção ao cinegrafista e deu um chute nele. Algumas pessoas que estavam no local foram segurá-lo", conta a repórter.

Julie ficou muito nervosa com a situação. Depois do ocorrido, os dois tiveram a pressão aferida no posto de saúde e depois foram medicados em uma policlínica da região. Em seguida, compareceram à delegacia para registrar um boletim de ocorrência.

"Nunca passei por isso, nunca imaginei passar por isso, só queria fazer meu trabalho e eu ainda estou chateada e triste. Uma situação muito desagradável. Ele é preto, eu sou preta, e partir de um preto uma atitude dessas, e tão truculenta, me deixou muito mais indignada", desabafa a repórter.

Funcionário exonerado

Procurada pelo UOL, a secretária municipal de Saúde de Japeri, Rosilene Moraes, afirmou que o funcionário foi exonerado no mesmo dia: "Eu não assisti à cena. Estava em reunião com subsecretários realizando o documento de flexibilização da cidade.
Hoje, solicitei as imagens de nossas câmeras de segurança. Ontem fomos pegos de surpresa e na hora todos nós descemos para ver do que se tratava e um dos subsecretários correu para afastar o bate boca."

Rosilene contou que imediatamente levou os dois para a sala dela e os acolheu. "Também demos os primeiros socorros. Imediatamente fiz o ofício de exoneração e enviei para publicação. Não compactuamos com violência, este episódio, nunca aconteceu aqui. Nunca tomei ciência de algo desse jeito."

Ainda que considere o fato isolado, a secretária pediu desculpas. "Ele agiu por conta própria e deve responder por seus atos se assim for determinado. Da minha parte, da equipe e do prefeito só resta pedir desculpas e exonerar o servidor, fato que já fizemos ontem mesmo."

Investigações

O delegado responsável pelo caso, Flávio Ferreira, conversou com o UOL e disse que o suspeito pode pegar mais de quatro anos de prisão, por injúria qualificada, ameaça e lesão corporal. O homem ainda será chamado para prestar depoimento.

"O caso foi registrado ontem, ela foi ouvida e foi encaminhada para o IML (Instituto Médico Legal). Futuramente ele e demais testemunhas serão chamados para prestar depoimento. Vou ver se há imagens do cinegrafista e vamos pedir as do próprio posto."

A defesa do suspeito não foi localizada pela reportagem. O espaço está aberto para que ele possa se manifestar.