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'Se vestir de mulher não é piada': por que os homens do 'BBB 21' erraram

BBB 21: Treta entre Caio e Lumena marca o dia na casa - Reprodução/Globoplay
BBB 21: Treta entre Caio e Lumena marca o dia na casa Imagem: Reprodução/Globoplay

Daniel Palomares

Do UOL, em São Paulo

28/01/2021 04h00

Habemus a primeira treta do "BBB 21"! O que era para ser só uma ação publicitária acabou virando uma discussão generalizada na casa mais vigiada do Brasil, com direito a muitas lágrimas.

Ao participarem de esquema promovido pela Avon, os brothers e sisters foram maquiados. Só que o primeiro grupo de rapazes a participar da ação, incluindo Fiuk, Projota e Caio, decidiram começar a brincar, imitando trejeitos afeminados, e acabaram incomodando Lumena.

Tudo culminou numa grande conversa com a casa quase inteira, onde a psicóloga e DJ baiana conversou com Caio e explicou seu incômodo ao ver os homens da casa imitando mulheres.

Em mim tocou em um lugar muito violento, sei que você não tem amiga travesti, amigo trans. Então você não viu o que eu vi

Dentro da casa, algumas pessoas, como Karol Conká, acharam a reação da sister exagerada. Nas redes sociais, o público também se dividiu. Afinal, o que pensar disso tudo?

Maquiagem x Fantasia

Lucca Najar é homem trans e youtuber, focado em desmistificar a realidade das pessoas trans no Brasil. Para ele, não existe problema em um homem usando maquiagem. "Maquiagem é para todo mundo. Não interessa gênero ou sexualidade. Historicamente, associamos com as mulheres. Mas hoje, existem vários homens que usam maquiagem, esmalte nas unhas, etc", pondera, em papo com o UOL.

Ariane Senna concorda. Mulher trans negra, psicóloga e mestranda em estudos étnicos, ela celebra a maquiagem como revolução, mas explica que o ser mulher não deve virar fantasia. "Maquiagem deve ser para todos. Temos que desmistificar. O que não deve ocorrer é essa fantasia. Essa ridicularização da mulher". E para os dois, foi isso que rolou no "BBB 21".

É como se a realidade de mulheres trans, travestis, de um gay afeminado fosse uma piada. Se vestir de mulher não é piada. O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo e a maior parte disso é de mulheres trans. Na cabeça deles, é só uma piada, mas reforça um preconceito. Tem pessoas que morrem ou são agredidas por serem quem elas são.

Lucca Najar

"É por isso que nós, mulheres trans, não conseguimos sair em paz nas ruas, sem ouvir piada. Isso gera o repúdio ao feminino. A gente vive uma pandemia no qual o número de feminicídios e transfeminicídios tem aumentado. Ao mesmo tempo que se mata, se instiga a ridicularizar esse corpo", completa Ariane, que aponta que a maquiagem assume uma importância muito distinta na vida de mulheres trans e travestis.

Os homens performam feminilidade com a maquiagem, tiram e voltam para a vida cis-hétero "normal". O problema é para quem não tem como sair disso. Precisam se maquiar diariamente para esconder traços que não querem mostrar. É crucial para botar a cara no sol!

Ariane Senna

Lumena exagerou?

A ideia de que Lumena teria exagerado ao demonstrar seu incômodo também é rejeitada por Lucca e Ariane. Até hoje, em 21 edições do "Big Brother Brasil", somente uma participante era trans: Ariadna Arantes, do "BBB 11". Na ausência de outros transgêneros ou travestis na casa, aliados como Lumena são muito importantes.

Ela vai pagar um preço por isso. Pode perder seguidores. Se ela sair por essa pressão, que saia com a cabeça erguida. São pequenas atitudes como essas que podem ser sementes para a mudança. Eu faria o mesmo que ela. Nós, mulheres negras e LGBTs, não temos como descansar. O racismo e a LGBTfobia não descansam.

Ariane

Lucca defende que apontar uma atitude errada ou questionável em outra pessoa não tem intenção de transformá-la num monstro. Os homens erraram, mas precisam estar dispostos a aprender.

Não podemos esperar que uma pessoa trans esteja na casa para falar isso. A Lumena foi sensata, cirúrgica. Já que ela tem esse conhecimento, já que tem amigas trans e travestis, ela sabe o que pode falar. De forma alguma, foi exagerado. Todo mundo ali está querendo tirar o dele da reta. Precisamos falar para que não aconteça.

As reações contra Lumena nas redes sociais também devem ser repensadas, de acordo com Caio. "No ano passado, tínhamos mulheres brancas falando de machismo e sendo chamadas de fadas sensatas. Quando uma mulher preta fala disso, vira a militante chata?", questiona.

Esperança para o futuro

Apesar de desagradável, Lucca e Ariane esperam que a discussão no "BBB 21" sirva para abrir a cabeça dos espectadores e também causar uma reflexão nos participantes. Fiuk e Projota, por exemplo, demonstraram arrependimento pelas atitudes dentro da casa. Amanhã, no dia 29 de janeiro, se celebra o Dia da Visibilidade Trans no Brasil.

"O BBB é uma janela muito grande para se alcançar um público de massa. É muito importante que isso chegue na casa das pessoas. As pessoas abertas e dispostas vão debater o assunto. Precisamos levar diversidade", defende Lucca. "A minha esperança é que os espectadores possam refletir sobre tudo isso", concorda Ariane.

Mas ainda falta mais: onde estão os participantes trans do "BBB"? Lucca e Ariane lamentam a falta de representatividade dentro do reality mais famoso do país.

Ari - Divulgação/TV Globo - Divulgação/TV Globo
Ariadna até hoje ainda é a única participante trans da história do "BBB"
Imagem: Divulgação/TV Globo

A Globo ainda não está preparada para vender e expor uma imagem transexual ou travesti. Parece que a Globo tem medo. É ciência minha de que muitas mulheres trans e travestis já se inscreveram para o 'BBB'. Por que essas pessoas não são chamadas? Que tipo de perfil a Globo quer vender?

Ariane

Quando as pessoas começam a conviver com as pessoas trans, elas mudam a forma de pensar, falar, agir. Queremos nos ver representados e no "BBB" não é assim. Nós, pessoas trans, estamos sempre à margem. Precisamos ocupar esses espaços de protagonismo na nossa história.

Lucca