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Leo Dias


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Marília Mendonça e sua estranha relação com o mercado publicitário

Live de Marília Mendonça bate recorde com 3,2 milhões de visualizações simultâneas - Reprodução/Youtube
Live de Marília Mendonça bate recorde com 3,2 milhões de visualizações simultâneas Imagem: Reprodução/Youtube
Leo Dias

Leo Dias é jornalista e diretor-executivo do "TV Fama", da Rede TV!. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos. Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: "A fama tem um preço estou aqui para cobrar".

Colunista do UOL

17/04/2020 07h00

Entenda uma coisa, caro leitor, nada na carreira de Marília Mendonça é fruto do acaso ou da sorte. Recentemente o meu questionamento era por que Marília não aceita fazer comercial de TV, ser garota-propaganda de nada. Simplesmente por não querer se associar a nenhuma marca? Não. Ela pensou em absolutamente tudo.

Primeiro, ela não precisa do dinheiro de propaganda, por mais alto que ele seja. Mas há uma lógica no pensamento dela: ela tem a consciência de que no momento que começar a anunciar um produto, passará a ser, também, um "produto" a ser consumido. Consequentemente, o interesse sobre sua vida vai crescer. Exemplos por aí não faltam. E Marília não quer que, jamais, sua vida seja mais relevante que sua música. Até por que, a música pode ser eternizada. O interesse pela vida dela, jamais.

Marília separa bem sua obra e sua vida. A cantora sabe dividir muito bem o público do privado. Ela dá entrevistas sobre maternidade, mostra detalhes da sua rotina como mãe, é uma celebridade acessível à imprensa, mas impõe limites. O limite dela impede que sua vida vire um debate nacional. Ela não quer ser conhecida nem reconhecida pelos seus relacionamentos amorosos, mas por sua obra, por sua música.
Não existe nenhum registro público de Marília, com o filho Leo, e Murilo, o pai da criança. A cantora não dá holofote a seus relacionamentos. Ela não tornou Murilo uma celebridade nacionalmente conhecida.

Nesses seis anos de carreira, ela já terminou um relacionamento, emagreceu, fez lipo, colocou silicone, começou um namoro, engravidou... e não transformou isso em uma novela. Não fez da sua vida pessoal tema da conversa do bar da esquina. Marília sabe que se ficar escondendo, vai piorar a situação e despertar mais interesse. Então: ela dá o que a mídia quer. Mas não dá nada do que ela não queira.

Em 2019, ela foi a 3ª cantora mais ouvida no mundo na plataforma Deezer. Ela sabe que tem um grande controle por quem acessa à internet. E quem não tem? Segundo o IBGE, 64% da população brasileira tem acesso à web. Entre os que têm entre 18 e 24 anos, esse número pula para 85%. Mas Marília quis ir atrás do povo simples, que não tem computador nem smartphone. A partir daí, ela criou duas estratégias. A primeira, óbvia: usar a TV e programas realmente populares. Cada vez mais a TV aberta atinge a população de baixa renda. Marília foi ao "Programa do Ratinho" no ano passado. Quer algo mais popular?

E a segunda estratégia veio de um sonho: levar sua música de graça ao Brasil que não tem acesso a seus shows. O projeto "Todos os cantos" foi revolucionário. Com um toque quase socialista, a cantora chegava de surpresa a uma cidade, distribuía panfletos à tarde (ela mesma!) e fazia um show de graça à noite em uma praça pública. O projeto era cheio de detalhes que ocultavam o nome dela até na reserva do hotel. Em uma das cidades, ela conseguiu reunir em uma praça, após cinco horas de divulgação, 100 mil pessoas. Cem mil brasileiros que jamais veriam um show de Marília. O projeto não tinha patrocinadores, não havia nenhuma grande marca por trás, apenas o dinheiro da própria artista. Sem marcas, ela conseguiria mais facilmente autorização dos órgãos públicos para suas apresentações. Ela deixava claro que o propósito era levar sua arte, não uma marca.

De fato, esse projeto a tornou realmente popular. Ou melhor, isso fez da sua música uma arte realmente popular.

Voltando ao mercado publicitário: na live, Marília aceitou apenas que três grandes marcas anunciassem. Todas muito populares, empresas gigantescas. A fila de anunciantes na WorkShow, escritório que gere a sua carreira, dobrava a esquina. Aliás, ela só faz parte de um escritório e não se torna independente só para não ter que se preocupar com problemas que vão além da sua música. Ela sabe que desfocaria da arte se tivesse que cuidar de outros detalhes da carreira.

E mais: nenhum empresário no mundo vai impor algo a Marília. Ela dá as cartas, ela dá a palavra final sobre tudo. Desde a simples entrevista ao anunciante da sua live. Se no início da carreira de cantora, ela não se submeteu ao "padrão" de estar de salto alto no palco... Imagine agora, consagrada. Dinheiro não compra Marília. A opção dela é sempre pelo mais simples, pelo mais humano, pelo mais real. Marília é a senhora do seu destino.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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