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Leo Dias


Jabá na música: quantos milhões os cantores investem para fazer sucesso

Zezé di Camargo - Reprodução/Instagram
Zezé di Camargo Imagem: Reprodução/Instagram
Leo Dias

Leo Dias é jornalista e diretor-executivo do "TV Fama", da Rede TV!. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos. Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: "A fama tem um preço estou aqui para cobrar".

Colunista do UOL

18/01/2020 19h00

Uma das cenas mais emblemáticas do filme "Dois filhos de Francisco" é a que o pai de Zezé di Camargo, seu Francisco, passa o dia ligando para uma rádio para que a emissora tocasse a canção de seu filho. Hoje em dia, se alguém fizer tamanho sacrifício estará jogando seu tempo (e linha telefônica) foras. A indústria do jabá tomou conta das rádios de todo Brasil e nem o advento da internet, com a popularização do Youtube e do Spotify, foram capazes de diminuir a prática (que não é ilícita), mas, digamos, questionável.

No mundo da música sabe-se que que chegar ao topo das paradas de sucesso não é algo fácil. E muito menos barato. "Os sertanejos são os que mais gastam, até porque são os mais ricos. Os maiores nomes gastam entre 500 e 700 mil reais. Atualmente, Gusttavo Lima é o artista que mais investe em rádio no país, cerca de 700 mil por música", diz um empresário que pediu para no ser identificado. Aliás, a lei do silêncio impera quando o assunto é jabá. Até porque isso acaba com a "magia" da rádio de tocar os grandes sucessos do momento.

As gravadoras Sony, Warner e Universal estabelecem em seus contratos que eles serão os responsáveis por pagar o marketing das músicas, e isso inclui o jabá. O problema é que as gravadoras focam basicamente no Rio e em São Paulo. É aí que entra o artista, que fica responsável pelas rádios do restante do país. Cada rádio recebe entre 10 e 20 mil por música. Parece pouco, mas num montante gigantesco como o Brasil vira uma fortuna.

Já a Som Livre não aceita pagar jabá às rádios. Se o artista quiser , que pague do próprio bolso. A gravadora do Grupo Globo usa como arma o fato de que seus cantores têm maior facilidade em tocar na Globo, ser trilha de novela das 21h. Só que hoje estar na Globo não é garantia de sucesso.

A indústria do jabá movimenta milhões de reais e ajuda a manter vivo o baixíssimo orçamento publicitário das rádios. É o típico mal necessário. E saiba que praticamente todas as emissoras do Brasil, de uma forma ou de outra, fazem acordos para executarem as canções de artistas brasileiros. Independentemente do 'quilate' ou de sua fama.

O escambo agora é diferente: as gravadoras oferecem shows de seus cantores em eventos das rádios em troca de tocar na programação entre 6 meses e um ano. Às vezes o próprio artista é que se oferece. Ele sabe o valor das emissoras. Mas muitas vezes, os artistas fazem um grande desconto, ao invés de cantar de graça: Marília Mendonça, a maior cantora da atualidade, cobrou de um evento da rádio carioca FM O Dia cerca de 150 mil reais. Uma pechincha. Seu cachê médio custa quase 500 mil.

Até bem pouco atrás todos da música fingiam que o jabá não existia. Hoje, nas produtoras de cantores é tudo tratado às claras. "No início da minha carreira o investimento em rádio era algo surreal, até porque como as rádios iam me tocar se elas sequer me conheciam? Mas hoje, graças a Deus, eu não pago mais", conta Lexa, que foi lançada no momento em que os brasileiros eram apresentados aos smart-phones e aos aplicativos de música.

O jabá representa o principal orçamento para muitas rádios mais simples. Em São Paulo, é sabido que rádios poderosas como Band e Nativa não aceitam jabá. No Rio, a FM O Dia jura de pés juntos que também não.

Em 2007, Assim que aplicativos de música começaram a se popularizar e muita gente chegou a pensar que seria o fim do rádio. Mas não! As novas plataformas, segundo os especialistas, não alterou o perfil do ouvinte. "Quem ouve Spotify são as classes A e B. A gente observou um envelhecimento do nosso ouvinte, por isso eu fiz algumas adaptações na rádio: diminui o tempo do funk por exemplo", diz Tuka Cavalho, o jovem presidente da Rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio e que conseguiu derrubar o império do Grupo Globo.

Mas uma dupla sertaneja resolveu enfrentar o poderio das rádios e mandou avisar. Jorge e Mateus foi, por 10 anos, a dupla número 1 do Brasil (em cachê e numero de shows) e jamais aceitou pagar jabá. Agora a gente explica: a dupla surgiu graças aos festivais de música que se popularizaram graças ao "open-bar". E apesar de só terem gravado um clipe na vida, Jorge e Mateus são um grande fenômeno na internet. E o mais curioso é que muitas rádios tiveram que se curvar ao sucesso da dupla e passaram a tocá-los no dial. De graça.

Mas ninguém melhor que Zezé Di Camargo para nos explicar que o jabá, sempre existiu, desde que o rádio é rádio. "Antigamente só as gravadoras pagavam os jabás. Eles definiam as prioridades do momento e investiam na divulgação desses artistas. Hoje em dia, tudo mudou, é muito mais business, a gente sabe que tem artista que gasta entre 1,7 e 2 milhões de reais em uma música para fazer dela o primeiro lugar nas rádios e nas plataformas digitais. Eu acho desnecessário eu fazer isso hoje. Foram muitos anos de luta. Não tenho nada contra, porque cada um usa as armas que tem. Eu tenho 28 anos de carreira, fui um dos mais tocados no Brasil, sem jabá, e não acho justo eu que sempre estive ao lado do rádio ter que pagar para tocar num veículo que eu sempre prestigiei. As pessoas vão ao meu show não para ouvir as músicas que estão tocando nas rádios. Elas vão para ouvir os grandes clássicos que eu gravei. Hoje em dia, eu gravo algumas músicas maravilhosas mas que não emplacam porque não fazem "parte do esquema". Zezé soube definir perfeitamente os novos rumos da musica popular brasileira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leo Dias