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Bolsonaro se irrita, manda repórter calar a boca e ataca Globo e CNN

Do UOL, em São Paulo

21/06/2021 15h36Atualizada em 21/06/2021 23h38

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se irritou hoje com uma pergunta de uma repórter da Rede Vanguarda, afiliada da TV Globo no Vale do Paraíba (SP) e região, e voltou a fazer ataques à emissora, que chamou de "canalha". Ele foi questionado por que não usava máscara quando chegou para cumprir agenda em Guaratinguetá (SP), e, aparentemente nervoso, mandou a jornalista "calar a boca".

"Para de tocar no assunto. Você quer botar... Me botem. Vai botar agora? Estou sem máscara em Guaratinguetá. Está feliz agora? Você está feliz agora? Essa Globo é uma m... de imprensa! Vocês são uma porcaria de imprensa! Cala a boca!", reagiu Bolsonaro contra a repórter Laurene Santos.

Vocês são uns canalhas! Vocês fazem um jornalismo canalha! Canalhas que não ajudam em nada, vocês não ajudam em nada. Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira. Vocês não prestam! A Rede Globo não presta! É um péssimo órgão de informação. (...) Você [Laurene] tinha que ter vergonha na cara em se prestar a um serviço porco que é esse que você faz na Rede Globo.
Jair Bolsonaro, à repórter da Rede Vanguarda

O presidente também fez críticas à CNN Brasil por supostamente "elogiar" as manifestações contra o governo ocorridas no último fim de semana, em diversas cidades do país. "Jogaram fogos de artifício em cima de vocês e vocês elogiaram ainda", afirmou, em referência ao caso do repórter Pedro Duran, alvo de agressões durante ato bolsonarista no Rio de Janeiro, em 23 de maio.

Bolsonaro estava de máscara no início da entrevista, mas retirou a proteção após a pergunta, ignorando o decreto do governo de São Paulo que obriga o uso de máscara em locais públicos, sejam eles a céu aberto ou fechados.

Pouco depois, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que estava ao lado de Bolsonaro e usava máscara, também retirou a proteção.

Em nota publicada nas redes sociais, a Rede Vanguarda se solidarizou com a repórter Laurene Santos, "que estava apenas fazendo seu trabalho", e repudiou a postura do presidente, "que tirou a máscara durante a entrevista para agredir verbalmente com palavrões a jornalista".

Após o ocorrido, a TV Globo também emitiu um comunicado repudiando a atitude de Bolsonaro:

"A Globo e a TV Vanguarda repudiam o tratamento dado pelo presidente à repórter Laurene Santos, que cumpria apenas o seu dever profissional. Não será com gritos nem intolerância que o presidente impedirá ou inibirá o trabalho da imprensa no Brasil. Esta, ao contrário dele, seguirá cumprindo o seu papel com serenidade. À Laurene Santos, a irrestrita solidariedade da Globo e da TV Vanguarda."

Associações se manifestam

Entidades jornalísticas também manifestaram repúdio às agressões verbais de Bolsonaro contra Laurene Santos. A ABI (Associação Brasileira de Imprensa), por exemplo, chamou o presidente de "perturbado" e "descontrolado", e reiterou sua posição a favor de seu afastamento do cargo.

"Com seu destempero, Bolsonaro mostrou ter sentido profundamente o golpe representado pelas manifestações do último sábado [19]", disse em nota Paulo Jeronimo, presidente da ABI. "Diante desse quadro, com a autoridade de seus 113 anos de luta pela democracia, a ABI reitera sua posição a favor do impeachment do presidente. E reafirma que, decididamente, ele não tem condições de governar o Brasil."

Já a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) lembrou outros ataques de Bolsonaro a jornalistas — como a vez em que ele disse ter vontade de encher um repórter do jornal O Globo de "porrada" — e prestou solidariedade à funcionária da TV Vanguarda.

"[A Abraji] Condena não apenas a atitude de Bolsonaro, mas a de todos aqueles que participaram da entrevista, como o prefeito de Guaratinguetá, Marcus Soliva (PSC), e a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que também seguiu o presidente e retirou a máscara. Jair Bolsonaro demonstrou mais uma vez seu desrespeito pela liberdade de imprensa, pela saúde pública, pela democracia e até mesmo pelas normas mais básicas de civilidade e etiqueta — um comportamento incompatível com o cargo máximo da República", defendeu a entidade.

Políticos também se manifestam

Dez senadores que integram a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da pandemia repudiaram o comportamento de Bolsonaro em nota divulgada à imprensa.

"A agressão do senhor presidente da República não foi apenas à jornalista Laurene, mas a todos os brasileiros que anseiam por uma resposta à tragédia que atingiu mais de 500 mil famílias desde o início da pandemia, no ano passado. Tentar calar e agredir a imprensa é típico de fascistas e de pessoas avessas a democracia brasileira", salientaram os senadores.

Os parlamentares destacaram que os "responsáveis" pagarão por "seus erros, omissões, desprezos e deboches". "Não chegamos a esse quadro devastador, desumano, por acaso. Há culpados e eles, no que depender da CPI, serão punidos exemplarmente. Os crimes contra a humanidade, os morticínios e os genocídios não se apagam e nem prescreveram", reforçam os políticos.

A nota é assinada pelo presidente da CPI, Omar Aziz (PSD); pelo vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede), pelo relator Renan Calheiros (MDB) e por outros sete parlamentares.

Bolsonaro multado

Neste mês, Bolsonaro e os ministros Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) e Ricardo Salles (Meio Ambiente), além do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, foram multados em R$ 552,71 cada pelo governo de São Paulo por não usarem máscara durante um evento com motociclistas no estado.

O uso de máscara, constantemente atacado pelo presidente, é apontado por especialistas e autoridades sanitárias como fundamental para conter a disseminação do coronavírus.

Sua utilização é obrigatória em vários estados e municípios, inclusive em Brasília, mas Bolsonaro raramente usa a proteção em eventos públicos ou quando sai para passeios e causa aglomerações na capital e no entorno — outra violação das recomendações sanitárias.

(Com Reuters)