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Leo Dias


Susana Vieira sobre fim de divas na TV: 'Não vejo mais endeusamento'

Leo Dias

Leo Dias é jornalista e diretor-executivo do "TV Fama", da Rede TV!. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos. Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: "A fama tem um preço estou aqui para cobrar".

Colunista do UOL

08/04/2020 04h00

Sincera, talentosa e alto astral. Três adjetivos que definem um ícone da dramaturgia brasileira: Susana Vieira. Aos 77 anos, ela acaba de completar 50 de TV Globo e não pensa em parar de atuar tão cedo. Em conversa com o colunista Leo Dias, a atriz disse que não vê surgir novos ídolos na teledramaturgia.

Acho que as únicas deusas são Juliana Paes, Giovanna Antonelli, Paolla Oliveira, Adriana Esteves. Essas meninas, que devem estar com 40 anos hoje, são as melhores atrizes dessa safra. Não vejo mais esse endeusamento.

Sobre as mudanças na TV Globo e a saída de atores renomados, como Bruno Gagliasso, e de autores, como Aguinaldo Silva, a atriz revela surpresa. "Não sei bem o que aconteceu. Parece que houve um grande coronavírus lá dentro, que não sei te explicar", diz. "Agora, enquanto eles me respeitarem e me derem os trabalhos bons, prefiro não me manifestar quanto a isso. Mas tiveram algumas mudanças que deixaram a gente meio assim."

Susana ainda diz que sente que estão todos perdidos em relação a como agradar o público: "A própria dramaturgia está sem saber. Eles ficam andando em focos, 'vamos atingir essa classe', 'vamos falar sobre isso'... há uma espécie de esquizofrenia que não existia antes. Hoje em dia, como você tem que agradar a gregos e troianos, gays, lésbicas e simpatizantes, você tem que agradar um monte de gente."

Leia trechos da entrevista com Susana Vieira.

Leo Dias - Quando pensei na nossa entrevista, falei assim: 'A pauta tem que ser felicidade, vida, para cima'. Porque você sempre representou isso na vida de todo mundo. Você, que é uma mulher da rua, das aulas de dança, como é que está a sua vida agora, Susana?

Susana Vieira - Da rua, da chuva, da avenida, ou numa casinha de sapê. Estou na casinha, que não é de sapê, mas é uma casinha. A vida por enquanto para mim está boa porque estou bem de saúde. Ainda, tomara a Deus! Não acho que estou sozinha porque tenho uma vida muito solitária no bom sentido. Moro sozinha, com os cachorros, com os empregados. Sou feliz, adoro a minha casa e não sinto falta de ir para a rua, porque eu estava estourando demais o cartão de crédito. Então vou te contar, quarentena maravilhosa. Não tem uma compra esse mês (risos).

Com o que você gasta, Susana?

Compro tudo que vejo. Adoro comprar coisa para a casa. Estou sempre achando que vou mudar os móveis, mando fazer cortina. Eu gosto de enfeitezinho da casa, gosto de planta. Estou acostumada a ficar em casa porque a gente tem um ritmo de vida de gravação muito certinho. Então o dia em que gravo, levanto às 9h, saio às 10h e volto às 22h. Nos dias que estou em casa, fico em casa. Mas faço muita ginástica, é a coisa que mais estou sentindo falta, de ir para a academia. Não consigo tirar o corpo da cama ou do sofá para fazer sozinha a ginástica. Não consigo.

Vinicius Mochizuki/Divulgação
Imagem: Vinicius Mochizuki/Divulgação

Eu também não, preciso de alguém comigo, o personal...

Eu também! Garoto, a gente paga uma fortuna para o personal, pra gente olhar para a cara dele. A gente sabe se é um, é dois, é três, mas preciso de um professor, preciso de alguém que me diga. Sabe o que cheguei a conclusão? Na vida, quem me dá estímulo, são os outros. É a vida, é o dia a dia, é o trabalho, é isso que me dá energia, que me dá vida. Eu preciso de incentivo.

