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Mauricio Stycer


Qualquer apresentador pode opinar ao vivo como Jessica Senra, diz Globo

Jéssica Senra critica, ao vivo, em telejornal da TV Bahia, a intenção do Fluminense (BA) contratar de goleiro Bruno  - Reprodução/Tv Bahia
Jéssica Senra critica, ao vivo, em telejornal da TV Bahia, a intenção do Fluminense (BA) contratar de goleiro Bruno Imagem: Reprodução/Tv Bahia
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

10/01/2020 14h25


O comentário da apresentadora Jessica Senra no telejornal Bahia Meio Dia, criticando a intenção do Fluminense de Feira de Santana contratar o goleiro Bruno, teve tanta repercussão que o clube até desistiu da ideia. A fala da jornalista repercutiu dentro da Globo também. Afinal, ela emitiu uma opinião forte, no meio de um programa jornalístico, fato muito incomum na emissora.

Questionei o diretor de jornalismo da Globo a respeito. Ali Kamel observou que não é responsável pelo jornalismo das afiliadas, como a TV Bahia. Elas são independentes, ainda que devam seguir os princípios editoriais da Globo.

Dada a repercussão do caso, Kamel diz que conversou com o diretor de jornalismo da TV Bahia, Eurico Meira. O telejornal fez uma reportagem sobre a possível contratação do ex-goleiro. Ouviu três pessoas com falas a favor da contratação e uma contrária. Jéssica propôs ao editor-chefe fazer o comentário expondo o ponto de vista dela. E foi autorizada.

"Desejamos e precisamos que pessoas que cometem crimes tenham a possibilidade de refazer suas vidas, mas diante de um crime tão bárbaro, tão cruel, poderíamos tolerar que o feminicida Bruno voltasse à posição de ídolo? Que mensagem mandaríamos para a sociedade?", perguntou Jessica Senra no ar, sempre se referindo ao jogador como "feminicida".

"O comentário não fere os nossos princípios. É vedado a todos se posicionar politico-eleitoralmente. Ou partidariamente. Mas, especialmente no jornalismo local, comunitário, criticar serviços administrativos mal feitos, criticar falta de segurança, coisas assim, é plenamente aceitável, desde que com contraponto, como houve", diz Kamel.

"O caso é bem raro, por envolver uma questão moral", acrescenta. "Mas foi legítimo o posicionamento dela e do telejornal (que trouxe opiniões contrárias à dela e, mais tarde, expôs mensagens na internet contra e a favor durante o jornal)".

Kamel acrescenta que os apresentadores de telejornais locais da própria Globo têm autorização para opinar. "E, sim, (Cesar) Tralli e (Rodrigo) Bocardi e qualquer um poderiam agir igual. Aliás, já agem, criticando mau atendimento na saúde etc etc. Desde que com opiniões contrárias".

Jessica Senra ficou conhecida nacionalmente ao participar do rodízio de apresentadores da Globo nas comemorações dos 50 anos do Jornal Nacional. Ela voltará a sentar na bancada do JN em pelo menos dois sábados de 2020, em 8 de fevereiro, ao lado de Heraldo Pereira, e em 27 de junho com Cesar Tralli.

Apresentadora desabafa sobre interesse de clube em goleiro Bruno

Veja abaixo a íntegra do comentário de Jessica sobre o goleiro Bruno:

Eu acredito na recuperação do ser humano. Acredito que a maioria das pessoas merece outras chances depois que comete erros, porque errar é da essência humana. O perdão é um dos sentimentos mais belos que podemos cultivar. Mas perdoar alguém não significa esquecer o que esse alguém fez nem permitir que esse alguém continue em nossa vida. Perdoar e dar uma nova chance não apaga o que foi feito, não se pode fingir que nada aconteceu. Embora juridicamente o cumprimento de uma pena libera o condenado para seguir sua vida normalmente, é socialmente que precisamos pensar no que toleramos ou não. Nem tudo é apenas questão de lei. Há comportamentos legais que são imorais. Um condenado pode e deve ser ressocializado. Deve merecer uma segunda chance. Mas penso que, depois de um crime tão perverso, voltar a ser ídolo, a estar numa posição que lhe confere status de ídolo, é bastante questionável. Penso que o feminicida deve voltar ao trabalho, mas não no futebol, não como ídolo. Defendo sua ressocialização, mas longe de qualquer torcida. E isso não é a lei que vai decidir. É a sociedade. E se ele tivesse estuprado um bebê? O que os "fãs" diriam? Lembro que há pouco mais de dois anos, jogadores foram flagrados num vídeo masturbando uns aos outros no vestiário de um clube gaúcho. Os quatro jogadores foram dispensados. Seus nomes, inclusive, foram poupados para evitar que eles fossem banidos do futebol. E é bom que fique bem claro: eles não cometeram crime algum, não fizeram nada contra a vontade de ninguém! Mas, absurdamente, a homossexualidade ainda é intolerável no futebol. Ser feminicida é aceitável? O que você pensa disso? #NãoAoFeminicídio

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