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Joanna de Assis faz tratamento para trombofilia após aborto espontâneo

Retrato da jornalista Joanna de Assis - Gigi Kassis/UOL
Retrato da jornalista Joanna de Assis Imagem: Gigi Kassis/UOL

Colaboração para o UOL, em São Paulo

21/12/2020 13h55

No dia 11 de novembro, a repórter Joanna de Assis surpreendeu seus seguidores ao contar que aquela data marcava um ano do dia em que tinha perdido seu primeiro filho, após um aborto espontâneo. "Filho, eu sempre vou amar você. Você sempre fará parte de mim. E eu, ao dividir isso, queria que as mãezinhas e paizinhos de estrelinhas e arco-íris não se sentissem tão sozinhos nessa hora. Não tem que existir vergonha, medo. Temos que aceitar essa dor e seguir", escreveu na publicação em seu Instagram.

Em entrevista para a Glamour Brasil, Joanna falou sobre o processo de luto, revelou ter recebido um diagnóstico de trombofilia, uma das possíveis causas que levaram a jornalista a perder o bebê.

A repórter estava grávida de oito semanas quando notou um sangramento. Ela estava no trabalho, dentro da Rede Globo, em São Paulo. "Lembro que quando eu cheguei no hospital, fiz um ultrassom e a primeira coisa que a atendente me disse foi: 'você tem certeza de que você tá grávida, porque eu não vejo nada aqui'. Imagina você ouvir isso? Eu estava com sangue até o calcanhar. Eu falei: tenho certeza. E ela disse que não via absolutamente nada. É muito traumático", relembrou.

Até conseguir falar sobre o luto e postar o ocorrido nas redes sociais, Joanna precisou percorrer um longo e árduo caminho. Mas ao ler as respostas que recebeu de outras mulheres, ficou com vontade de ajudar e apoiar outras mães que perderam filhos em abortos espontâneos. "Recebi uma enxurrada de mensagens, principalmente de homens, que é a base das pessoas que eu tenho por causa do futebol. Achei muito fofo de ver a parte masculina da coisa, que fica um pouco em segundo plano. Ver como eles lidavam com a dor. Minha intenção era homenagear, dar um abraço e falar: olha, a gente também passou por isso, sempre vai ter a estrelinha, você não tem culpa. Eu nos primeiros meses me culpei demais. Tudo era motivo para achar que eu tinha causado aquilo. Comi alguma coisa errada, fiz exercício demais, e não é isso. Então, queria que as mulheres tirassem um pouco dessa carga pesada que fica depois de um aborto, que fica em cima da gente, não tem jeito", comentou a jornalista. "Eu achei muito positivo esse momento de falar do aborto, porque eu vi que muitas pessoas começaram a se abrir sobre isso e tirar um pouco da culpa. E se eu puder ajudar com a questão da trombofilia e a falta de informação da mulher, por que não? Vamos abraçar isso também", completou.

Ao procurar sua ginecologista, Joanna relembra o que ouviu: "Ela falou assim: 'Isso faz parte. Estatisticamente é normal, mas tenta de novo. Espera alguns meses e tenta de novo'. E foi assim, muito simples. Eu sentia que tinha que ser mais do que isso. Poxa, não vai me pedir nenhum exame? Não vai investigar o que aconteceu? A gente vai ficar nessa de 'você é nova ainda'? E eu não sou nova! Eu tinha 38 anos. Então, aquela frase que eu ouvi não combinou com o que eu estava sentindo", explicou à revista.

Ao sair do consultório, Joanna ligou para uma amiga que tinha sofrido um aborto espontâneo anos antes para pedir perdão por não ter entendido sua dor da perda na época: "Eu estava no meio da minha dor e lembrei da dor dela de dez anos atrás. E toda vez que eu penso nisso fico muito emocionada. Foi a primeira coisa que eu pensei: como eu estava errada, é uma dor insuportável, dói demais. Eu não tinha ideia disso". Isso aconteceu, segundo a repórter, porque o luto da mulher que sofre um aborto espontâneo muitas vezes não é respeitado. "Travei muito essa luta. Mas eu fui essa pessoa lá atrás, que não entendia a dor. Reconheci que fui essa pessoa e evoluí demais".

Ainda em luto, Joanna procurou um especialista em fertilidade para realizar uma série de exames. "Tive um aborto, foi muito traumático. Não sei como seria engravidar de novo, mas eu precisava entender o que aconteceu comigo. Ele pediu exames que eu nunca tinha ouvido falar e eu fiquei extremamente decepcionada e chocada com a falta de informação que nós mulheres temos", comentou. A repórter acredita que toda mulher em idade fértil, mesmo sem a intenção de engravidar, deveria saber mais sobre alguns exames como o Anti-Mulleriano, que analisa a reserva ovariana. "Por que nunca nenhum ginecologista tinha me pedido aquele exame? É uma informação importante. Fui perguntar para as minhas amigas de 30 a 40 anos se alguma delas tinha ouvido falar desse exame e nenhuma tinha. Você pode fazer e dar que o seu hormônio anti-mulleriano está baixo. Ou seja, você está correndo contra o relógio mais ainda para engravidar. Ou pode dar super alto e você pensar: tenho 32 anos, tô tranquila. O meu estava muito baixo, mesmo para uma mulher de 38 anos", contou.

Além dos níveis hormonais em baixa, a jornalista também descobriu miomas no útero e recebeu o diagnóstico de trombofilia, que pode ser uma das causas para o aborto: "Eu tenho uma condição genética. Que eu, na verdade, nunca pensei que pudesse causar aborto, mas eu sabia que na família do meu pai tinham duas pessoas que tem trombose e na família da minha mãe tem uma. Então, a chance de eu ter alguma alteração genética é muito alta".

A trombofilia é a condição médica definida pela tendência de uma pessoa em formar trombos, ou seja, ter um evento chamado trombose. Essa tendência pode ser hereditária, ou seja, transmitida pelos seus pais, ou adquirida, quando o paciente não nasceu com aquele risco. Mas pode desenvolver trombose por fatores externos, como o uso de alguns medicamentos ou o hábito de fumar. Porém, o fato de ter trombofilia não quer dizer que a pessoa desenvolverá trombose ou abortar, apenas quer dizer que o risco é maior.

Hoje, Joanna faz um tratamento com enoxaparina sódica, conhecido como "picadinha do amor". Ela está no processo de tentar engravidar novamente e precisa tomar a medicação desde antes da gravidez acontecer para que não ocorra nenhuma formação de trombo. A enoxaparina sódica é aplicada por injeção na barriga todos os dias. "É meu marido que aplica. Meu marido, que morre de medo de agulha, virou um excelente enfermeiro. Falei pra ele: 'não tenho a menor condição de aplicar isso sozinha, então, você aprenda aí, que você vai precisar me ajudar'. No começo, doía demais, ficava cheia de hematomas. Fui assistindo vários vídeos no YouTube de como fazer para não doer tanto, não ficar roxo. Agora, a gente já tá PhD na aplicação", brincou.

As aplicações custam até R$ 1500 por mês para a jornalista. A boa notícia é que o tratamento para trombofilia está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e o medicamento é disponibilizado nas farmácias populares. Porém, algumas vezes há falta do remédio, pois ele também é usado em casos graves de pacientes de Covid-19. "Me sinto privilegiada de poder comprar essa medicação, mas fico monitorando (no SUS) para ver e comento com meu marido: a gente consegue comprar na farmácia, mas e quem não consegue? E a mãe que precisa, que já está grávida, precisa dessa medicação, corre risco, como fica? Ela fica na mão, porque não tem".