Então quando acordo e vejo que estou com saúde, o quarto bom, os bichinhos do lado, acordo e o café está ali, minha Globo me esperando... Eu tenho uma vida maravilhosa.

É o meu estímulo. Mas tenho que ter um compromisso para me agitar. Estou na fase perigosa dessa doença. Todo mundo fala que o idoso é que vai se ferrar. Então você acha que estou feliz, tranquila? Feliz eu estou, engraçado! Acho que estou feliz (risos). Eu só estou é preocupada. Porque a coisa que mais detestei ouvir é que na Europa, e no mundo vai acontecer isso, espero que aqui não, que eles estão dando, por exemplo, para você ir para o CTI, tem que colocar um jovem no lugar do velho. Isso foi uma das coisas que mais me chocou.

O que você tem feito?

Nada! (risos) Juro, fico parada, atônita. Aí sento, tomo café da manhã e vejo televisão. Todo mundo manda não ver, mas não adianta, ligo a televisão. Aí quando começo a ver que eles estão muito chatos, desligo e vejo Netflix. Fora isso, ontem eu dei oito voltas na piscina (risos).

E você também vê Globoplay, né?

Não! Sinceramente, o meu vai direto na Netflix. A Globo vai assistir [essa entrevista]... ai, adoro a Globoplay, gente! Globoplay (risos). Garoto, vou te contar. Já pedi para o meu filho vir aqui, colocar Globoplay para mim, mas toda hora tem alguma coisa de pedir a senha certa e o nome. Eu não sei a senha. Gente, tem que ser uma coisa que você liga e a pessoa vai. Agora pedindo a senha, o RG...

É muita senha na nossa vida, né?

É muita senha. Você bota cinco cachorrinhos, depois você bota vida feliz, você bota uma série de senhas, aí você vai esquecendo e vai perdendo.

Agora, olhando para a sua história e sua carreira, do que mais você se orgulha?

Orgulho da consistência dela e não ter parado nunca, entendeu?

Você teve uma frequência muito forte...

Frequente, é. Não digo 'não' para nada. Estou sempre disponível. É para entrevista? É para não sei o quê? Eu vou. É para fazer figuração ali e não sei o quê? Eu vou. É dessa minha disponibilidade que me orgulho. Mas não faço isso porque sou burra ou boba, faço isso porque é uma troca. Se uma empresa que me dá um emprego, me sustenta, me oferece coisas maravilhosas, como todas as novelas que fiz, na hora que eles me pedem um favor, para fazer um 'Criança Esperança', não custa nada. Agora mesmo, estou fazendo várias coisas para a Globo por aqui, algumas chamadas que eles me pedem. Acho que essa minha consistência perante a emissora e nunca ter parado de trabalhar, ter trabalhado com todos os autores... é disso que me orgulho, de nunca ter passado necessidade, porque qualquer um de nós parou de ganhar um mês. Alguma coisa você vai ter que deixar de comprar. Ou é um pedaço de pão, ou é um anel de brilhante, mas vai deixar de comprar. Agora devo isso a mim e a todos os diretores e autores que me chamam.

Você percebe um momento diferente na teledramaturgia da TV Globo? De novos autores surgindo, não mais aquele grupo frequente, como Aguinaldo Silva, de atores renomados saindo da Globo, como o Bruno Gagliasso. Isso tudo te surpreende?

Realmente não sei bem o que aconteceu. Aconteceu alguma coisa. Que alguma coisa aconteceu, aconteceu. Ninguém me contou, não. Mas parece que houve um grande coronavírus lá dentro, que não sei te explicar e prefiro não me manifestar, tá?

Então você vê com surpresa?

É tudo uma surpresa. Agora, enquanto eles me respeitarem e me derem os trabalhos bons, sinto que há uma gratidão da parte deles, porque estou sempre com eles, prefiro não me manifestar quanto a isso. Mas houve mudanças que deixaram a gente meio assim. Não posso te falar que tenho certeza da minha posição, tenho certeza de tudo que produzi até hoje. Está tudo ali. Cinquenta anos de TV Globo, sem sair do ar. Entrei em 1970, estamos em 2020. Tem pouquíssima gente com essa carreira.

