PUBLICIDADE
Topo

Karol Conká diz que Nego do Borel teve fala transfóbica; entenda por que

Nego do Borel foi transfóbico, segundo Karol Conká; entenda - Reprodução/Instagram
Nego do Borel foi transfóbico, segundo Karol Conká; entenda Imagem: Reprodução/Instagram

Caio Coletti

Do UOL, em São Paulo

26/01/2021 16h18Atualizada em 26/01/2021 18h33

Karol Conká já causou em seu primeiro dia no "BBB 2021", ao recontar uma interação com Nego do Borel e acusá-lo de transfobia.

Em conversa com outros brothers na cozinha, ela disse que o cantor lhe perguntou: "Você é igual essa galera estranha? Você é homem ou mulher? Porque eu não sei, né?".

Karol ainda contou que, ao ouvir a pergunta, para "provar" que era mulher, colocou a mão de Nego do Borel em suas partes íntimas. Ela decretou: "Você tem que tratar o escroto com escrotidão".

O UOL entrou em contato com Nego do Borel, mas ainda não obteve resposta.

Mas por que isso é transfóbico?

Karol Conká e Thaís conversam na cozinha - Reprodução Globoplay - Reprodução Globoplay
Karol Conká e Thaís conversam na cozinha
Imagem: Reprodução Globoplay

Symmy Larrat é uma mulher trans e presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos). Ela disse ao UOL que a problemática da história contada por Karol começa com o uso da palavra "estranha".

Por que somos estranhos? Não somos estranhos. Estranho é uma pessoa se preocupar se a outra quer se chamada de ele, ela, Maria ou João. E, quando isso afeta muito a vida da pessoa, aí sim que é estranho."

Marcelo Hailer Sanchez, doutor em Ciências Sociais e pesquisador do Inanna, núcleo de pesquisa sobre sexualidades da PUC-SP, disse inclusive que a fala de Nego do Borel é ofensiva a toda a "sopa de letrinhas" LGBTIA+.

Isso aí é um comentário transfóbico, lesbofóbico, homofóbico, porque coloca as orientações sexuais e identidades de gênero não normativas no lugar da estranheza, que é o que o discurso normativo faz correntemente: tirar essas vidas da 'normalidade', e colocando na esfera da anormalidade. O estranho, o esquisito, o monstro. É uma fala horrorosa, preconceituosa. Atinge todas as pessoas que não vivem seguindo aquilo que é tido como normal. E esse discurso é padrão"

Genital define o gênero?

Outra problemática é a noção de que os órgãos genitais determinam se a pessoa é um homem ou uma mulher. Symmy declara:

Quando a gente pergunta 'você é homem ou mulher?', ou quando pergunta 'é mulher mesmo?', 'é mulher de verdade, homem de verdade?', a gente está diminuindo a outra pessoa, deixando de reconhecer a sua identidade de gênero. Quando a gente faz isso, a gente faz com que a pessoa não queria ficar no ambiente. Quem fica em um ambiente onde é recusada, rejeitada, oprimida? Ninguém."

Alexandre Bogas Fraga, diretor executivo da organização Acontece - Arte e Política LGBTI+, de Florianópolis, complementou:

Realmente, como a Karol diz, as pessoas não têm que se preocupar se você é trans ou não é, é gay ou não é... Principalmente a questão da genitália, que continuam vinculando [ao gênero]. 'Você é bonita, curti você, mas vai que você é trans'. Acho que foi nessa pegada que ela colocou ali."

No entanto, ele apontou que a "solução" encontrada por Karol também reproduziu preconceitos: "É a questão da vagina, que só quem tem vagina que não é trans. Fica uma dubiedade muito grande".

É crime?

Dra. Bruna Andrade, advogada especialista em direito LGBTQIA+ e fundadora da startup Bicha da Justiça, disse ao UOL que a declaração de Nego do Borel pode ser enquadrada como discurso de ódio.

"Isso é sim um discurso de ódio direcionado à população trans, e por ser um discurso de ódio é sim crime de transfobia, que foi equiparado pelo STF [Supremo Tribunal Federal] ao crime de racismo, previsto na legislação específica desde 2019."