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Mauricio Stycer


Entre erros e acertos, Gugu Liberato foi uma das caras da TV brasileira

Gugu Liberato apresenta o Canta Comigo, um de seus últimos trabalhos na TV  - Reprodução / Record TV
Gugu Liberato apresenta o Canta Comigo, um de seus últimos trabalhos na TV Imagem: Reprodução / Record TV
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

22/11/2019 21h09

Por ironia do destino, a notícia sobre o acidente que causou a morte de Gugu Liberato foi divulgada justamente na data consagrada pela ONU como o Dia Mundial da Televisão, 21 de novembro.

Gugu dedicou-se à televisão por 40 dos seus 60 anos de vida. À frente de diferentes programas desde 1981, primeiro no SBT e depois na Record, ele integra uma espécie de força de elite, formada basicamente por homens: os grandes comunicadores que, com apenas um microfone na mão e muito jogo de cintura, comandaram programas de auditório extremamente populares.

Gugu é cria de Silvio Santos, com quem teve uma relação muito frutífera, mas também tumultuada. No final dos anos 1980, o mentor prometeu ao pupilo, para não perdê-lo, que ele seria o seu sucessor, o que nunca ocorreu.

Ainda assim, o contrato assinado - e depois cancelado - com a Globo colocou Gugu em outro patamar dentro do SBT. Em 2016, ele disse, referindo-se a este famoso episódio: "Quem me proporcionou a maior mudança na minha vida foi o Boni, a quem eu devo a minha carreira". A frase foi vista como ingratidão com Silvio, mas não era, como explicou Homero Salles, diretor que o acompanhou por décadas.

Como outros comunicadores bem-sucedidos, Gugu se tornou um empresário atrás das câmeras. Investiu em diversas áreas do entretenimento, da música à gestão de talentos, passando pela produção audiovisual. Tentou até ser dono de um canal de TV, mas não conseguiu.

É difícil verbalizar o que explica o sucesso de um apresentador de TV. Estamos falando, por um lado, de fatores incomensuráveis, como carisma, simpatia, empatia, aparência, voz, gestual.... E, por outro, da capacidade de magnetizar o espectador com as atrações a seu dispor.

Gugu, em particular, com seu jeito quase infantil, ingênuo, sempre transmitiu a impressão de que se surpreendia com tudo que exibia. Não importa se isso é verdade ou não. Importa que o espectador notava emoção quando Gugu parecia emocionado, tristeza quando o apresentador parecia triste, e graça quando ele gargalhava.

O auge de Gugu Liberato como apresentador coincide com um período, entre os anos 1980 e meados da primeira década do século 21, em que os programas de auditório eram o principal local de lazer, a praça, do brasileiro. Tudo acontecia ali. O "Viva Noite" (1982-92) e o "Domingo Legal" (1993-2009) comandados por Gugu funcionam como um bom resumo do que foi a TV brasileira neste período.

Como tantos outros, Gugu apelou muito, com a banheira, com a camiseta molhada, com a dança da garrafa, com um sem número de artifícios destinados a manter o espectador agarrado à televisão. Foi longe demais ao hospedar a farsa do PCC, em 2003, e tenho a impressão que perdeu o prumo ao ver o mundo desabar em cima de si.

O Gugu que vai para a Record com salário milionário em 2009 já não tem o mesmo viço, assim como parte do público já não tem o mesmo interesse pelas atrações de outrora. Sem as audiências de dois dígitos de outros tempos, investe em assistencialismo, o mausoléu de Dercy, doenças, anões e, de forma patética, até revive a banheira.

Contrato interrompido em 2013, ele volta à emissora dois anos depois, em condições menos favoráveis, primeiro como produtor do próprio programa, depois para ser apresentador de formatos estrangeiros - Power Couple, Canta Comigo. É neste contexto que ele me disse, em abril deste ano:

"Estamos na onda dos formatos e não sei até quando isso vai durar. Alguns desses formatos já vêm até com faturamento garantido de multinacionais. Isso torna-se muito mais interessante para as emissoras: investirem em algo cujo retorno financeiro é praticamente garantido."

E acrescentou, com alguma nostalgia: "Também já não se formam novos comunicadores como antes. Praticamente todos os veteranos trabalharam no rádio. Essa experiência é muito importante. Digamos que não precisa ser apresentador ou animador para apresentar um formato".

Gugu estava fazendo 60 anos quando deu esta entrevista, uma das últimas: "Gostaria de ter realizado muito mais coisas", disse. Não é verdade. Fez bastante coisa e será sempre lembrado.

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