Cinquenta anos, é maravilhoso!

Entrei no dia 3 de março de 1970. Fiz 50 anos de TV Globo. Então não posso te falar que mudou, porque se mudou alguma coisa, não me atrapalhou. Enquanto não me atrapalha, prefiro não dizer o que acho.

Vinicius Mochizuki/Divulgação
Imagem: Vinicius Mochizuki/Divulgação

Você acha que o fato de não ter te atrapalhado é por sua postura de nunca ter dito 'não' ao trabalho?

Acho que dou muito ibope, sinceramente. Tenho um público popular que não é fácil. Todo mundo pode adorar fulano de tal em tal novela, mas acabou a novela e não fica um ídolo como eu, como Tony Ramos.

A gente pode ficar em casa sem trabalhar, que a gente sai na rua e é cumprimentado como se estivesse estrelando uma novela. Não é verdade? Estou nessa novela 'Éramos Seis', que é um horário muito cedo. Tinha muita gente que perguntava assim: 'E aí, vai voltar para as novelas quando?' Aí eu dizia: 'Como? Você não vê a novela?' E aí tira foto, me abençoa, me dá santinho, pede para Deus me proteger. Independente de a gente estar no ar ou não, a gente já tem o nosso nome.

O seu legado já está aí, ninguém tira.

De qualquer maneira eles [a Globo] precisam da gente. Primeiro, porque a gente é bom profissional. Segundo, porque a gente dá ibope e porque a gente se dedicou a vida inteira. Estava vendo a Carolina Dieckmann... ela é uma garota, mas ela entrou na Globo em 1980, uma coisa assim [nota do editor: a atriz estreou na emissora em 1993, na novela "Sex Appeal"], tem muitos anos de casa. Essa gente fez a empresa. Estou falando da Carolina porque ela é nova, o corpinho dela continua 38, mas ela fez um nome, fez grandes obras com um elenco de primeira, então eles têm que ser gratos.

A TV Globo não é grande porque ela é a mais bonita, porque tem um logotipo bonito, porque os cenários são bonitos. Ela é grande porque teve grandes autores e grandes atores sendo dirigidos.

Agora hoje em dia acho que a própria dramaturgia está sem saber o que agrada o público. Eles ficam andando em focos, 'vamos atingir essa classe', 'vamos falar sobre isso', há uma espécie de esquizofrenia que não existia antes. Porque só tinha a Globo e muita qualidade nas novelas, no elenco, e eram menores, 40 minutos de novela. Então hoje em dia, como você tem que agradar a gregos e troianos, gays, lésbicas e simpatizantes, você tem que agradar um monte de gente, porque hoje em dia todo mundo se colocou.

Representatividade.

Então fica uma coisa que toda novela tem que agradar milhões de setores e, às vezes você perde um pouco aquela atração de ver uma novela, 'ai, ele vai encontrar com ela', 'Meu Deus, ele é filho dela', aquele frisson acho que se desfez um pouco pelo excesso de histórias que tem que ter uma novela. Não sei se conseguir falar bem, mas é isso.

A gente sempre se preocupa muito com a sua saúde, porque você representa muito a vida. Como está a sua saúde?

Estou muito bem, minha doença está controlada [ela tem leucemia linfoide crônica], mas o que me assustou mais foi esse vírus. Ele ataca as pessoas com mais de 60 anos, quer dizer, como estou depois dos 70... pensei que a terceira idade era 70, aí já soube que é 60, então já estou há anos na terceira idade e não me dei conta.

Você concorda que a sua postura e atitude perante a vida não é de uma idosa?

Não, por isso mesmo. Aí quando vi, falei: 'Se 60 anos eles estão botando no grupo de risco de morte, já estou enterrada, porque estou com 77'. Então, pelo amor de Deus, se eu precisar de um leito ou um CTI, vocês façam uma campanha (risos). Já soube que a máscara vai primeiro para o novinho, depois que vai para a velha.

