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Blog do Mauricio Stycer

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Na “zoeira sem limites” da internet, mídia tradicional precisa ser o filtro

Mauricio Stycer

13/05/2019 13h09

A esta altura, todo mundo já deve saber que o goleiro Sidão, do Vasco, foi eleito "craque do jogo" pelos espectadores da Globo neste domingo (12). O troféu foi dado não por suas qualidades em campo, mas por ter falhado no primeiro gol do Santos. Foi uma "zoeira" da internet com o jogador e com a promoção da emissora.

A turma do Desimpedidos, um canal no You Tube que mistura futebol e humor, teve papel importante na "zoeira". Com 1,6 milhão de seguidores no Twitter, convocou um mutirão durante a partida para premiar Sidão.

A brincadeira não surpreendeu seus seguidores. "Este é o canal Desimpedidos. Onde a zueira não tem limites, onde seu time é pequeno, onde o CR7 é só mais um", informa a "biografia" do perfil no Twitter. Ainda assim, nesta segunda-feira o canal pediu desculpas a Sidão.

O problema não foi a "zoeira" do Desimpedidos, que vive disso, mas a decisão da Globo de levar a piada até as últimas consequências. A opção, óbvia, era brincar com a situação, informar o público sobre o que ocorreu, mas não entregar o troféu ao goleiro, arcando com as consequências deste ato.

Dentro da própria Globo, a manifestação pública mais contundente veio do comentarista Walter Casagrande, que resumiu a coisa em duas palavras: "troféu ridículo".

Já o jornalista Marcelo Barreto, no SporTV, procurou contemporizar. Ele classificou o incidente, do ponto de vista da empresa em que trabalha, como uma "armadilha perfeita": "Se não entregar ou não divulgar o resultado, seria acusada de manipuladora. Não tínhamos uma boa escolha para fazer. Talvez tenhamos escolhido a pior das ruins. A outra seria a menos pior, só", disse.

Discordo. Não havia duas opções. O "menos pior", no caso, era a obrigação da Globo. A emissora está corretíssima em buscar formas de interação com o público cada vez mais engajado nas redes sociais, mas não pode esquecer que tem uma responsabilidade social expressa, inclusive, na legislação.

Além disso, é preciso usar o bom senso. Nem toda "zoeira da internet" é sem consequências. Ao obrigar a repórter Julia Guimarães a entregar o troféu de "craque do jogo" para Sidão, a Globo o humilhou em público. Pareceu um quadro do finado "Pânico", um programa de humor desabusado.

O reconhecimento do erro veio três horas depois – um tempo relativamente rápido. Mas o estrago, em termos de imagem, já estava feito. A emissora sofreu repúdio em várias instâncias – de clubes, jogadores e comentaristas esportivos, além de parte significativa do público, que não participou da brincadeira.

A reflexão vale para toda a mídia tradicional, mas é especialmente dirigida à televisão. Se abraçar esta "zoeira" sem filtrá-la, a TV vai perder a sua identidade.

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Repercussão: As críticas à Globo tomaram grande proporção no meio esportivo. O jogador Neymar, o Vasco, o próprio Santos, que venceu a partida, os comentaristas Neto, da Band, e Fabio Luciano, da ESPN, além da assessoria do goleiro, se solidarizaram com Sidão e lamentaram a atitude da emissora.

Histórico de constrangimentos: A iniciativa "craque do jogo" já havia resultado em uma piada em março. Durante a transmissão do jogo entre Brasil e República Tcheca, os internautas escolheram como melhor jogados em campo o pouco expressivo Ondrej Kudela, apenas pelo prazer de ver Galvão Bueno anunciar o resultado. O narrador entendeu a "trolada" e riu da situação.

O episódio com Sidão vem a se somar a outros constrangimentos já causados pela Globo a jogadores. A entrega do troféu "Inacreditável Futebol Clube" a atletas que perderam gol feitos também já provocou reações negativas no meio. Deivid relutou por oito anos em "aceitar" o seu. Loco Abreu, certa vez, classificou a brincadeira como "uma bobagem".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Mauricio Stycer, jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 30 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o diário esportivo "Lance!" e a revista "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018), "Adeus, Controle Remoto" (Arquipélago, 2016), “História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo” (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011).

Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Sobre o blog

Um espaço para reflexões e troca de informações sobre os assuntos que interessam a este blogueiro, da alta à baixa cultura, do esporte à vida nas grandes cidades, sempre que possível com humor.