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Mauricio Stycer


"Filhos da Pátria" termina dizendo que o Brasil está condenado à esperança

Johnny Massaro, Fernanda Torres, Alexandre Nero, Lara Tremouroux e Jéssica Ellen, o elenco de "Filhos da Pátria" - Divulgação / Globo
Johnny Massaro, Fernanda Torres, Alexandre Nero, Lara Tremouroux e Jéssica Ellen, o elenco de "Filhos da Pátria" Imagem: Divulgação / Globo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

11/12/2019 05h01

Autoritarismo, corrupção, racismo, machismo, provincianismo, desigualdade, miséria... De forma engenhosa, mas melancólica, "Filhos da Pátria" mostrou que os males do Brasil são imunes ao tempo.

Foram duas temporadas, separadas por mais de um século, mas não muito diferentes. E, pior, dois tempos que em muitos aspectos lembram os dias atuais. A primeira, exibida no segundo semestre de 2017, se passou em 1822, logo após a Independência. A segunda, que terminou nesta terça-feira (10), foi ambientada entre 1930 e 1937, entre a Revolução de 30 e a decretação do Estado Novo.

A boa ideia de transpor todos os personagens da primeira temporada para a segunda ajudou a reforçar esta impressão de que o tempo não passa no Brasil. Em ambas, acompanhamos a trajetória de Geraldo Bulhosa, um burocrata medíocre que se envolve com o que há de pior no serviço público, e sua mulher, Maria Teresa, uma arrivista inconsequente, que sonha com a boa vida.

Nas duas temporadas o nosso herói, naturalmente, se estrepa, engolido por gente mais esperta e ambiciosa, em particular o maquiavélico Pacheco. Mais sábia que os patrões, a empregada da família, Lucélia, alivia a barra dos Bulhosa em várias ocasiões, mesmo soterrada pela discriminação racial.

Um elenco de primeira ajudou a encenar momentos memoráveis desta tragicomédia narrada em tom de farsa. Fernanda Torres e Alexandre Nero brilharam muito, junto com Matheus Nachtergaele, Jéssica Ellen, Johnny Massaro, Lara Tremouroux e Serjão Loroza.

Como disse Bruno Mazzeo, ao final da primeira temporada, "o Brasil não para de oferecer material" para uma série como "Filhos da Pátria". A excelente segunda temporada comprovou o que ele queria dizer e deixou claro que há ainda espaço para mais desdobramentos.

Todo episódio da "Filhos da Pátria" começa com uma frase famosa. Na estreia, há dois anos, a epígrafe foi uma reflexão de Nelson Rodrigues (1912-1980): "Subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos". A do décimo e último episódio da segunda temporada, de autoria de Millôr Fernandes (1923-2012), dizia: "Brasil, condenado à esperança".

"Filhos da Pátria" foi criada e escrita por Bruno Mazzeo, com a colaboração de Barbara Duvivier, Dino Cantelli, Guilherme Siman, Rosana Ferrão, Tati Bernardi e Tatiana Maciel, e direção-geral de Henrique Sauer

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