Você ainda tem um sonho na vida?

Sonho, sim.

O que você sonha?

Quero levar uma peça para Portugal, um monólogo que tenho, 'Shirlei Valentine', do Miguel Falabella. A peça não ficou no Rio, ficou só em Bangu [Shopping]. Não quero mais fazer teatro no Rio, nem em São Paulo, nem viajar com peça. No momento, se pudesse pegar um avião, se não estivesse esse caos todo, ia ficar um pouquinho lá, um mês, dois meses em Portugal, fazer uma peça. Vejo esses atores todos, voltam cheios de dinheiro, cheios de orgulho, se sentindo e eles são agraciados, então quero ainda usufruir da minha fama internacional. Se tenho um sonho, é esse, quero usufruir da fama internacional que a Globo me botou. Só que a Globo nos jogou, agora quero ir lá buscar um pouco de dinheiro.

Entrevistei a Cláudia Raia e ela tinha acabado de chegar de Portugal, de uma temporada em que ela rodou o país inteiro...

Nunca fiz isso, exatamente. Fazia muito teatro aqui no Brasil, mas cheguei à conclusão de que isso me estressa muito. Sempre deixei minha vida de casa, até de esposa e mãe, muito para lá, porque a minha carreira vinha em primeiro lugar. Só que quando fiquei doente, vi que quero abrir o olho e ver o meu filho, minha nora, meus netos, meus cachorros, minha casa. Não quero ver público não, amor. Na hora do pega pra capar você quer ver a tua família por perto. Depois, o que quero realizar ainda é fazer uma comédia na televisão, um personagem engraçado para levantar o ânimo das pessoas e para mim também. Preciso de gente para rir, preciso fazer 'A Partilha' com Arlete Salles, por exemplo (risos). Porque acho que o riso me mantém muito feliz e eu não tenho rido muito não.

Como é que você lida com a internet?

A internet, para mim, pode morrer (risos). Amor, a internet só me interessa quando acaba a luz da minha casa e que vou para o telefone e coloco o 4G e fico vendo Globoplay, que é a única que pega (risos).

A gente vê que com a internet que a relação do público com as novelas mudou um pouco. A gente viu uma idolatria e ícones da teledramaturgia sendo criados, como você, Tony Ramos, Claudia Raia. A gente não vê mais isso...

Concordo com você. Por exemplo, numa novela nova hoje, mesmo das 20h, tem três pessoas que você conhece, sabe o nome, são protagonistas, e tem oito garotas novas que você não sabe, 'ah, é aquela que trabalhou em tal lugar'. É difícil. Quando a gente fazia novela, os elencos eram menores, então você podia fazer os papéis melhores para cada um. Mas não vejo esse endeusamento, não. Acho que as únicas que ainda são deusas é Juliana Paes, Giovanna Antonelli, Paolla Oliveira, Adriana Esteves, essa geração é a última de divas ainda. Teve a gente, depois veio essa safra de gente maravilhosa, né? Deborah Secco. Essas meninas que devem estar com 40 anos hoje em dia são as melhores atrizes dessa safra, não tem uma 'mais ou menos', são todas excelentes e elas ainda são ídolas. De lá para cá, não tem ninguém morrendo de saudade da fulana de tal, por exemplo.

Exatamente. Só quero agradecer essa entrevista, vamos celebrar a vida, vamos celebrar a Susana Vieira, maior atriz brasileira.

Estava louca para falar com você, me sinto super à vontade, gosto muito de você. Geralmente eu falo sem censura. Não acho que falei nada demais, só que hoje tudo é demais, porque dou três palavras e na quarta a Dani [assessora] já olha para mim, cita todas as profissões que podem se ofender porque falei uma coisinha. Hoje em dia, com a minha personalidade, fica difícil de falar. De 77 anos, estou há 50 na Globo, dez em São Paulo e aí que a gente veio para o Rio. Então a gente antigamente falava, sempre falei, mas hoje em dia dar entrevista é difícil.

Leo Dias