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Por que "Fina Estampa" é a novela certa para esta hora incerta

A batalhadora Griselda (Lília Cabral) é a protagonista de Fina Estampa, que volta ao ar nesta segunda-feira  - Reprodução / Internet
A batalhadora Griselda (Lília Cabral) é a protagonista de Fina Estampa, que volta ao ar nesta segunda-feira Imagem: Reprodução / Internet
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

23/03/2020 06h01

A escolha de "Fina Estampa" como novela-estepe das 21h em tempos de pandemia de coronavírus gerou muita reclamação no Twitter, o que não surpreende ninguém, porque o Twitter reclama de tudo. Por vários motivos, a trama de Aguinaldo Silva parece ser uma escolha perfeita para estes dias tenebrosos que estamos passando.

Exibida entre 22 de agosto de 2011 e 23 de março de 2012, em 185 capítulos, "Fina Estampa" foi a novela do horário com maior audiência desde "A Favorita" (2008-09), de João Emanuel Carneiro.

Com média de 39 pontos, a história de Aguinaldo Silva recolocou a faixa das 21h num patamar que ela havia perdido com as três novelas anteriores, "Viver a Vida" (2009-10), "Passione" (2010-11) e "Insensato Coração" (2011), todas com média em torno dos 35 pontos.

De "Fina Estampa" até "Amor de Mãe" (2019-20), já foram exibidas 15 novelas - e nenhuma superou a média de audiência da trama protagonizada por Griselda, vulgo Pereirão (Lilia Cabral), Tereza Cristina (Christiane Torloni) e Crô (Marcelo Serrado).

Com a missão de elevar o Ibope do horário, Aguinaldo Silva utilizou uma arma infalível. "Quero fazer uma novela como se fazia antigamente. Tenho uma boa história, uma história popular", disse antes da estreia.

O duelo entre Griselda e Tereza Cristina opõe, de um lado, com tintas naturais, uma mulher trabalhadora, de princípios retos, corajosa, dedicada aos filhos e amigos. Do outro, em tom de farsa, uma mulher nascida rica, inescrupulosa, invejosa e má.

A história se passa na Barra da Tijuca, mas na cabeça de Aguinaldo é no interior do Brasil. "Vou contar um segredo: continuo fazendo novelas rurais. Nenhuma novela minha é urbana. Você acha que a Barra da Tijuca de 'Fina Estampa' existe? É uma cidade do interior", disse ele no "Roda Viva", na TV Cultura, a dez dias do final da trama.

Griselda sobe na vida não graças ao seu trabalho, mas a um golpe do destino, um bilhete da loteria. Ainda assim, a personagem ensina como não se distanciar jamais dos princípios corretos. Vira milionária, vai morar numa mansão, mas jamais contrata uma empregada ou faxineira e continua usando o macacão no trabalho. A personagem é uma espécie de ação de responsabilidade social ambulante, sempre pronta a matraquear lições de moral de almanaque.

Tereza Cristina (Torloni) e Crô (Serrado) - Globo/João Miguel Júnior - Globo/João Miguel Júnior
Tereza Cristina (Torloni) e Crô (Serrado) dão o tom cômico da novela
Imagem: Globo/João Miguel Júnior
O antídoto contra esse discurso politicamente correto é a vilã de desenho animado que Aguinaldo criou e deixou voar. Ao redor de Teresa Cristina, gravitou um núcleo de humor, que acabou se destacando, formado pelo mordomo Crô (Serrado), o motorista Baltazar (Alexandre Nero), o segurança Ferdinand (Carlos Machado) e a empregada Marilda (Katia Moraes), além de agregados, como Pereirinha (José Mayer), entre outros.

Sem preocupação alguma com o realismo ou a lógica, as tramas de "Fina Estampa" obedeceram basicamente à missão que Aguinaldo Silva recebeu: levantar a audiência. Personagens entram e saem sem avisar, outros permanecem sem dizer a que vieram, e muitos agem sem qualquer lógica.

Num determinado capítulo, Tereza Cristina encomenda a Ferdinand a morte de Amália (Sophie Charlotte), filha de Griselda. Seu plano, mirabolante, prevê que uma cobra, colocada no carro da menina, provoque um acidente.

Ao executar a ação, Ferdinand observa: "Madame, a senhora tem cada ideia. Uma cobra? Eu vou te dizer que nunca vi nada tão absurdo nem numa novela". Ao que Tereza Cristina rebate: "É? Pode parecer absurdo, sim. Mas é como na novela, meu querido. É assim que o povo gosta".

Aguinaldo mostrou que tinha razão em 2011 e, creio, se a edição dos capítulos não tornar a trama incompreensível, repetirá o acerto em 2020.

Mauricio Stycer