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Repórter da CNN diz ser alvo de racismo no clube Pinheiros

Jairo Nascimento, jornalista da CNN Brasil - Reprodução/Instagram
Jairo Nascimento, jornalista da CNN Brasil Imagem: Reprodução/Instagram

Gilvan Marques

Do UOL, em São Paulo

21/03/2021 17h58Atualizada em 22/03/2021 12h55

O repórter da CNN Brasil Jairo Nascimento disse na TV neste domingo (21) que foi alvo de preconceito racial ao realizar uma reportagem no clube Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Segundo a emissora, a matéria, que falaria sobre atletas olímpicos durante a pandemia da covid-19, foi cancelada e um boletim de ocorrência foi registrado.

À CNN o presidente do clube, Ivan Castaldi Filho, disse que apura todas as denúncias recebidas e que eventuais desvios de conduta são corrigidos.

Segundo o repórter, a equipe já estava identificada no Pinheiros, pronta para a gravação, quando foi abordada por uma diretora que perguntou: "Quem é o repórter?". "Eu sou repórter", respondeu ele. Identificada na reportagem pelo nome de Ana Paula, a diretora do clube, de acordo com o jornalista, desconfiou dele. Além disso, ela e outro diretor —identificado pelo nome de Fábio— questionaram a isenção e temiam reportagem tendenciosa.

O episódio então foi levado à direção da CNN Brasil, que decidiu cancelar a matéria que faria sobre a situação de atletas durante a pandemia do coronavírus. O caso ocorreu no mês passado, mas a denúncia foi exibida neste domingo.

O presidente Ivan Castaldi Filho disse em vídeo enviado ao UOL que trabalha diariamente para que todos tenham o mesmo tratamento. "O preconceito é um mal que afeta o mundo inteiro, uma doença que a sociedade deve erradicar urgentemente. Precisamos viver muito atentos para identificar atitudes e ações que possam ter um lado de discriminação. Sempre foi assim com o clube Pinheiros. Somos uma instituição inclusiva", afirmou.

"A equipe de diretores do clube, especialmente os times de governantes e comunicação, trabalham todos os dias para garantir que no Pinheiros todas as pessoas tenham o mesmo tratamento, o mesmo cuidado e as mesmas oportunidades. Por isso apuramos todas as denúncias que recebemos e corrigimos na hora qualquer desvio de conduta", acrescentou.

A CNN afirmou que lamenta o episódio, disse que "discriminação racial é crime" e que "infelizmente esse crime ainda está acontecendo". A emissora lembra que o caso é exibido no Dia Internacional de Combate ao Racismo.

"A CNN Brasil não tolera e sempre denunciará qualquer tipo de discriminação. Também estará sempre ao lado de sua equipe prestando o apoio necessário para o exercício profissional do jornalismo", disse, em nota enviada ao UOL.

Em outubro, Nascimento, que é filho do ex-goleiro corintiano Jairo do Nascimento (1946 -2019), afirmou que foi abordado com um fuzil pela PM ao sair para uma pauta por volta das 5h30 da manhã. O jornalista estava no carro ao lado de dois colegas de trabalho, todos negros. A abordagem, segundo ele, aconteceu a 30 metros da sede da CNN no Rio, no centro da cidade (local onde trabalhava na época), e que considera a ação policial racista.

"Já aconteceram diversas vezes comigo. Obviamente nem todas viraram reportagens. Já é segunda vez desde quando comecei a trabalhar na CNN. Mas com o tempo a gente vai aprendendo, criando casca e aprendendo a dar resposta adequada", afirmou ele ao UOL, por telefone.

Jairo Nascimento disse que registrou o boletim de ocorrência, quer aguardar o caminhar do processo, mas avisa que não tem interesse em abrir processo cível.

Histórico de denúncias

Em agosto do ano passado, uma reportagem do blog Olhar Olímpico, do UOL, mostrou que uma auditoria interna do Pinheiros encontrou diversos relatos de assédio moral e de racismo dentro da ginástica artística do clube. Conduzidas pelo departamento de Governança e Compliance, a auditoria foi tornada pública por reportagem exibida pelo Esporte Espetacular, da TV Globo.

A auditoria apontava relatos de racismo e maus tratos em dois casos que marcaram a ginástica artística do Pinheiros. A família de Jackelyne Silva, ginasta de 17 anos que morreu por infecção decorrente de pneumonia depois de ser demitida do clube, diz que ela sofria abusos morais. "Ela era ignorada, não a assistiam, não a treinavam, não falavam com ela, apenas para chamar atenção ou penalizá-la", apontou um relato feito à auditoria.

O segundo caso público explorado pela reportagem e pela auditoria é o caso de racismo contra o ginasta Ângelo Assumpção, em 2015. Na época, um vídeo gravado em tom de brincadeira por integrantes da seleção brasileira tinha falas racistas contra Ângelo. Todos depois gravaram um vídeo dizendo que estava tudo bem entre eles, a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) suspendeu Arthur Nory de forma que ele não perdesse a Olimpíada (onde acabou medalhista de bronze), e tudo pareceu resolvido.

Mas Ângelo passou a ser escanteado no "ginásio" (ou seja, nos treinamentos dentro do clube). Ele e Nory, colegas de clube desde a infância, nunca mais se entenderam. No ano passado, quando voltava a competir depois de uma série de lesões, Ângelo foi suspenso por 30 dias. No dia seguinte ao fim da suspensão, foi demitido. Em documento interno, o responsável pela ginástica do Pinheiros, Raimundo Blanco, explicou que suspendeu Ângelo "porque o atleta não respeitou a hierarquia ao levar reclamação para a gerência de esporte".

À época, o clube disse que "o caso da Jackeline não foi escopo da auditoria" e que "os resultados obtidos das referidas auditorias são confidenciais e de competência exclusiva Pinheiros".

"Reforçamos, ainda, que a não renovação do contrato com o atleta Ângelo Assumpção não tem relação alguma com qualquer ato de preconceito", disse o clube por meio de nota à época. O Pinheiros também disse que optou por rescindir o contato de Ângelo a dois meses do seu término "para facilitar o processo de migração do atleta para outro clube esportivo" e que isso foi comunicado a ele pessoalmente.